Durante a noite não conseguiu
dormir. Revirou uma pilha de papéis velhos que estavam no fundo do armário,
arrumou os livros na estante e até limpou a casa, mas o sono não veio. Nem os
devaneios causados por meia hora de Chopin o fez cair no sono. Estudar
tampouco. Ele estava ali, no quarto, condenado, e sua única companhia era a
solidão. Os lençóis ainda estavam bagunçados porque neles não quis mexer. Saiu
conversou sobre política e futebol com o porteiro da madrugada. Contou quantos
azulejos existem entre o hall e sua porta da frente. Comeu um miojo. No entanto
não conseguiu ver um filme completo. Para esse hobby ele sempre precisou de
total descompromisso e naquela noite ele estava prometido à inquietude dos
noturnos. Viu uma luz entre a cortina, foi à janela, observou a rua e nada viu.
Estava Fatigado de si e de seu infortúnio. Encontrou velhas cartas em uma
gaveta, leu todas e se sentiu em outro lugar e momento por um breve instante. Aquilo
não o fez bem, pois não queria encontrar aquilo de que não queria se lembrar.
Guardou as cartas, abriu o computador e escreveu uma crônica. Assim, pela
primeira vez durante toda a noite, conseguiu ter foco. Deitou e dormiu ainda
sem ter sono. Acordou ainda com vontade de dormir.
terça-feira, 13 de maio de 2014
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Na boa?
Na boa?
A gente tá muito acertadinho, muito certinho
A gente tá cheio de inho
Noite passada me peguei com horário para dormir
E acertando o horário para acordar
Estamos cheios de horários e esquecendo a hora de se perder
Pois, na boa? A gente deve se perder de vez em quando
Se perder
Deixar de se ter
Pegar uma bicicleta no feriado
Com alguma grana para não passar fome
Sair, se perder, dar trabalho ao tempo que nos dá trabalho
E ir sozinho, só com esse inho
E lá, perdido, encontrar o que a gente sempre foi
Do jeitinho que estávamos quando choramos da primeira vez
Lá, perdido, o tempo não faz sentido
Sentindo o real sentido de sentir
Cara, na boa? Deixa de querer só ganhar
Só gananciar
Perde, cara! Acorda e perde!
Pede pra jogar peteca com um menino e perde!
Passa o troco sobrando para o padeiro
E mostra que tá sobrando!
Perde! Saca, assim, ganhar não significa nada
Saca? Na boa?
Só se perdendo é que a gente volta a se achar
E não há nada melhor do que se achar
Por não haver nada melhor do que se perder
Rafael Martins
Texto de um antigo e verdadeiro amigo que, assim como eu, gosta de se perder para se encontrar
quinta-feira, 3 de abril de 2014
De onde você é?
Pessoas interessantes não têm
pudor. Calma, eu explico. Elas vivem intensamente, a seu modo. Não pedem
permissão. Elas mudam de cidade. Investem em projetos sem garantia. Fazem novas
amizades. Não criam expectativas. Elas se interessam por pessoas que são o oposto delas.
Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam convites para fazer algo
que nunca fizeram. Estão sempre dispostas a mudar de cor preferida, de prato
predileto. Começam do “zero” várias vezes. Não se assustam com o passar do tempo.
Sobem no palco. Fazem loucuras por amor. Compram passagens só de ida.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Doce distração
Vi no meu armário uma antiga
camisa que tem escrito “i lost my Love in a storm”. Bem, foi um dia de chuva. Grandes turbulências
acontecem repentinamente, no entanto, elas têm nome e lugar para acontecer.
Nosso estado de espírito é provocado através da pessoa que nos tira o sono.
Pior é conviver com ela que é o motivo de nosso enclausuramento em pensamentos
ilógicos.
O amor é opressor, tira nossa
energia, ao mesmo tempo em que se alimenta de si. Às vezes penso em não ter
visto nada além do superficial, mas você me incomodou. E ficará assim por um
bom tempo, até que passará. O tempo não cura feridas, apenas põe fim a uma
ressaca. E eu estou com ressaca de você. Ironicamente, a vontade de beber vinho
é tão grande quanto a de melhorar.
Espero que fique bem, é provável
que não a veja mais e que aos poucos sairá do meu coração. Espero que fique
bem, pois você não sabe, mas foi mais do que uma doce distração.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Dois
Ele era diferente, tinha
modas e manias, caminhava rapidamente, coçava a cabeça quando estava ansioso e possuía
uma incrível preocupação com o tempo, talvez por sua composição astrológica que
ele teimava em não acreditar. Ela era séria, tinha um olhar triste, mas era
carinhosa e gentil, possuía um ciúme irresistível e cultivava uma modéstia
admirável.
No apê dele, sempre víamos as
roupas amassadas no canto do quarto, as chinelas quase embaixo da cama, papéis
compartilhando o espaço de cima da mesa marrom que ganhara da tia, capas de CDs
nas gavetas e o notebook aberto com algum filme passando. Ela sempre achou
estranho sua mania de cinema. Via-o com olhos de alguém bobo, mas
irresistivelmente atraente e interessante.
Os dois combinavam. Gostavam da
discrição e das aventuras entre as quatro paredes. Tinham sonhos e objetivos,
vidas e vivências. Ele ia e ela o seguia, não atrás, ao lado. Gostavam de
tardes no parque e de barzinhos na madrugada.
Porém, um dia a conversa parou. As
ligações cessaram, mudaram de horário, e demoravam a ser atendidas. As
divergências sempre existiam, mas eram ofuscadas pela opressão dos sentimentos
bons e das noites de vinho no tapete da sala dele. Não importa como, os rostos
ficaram inconvenientes e, de repente, a fala tornou-se grito. Minto, eles não
brigavam, se evitavam. Do sol quente e da cerveja gelada, sobrou o alento das
lembranças. O sábado tornou-se depressivo e o saudosismo suas primeiras
palavras.
Um dia, a vida a dois deixou de
ser fantasia ou romance e se tornou apenas vida a dois. Foi isso que eles
perceberam. E aos poucos as conversas voltaram. A conformação era o sentimento
mais límpido que repousava nos travesseiros. O amor tem um pouco de
compreensão. Dizer “te amo” não é um “bom dia”. Ela entendeu. Ele se adaptou.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Lembranças e pipocas
Lembranças são partes da vida que
ficaram para trás, mas que, em sua maioria, colaboraram para construir o que
somos hoje. Quem me conhece sabe que costumo lembrar, reconstruir pensamentos,
mas nunca buscar corrigir algo, pois tudo já passou. Um amigo hoje me mandou
uma mensagem, e as lembranças vieram no rodapé.
A nostalgia é um sentimento que
me incomoda, mas é bom, por sinal. Surgi para fazer você não esquecer do pouco
que passou, viveu para estar onde conseguiu chegar. Se não sente nada ao se
lembrar, é porque não viveu verdadeiramente aquele momento. Simplesmente
passou. Lembrar das idas ao São Francisco para ver filmes, das ladeiras ao som
do brega do sábado a noite, do banheiro com a placa “beco da bosta”, de dormir
em uma rede sob o ar-condicionado e passar madrugadas com Lars Von Trier,
Kaufman, Allen e R. Kelly foi arrebatador naquele momento em minha vida. Uma
verdadeira reconstrução audiovisual, de vida, e, ao mesmo tempo, a concretização
de uma ótima amizade.
Meu amigo disse que “a vida tem
disso mesmo”. É verdade. Ela, por si só, não possui existencialidade própria,
mas seu significado aparece nos momentos em que nos dedicamos a algo ou
compartilhamos objetivos. Ver que algo foi importante, é lembrá-lo com
nostalgia, ou melhor, saudades.
A um amigo.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Adaptação
E debaixo do tronco de uma árvore
na mata, escondidos. Em meio aos tiros que precediam a morte e o frio. Conversaram
pela primeira vez sinceramente.
Charles: Lembro que você gostava
da loira da 4ª série. Você tentava chamar sua atenção, mas quando virava as costas, ela ria de você.
Don respondeu: É verdade, sabia
que ela ria de mim. Mas a amava.
Charles: Mas ela te achava
patético!
Don: Isso já era problema dela. Meu
irmão, você é aquilo que ama, não quem ama você.
Depois de um tempo percebi que
não era a sua ausência que me fazia sofrer, mas sim, era o que restava de seu
amor que me fazia verdadeiramente viver. Manter-se preso é um modo de sobreviver.
Sinta e tenha orgulho disso, a opinião alheia não mudará nada. E quase sem
querer perceberá, em uma noite qualquer, que você é aquilo que ama, e não quem
ama você.
.
sábado, 9 de novembro de 2013
A Ilusão da igualdade
A escola pública não consegue preparar seus alunos para o
Enem e os vestibulares tão bem quanto as escolas particulares de ponta.
Solução: melhorar a qualidade do ensino público? Não: criar cotas nas universidades para alunos egressos de escolas
públicas. O sistema político-partidário é tradicionalmente dominado por homens.
Solução: iniciativas para enfrentar a cultura machista e discriminatória? Não:
criar cotas de reserva para candidatas mulheres nas eleições legislativas. A programação de emissoras de Rádio e televisão privilegia músicas e
filmes estrangeiros. Solução: estimular a formação de artistas nacionais, a
produção de suas criações em meio digital e multiplicar festivais e eventos de
divulgação de suas obras? Não: criar cotas mínimas de programação de conteúdo
nacional em Rádio e TV.
O Brasil não enfrenta
seus problemas objetivamente. No país, quando qualquer grupo se sente
prejudicado ou sub-representado, a política busca atalhos, e não a resolução efetiva,
que demandaria debate, persistência e vontade geral. Vende-se a ilusão de
que as cotas, por si só, reparariam injustiças históricas e estabeleceriam
algum tipo de equilíbrio de
representatividade entre os diversos grupos sociais. É ilusão, pois cada ser
humano encerra muito maior valor ou complexidade do que apenas a sua origem
geográfica ou étnica, identidade religiosa ou sexual, características físicas
etc.
A utilização abusiva e sem critérios do atalho das cotas
pode gerar distorções piores que as que pretende enfrentar, gerar tensões e ressentimentos e, principalmente, adiar o debate
quanto a soluções efetivas para desigualdades constatadas. Porque não cotas de
gênero? Porque não cotas religiosas? Porque não cotas de acordo com a origem
dos candidatos segundo as diversas regiões do país, ou do estado, ou dos
bairros de uma cidade? De acordo com o projeto, até 40% das vagas de cada concurso
poderão ser destinadas não àqueles que se prepararam melhor e que num certame
aberto se classificaram como os mais aptos a exercerem determinada função
pública, mas sim aos que se enquadrarem em algum critério arbitrário de
inclusão em segmento protegido por cotas. A proposta é extremamente nociva.
Fere a isonomia, desestimula a meritocracia e, a médio prazo, tende a piorar a
qualidade do serviço público. Não contempla nenhuma metodologia científica
séria, sociológica, antropológica ou gerencial, masapresenta o sedutor discurso
de compensação de injustiças seculares, como se, para compensá-las, fosse
necessário praticar outras injustiças no presente. É importante que o Senado
discuta e aprimore esta proposição.
Não parece longe o dia
em que algum legislador, constatando que há mais de 30 anos um time do
Nordeste, Norte ou Centro-Oeste não vence o Campeonato Brasileiro de Futebol da
Série A, irá propor algum tipo de critério de cotas para supostamente fazer
justiça aos brasileiros dessas regiões.
Com uma diferença, a
reserva de 20% praticamente fará com que o concurso perca o caráter
concorrencial. Ou seja, bastará ao negro tirar a nota mínima para conquistar o
cargo. Isso não é direito. É privilégio. De fato, se somarmos os 20% possíveis
para as pessoas com deficiência com os 20% possíveis para os negros, então
poderemos ter 40% dos servidores entrando no serviço público não por meio de um
concurso, mas por meio de um teste de aptidão mínima, tal como é o Exame da
Ordem dos Advogados. É uma política paliativa e desarrazoada.
Sem mais.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Simplicidade do complicado
Perdemos mais tempo arrumando desculpas
do que vivendo. Adiando do que aceitando a dificuldade. Perdemos mais tempo
explicando a desistência do que enfrentando o sim. Garanto que a fuga dá mais
trabalho do que se encontrar, pois estaremos longe, mas com saudades. Estaremos
protegidos, mas vazios. Aliviados, mas entediados. A vida é simples, não há
como acalmar o coração senão vivendo. Parece que não conseguiremos, mas
acredite, a vida é feita de sustos bons. Os riscos valorizam a recompensa e viver
não é para solitários.
Pensei que nunca me equilibraria
em uma bicicleta, mas minha mãe fingiu que segurava minha garupa e pedalei de
olhos fechados. Pensei que nunca aprenderia a ler, mas as letras garrafais e
bem delineadas da “tia” da escola foram minhas primeiras histórias. Pensei que
não teria namorada, mas o beijo veio distraído no recreio da segunda série.
Pensei que não entraria na faculdade, mas sacrifiquei noites sobre livros e
depois desfrutei de boas calouradas. Pensei e fui fazendo e fazendo.
Acha que somos impossíveis, mas é
do impossível que o amor gosta. O impossível é o possível repartido.
Texto adaptado.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Aos novos, aos antigos
Para as amizades não existe
conceituações objetivas e definitivas. Se você é amigo, não respeitará
convenções sociais. A educação ficará em segundo plano diante de dois amigos em
uma mesa de bar. O escárnio e o respeito andam juntos em uma mesma sintonia.
Não determino a origem das
amizades. Amigos não decoram a data do primeiro abraço, riso ou do primeiro
porre. A amizade tem uma memória alforriada. Jamais liga para fazer comparações
ou testar afinidade. Não lamentaremos injustiças, mas riremos do tempo passado.
Amigo que é amigo te deixa
desconfortável, ele te desconsola. Ele não dará “tapinhas” nas suas costas e
dirá “É assim mesmo.” Não! Ele te dará um tapa na cara e dirá para você olhar
para cima e que a tristeza passará. Fará você rir de si mesmo para ver o que já
superou na vida. O amigo de verdade mostra suas vulnerabilidades, ele te
exibirá como uma relíquia e fará com que todos saibam que você está ali.
Em momentos cruciais e difíceis ele
sempre mostra sua boa crueldade. Ensinar-te-á a ver não o óbvio, mas o
verdadeiro. Na amizade não há espaço para romantismos. Amigo de verdade não te pedirá um
copo com água. Ele abrirá sua geladeira e tomará sua coca-cola. Não há rótulos
que o identifique, há ações.
Aos novos, aos antigos.
(Foto: cena do filme "the intouchables")
(Foto: cena do filme "the intouchables")
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Ao tempo, uma poesia
O brilho de seus cabelos castanhos amanheceu em
minha mente naquele dia.
Era incomum isso para mim.
Lembrara da noite em que a vi, disse “oi” e ela
sorriu para mim.
Cheguei em uma fria madrugada,
Vi as ruas em uma bela tarde,
Discursei em uma noite com amigos,
e em outra, despretensiosa, a vi.
Como um barco que busca a terra distante,
Como uma música que busca ouvintes perdidos na
madrugada,
Como a fé que não necessita de justificativas para
existir.
Sempre admirei a terra molhada, após um dia de
chuva.
Mesmo após um temporal, lá nasce a vida.
Simples, calma, justa, diferente.
O carinho inoportuno é sempre o mais interessante,
o mais vivido, o mais prolongado.
Talvez ela seja assim em mim.
Espero aprender a admirá-la ainda mais.
Não há celebração que a mereça.
Não há humildade que combata sua ternura.
Não há apresentação que vença sua chegada.
Não há elogios que revivam suas palavras.
Agradeço ao destino, ou ao mundo pequeno.
Para você.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Cão manco
Sou devoto dos cachorros mancos. Aquele cachorro com uma perna
imaginária, apoiando-se no vento. Admiro imensamente o vira-lata que, apesar de
quebrado, percorre seu trajeto com o focinho erguido. Irei segui-lo na rua para
descobrir o que come e onde mora. Posso entornar as latas de lixo para me
tornar igual. Fico curioso e assombrado pela força sobrenatural que emana de
seu andar. Ele perdeu a pata, mas não a estrada. Ele perdeu a pata, mas não a
vontade. Ele perdeu a pata, mas não a esperança. Ele perdeu a pata, mas não
perdeu a lembrança de caminhar.
Não tenho pena dele, nem cometo o desatino de me comparar. O cão manco é
um homem inteiro.
Passeia por mim e não pede desculpa. Não menosprezo sua convicção: o
cachorro manco também corre. O cachorro manco talvez voe. O cachorro manco
esquece que tem chão. Sua esperança é uma centopeia apressada.
Ele não se entregou ao encolhimento, continua se arriscando no trânsito
pela compreensão. Aceitou apenas que a vida não é perfeita e ninguém é capaz de
controlá-la.
Os homens com vergonha de amar deveriam adotar um cachorro manco e
contemplar o esforço da ausência. Segurar a patinha inexistente e enxergar o
quanto ela é musculosa. Encarar os olhos carentes desprovidos de cílios, nada separando a
realidade do fundo das pupilas. Sua aparição transforma nosso jeito de desejar
o mundo. É só pegar o animal no colo que paramos de reclamar dos pequenos
aborrecimentos. Desistimos do orgulho. Nasce uma suave fé da carícia. Porque o
cão manco confia antes de conhecer. Faz festa mesmo sem ser convidado. No
amparo estranho, abanará o rabo e tremerá de contentamento. Ele sofreu e não se
tornou arredio. Sofreu e não deixou de oferecer o coto.
Um cão manco é uma passagem para a infância – ele lambe o rosto para
lavar pudores e ressentimentos. Aceita um prato de comida como se fosse o seu
próprio aniversário. Harmonioso na falta, nos diz que não dependemos de
equilíbrio, e sim de um lugar para ir.
O cão manco é meu professor de transcendência. Explicou-me que eu não
posso amar por dois, posso amar por três, quatro, cinco, o que precisar para
retribuir a ternura de outro amor.
Carpinejar.
sábado, 17 de agosto de 2013
Enganos e Acertos
Olhar, sorrir, mentir. O amor
abre espaços para enganos. Enganamo-nos para viver a dois. A beleza da
cumplicidade e a frieza da indiferença convivem lado a lado. Quando você acerta
é porque errou há tempos. Possivelmente já perdoou seus arrependimentos e encontrou
novos motivos para pedir desculpas. Como vivemos eternamente enganados no amor?
Talvez porque o engano retira-nos
da mesmice sentimental. A apatia de nosso conforto é provocada pelo interesse
afetivo, que cresce e se distribui promiscuamente em nossos pensamentos. O
interesse é orgulhoso e objetivo. A minha mente me sabota quando durmo. A
dúvida da humanidade é saber se evoluímos com os nossos amores e enganos, ou
apenas enterramos velhos sentimentos em um cemitério de recordações não
vividas.
Lembrei, lendo hoje este poema:
“Como nos enganamos fugindo ao
amor, como o desconhecemos talvez com receio de enfrentar, sua espada coruscante,
seu formidável poder de penetrar o sangue e nele imprimir uma orquídea de fogo
e lágrimas”.
Foto do filme: Brilho eterno de uma mente sem lembranças
sábado, 10 de agosto de 2013
No outro lado do quarto
Há algum tempo não escrevo neste
blog, creio que devido a situações em minha vida recente. Situações boas,
dessa vez. Bem, de qualquer modo, temo pelo despreparo dessas linhas, mesmo
quando ainda estão apenas em minha mente.
Observando a cortina, o tapete, a
TV, às vezes sinto um leve sussurro de “Boa Noite” da solidão do outro lado do
quarto. Já somos amigos. Então, lembrei. Penso que não devemos ter esperança
em algo, mas fé. A fé nos move, nos evidencia, ela prova quem somos. A
esperança morre, para e espera algo que não teremos se assim fizermos jus ao
seu nome.
Não tenho esperança na igreja, ou
no fim da fome na África, ou na abolição da corrupção em nosso país. Tenho fé
no que podemos fazer, construir, mudar. Se sinto fome, como. Se estou animado,
brinco. Se estou triste, me calo. Palavras não ditas são filosofias escondidas.
Se tenho esperança, pratico a fé. E a minha é deslocada, atípica, sutil. Se
você a percebe, é por que deixei que você percebesse. Minha expressão de fé não
é vã. Eu a exerço quando te observo, toco em você e deixo um gesto no ar. Minha
fé está no pequeno espaço entre nós.
Se você sofre, tenha fé. Não ache
que ninguém quebrará o monopólio de sua dor. Termine de se arrepender e
pratique mais de você. É preciso discutir a fé quando combatemos a esperança
preguiçosa. E quando fecho meus olhos e vejo você, falo de fé com a solidão no
outro lado do quarto.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Democracia contra a letargia
As manifestações realizadas
nestes dias buscam diversas reivindicações e não se voltam apenas para a queda
de um regime de governo. Essa pluralidade de questionamentos traz à tona uma
dúvida sobre nossa democracia e sua eficiência.
Bem, ao contrário do que muitos
pensam, nosso sistema eleitoral/democrático funciona (e muito bem). É um dos
mais modernos do planeta. No entanto, vivemos, creio eu, uma crise de
representatividade, onde quem assume cargos políticos não nos representa de
fato, ou extravia-se dos objetivos que outrora defendia.
Penso que a população cansou de
ver na pauta política discutida assuntos irrelevantes ou que, direta ou
indiretamente, tornar-se-ão inúteis com o tempo. Projeto de cura gay, aumentos
salariais dos congressistas, discussões de legitimidade entre o judiciário e o
legislativo, dentre outros temas igualmente desprezíveis ou que retardam nossa
justiça, como a Pec 37. Enquanto isso, o custo de vida aumenta, dentistas são
queimados vivos, jovens são assassinados por causa de um celular e um pai sofre
para levar seus filhos ao colégio com uma passagem absurdamente desproporcional
à sua realidade.
Assistimos à elitização do
futebol e à farra com a concessão de diárias para “apadrinhados” políticos irem
à Europa, enquanto a massa do povo sofre com o desprezo dado ao SUS e ao
transporte público. Infelizmente, no Brasil, a mídia mostra, mas não provoca.
Prefere-se falar sobre quantos milhões o Neymar vai ganhar a discutir uma
possível redução de impostos ou uma CPI dos estádios superfaturados.
No Brasil, o buraco é sempre mais
embaixo.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Essa é a liberdade de expressão!
Marco Feliciano foi muito infeliz em suas frases, é fato. No
entanto, é agredido e acusado por dar sua opinião, isso é um absurdo. Ele defende
o "seu povo" - eleitores - e por mais que suas palavras soem agressivas, não pode sofrer
agressão por dizer o que pensa. O povo está confundindo liberdade de expressão
com homofobia. Flagrante erro.
Quando ele disse que só sairia da comissão se o Genuíno e o
JP Cunha, CONDENADOS no Mensalão, saíssem da Comissão de Constituição e Justiça, ele estava certíssimo! É vergonhoso ver protestantes invadindo as
sessões da CDH enquanto que, ali do lado, estão dois condenados na maior e mais
importante comissão do congresso. Deviam sim levantar suas vozes de protestos, mas na CCJ, e não mudar o foco atacando alguém que é inimputável por suas palavras (imunidade
material).
Há uma linha tênue entre opinião e preconceito, mas mais
sutil ainda é separar a emoção da razão. É só olhar os fatos para ver que essas
acusações são puro sensacionalismo de “sindicalistas da moral e bons costumes”
que no Brasil que existe. Pior, meus caros, é ver Dirceu, Genuíno e toda aquela
corja atuando firmemente no governo ou em seus bastidores.
Não sou a favor dele, da igreja, dos protestantes, dos católicos, dos gays e muito
menos da mídia. Devemos olhar para onde realmente interessa.
Daqui a pouco alguma fábrica explode, algum famoso é assaltado,
uma dezena de pessoas morrem em algum acidente...e tudo será, novamente,
esquecido.
terça-feira, 26 de fevereiro de 2013
Café na tela
Sabe-se que a televisão é boa
companhia. Há quem more sozinho e ligue o aparelho todos os dias, ao voltar
para casa, apenas para se sentir menos solitário. Outros, mesmo com amigos na
sala, não conseguem deixar de prestar atenção na tela, interrompendo conversas
só para ouvir melhor.
Um pesquisa comportamental da
Universidade da Califórnia descobriu que os depressivos podem se beneficiar com
uma boa dieta de rostos televisivos pela manhã. Os rostos precisam ter tamanhos
reais e estarem à distância de uma conversação normal. É como se substituísse as
pessoas e desse humor similar ao da socialização normal.
Nesse sentido, há uma categoria
de espectadores ainda pouco estudada, mas digna de nota: a do cara que conversa
com a tv. Levando ao extremo sua cotidiana interação com os pixels. A relação
que se tem com a telinha vai da personalidade de cada um.
Por exemplo, eu falo às vezes
com minha TV, digo: "Não diga!" ao comentário óbvio da apresentadora
do telejornal. Gosto de adivinhar o gracejo final das reportagens (tenho grande
talento nessa área) e inventar chamadas mais interessantes: "No próximo
bloco: como saber se seu hamster está possuído? E mais: os gols da
rodada".
Há quem responda às perguntas
dos shows de prêmios, decifre charadas, dê boa noite ao âncora, não se contenha
ao ser instigado num programa infantil, ou cante a música do programa do
Ratinho. Também, nos filmes, faço questão de avisar a menina ingênua que o
bandido está vindo por trás com uma foice. Em filmes, aliás, sou do tipo
participativo: ofendo o elenco e bato as pernas no espanto da cena de suspense.
Outros inserem dublagens toscas nas novelas e, muitas vezes, ficam melhores que
as originais.
Mas, na dúvida, parafraseando
uma finada vinheta da MTV: “Desliga a TV e vai ler um livro”.
sábado, 19 de janeiro de 2013
O que há no mar?
Há algum tempo não escrevia, não
tinha motivações, ou melhor, inspirações. A ironia nessa situação é que quando
estou passando por situações conflituosas, ou, até certo ponto ofegantes, não
consigo parar para escrever nada, minha mente torna-se uma confusão sem fim.
Outrora momentos assim eram “inspiradores”, hoje são borrões em minha memória e
barreiras cognitivas. Não consigo escalar. Odeio me sentir atormentado por um
dilema moral-social. Antes fosse um cálculo matemático indecifrável.
Penso que a maioria dos
sofrimentos são banais, pois são evitáveis. Mas nosso corpo busca com que (ou
quem) se preocupar. É um mergulho no mar aberto, onde a calmaria da superfície
contrasta com os tubarões na profundidade. Sabemos do perigo, mas nossa mente
quer nadar. Assim me sinto. A questão é que somente teremos algum resultado se
nos jogarmos ao mar, de peito aberto e “dar bicudos” nos tubarões. Não há outra
maneira de ser feliz.
O paradoxo desta metáfora é que o
mesmo caminho da famigerada felicidade é o do possível sofrimento, das dúvidas.
Temos que aguardar pelos dois e saber enfrentá-los. Pois se um dia você vencer seus
tubarões e voltar à superfície não reclame de ter saudades do mar, pois foi
somente lá, nas dificuldades, que você arriscou e foi você mesmo.
Se viu algo sob a água, mergulhe!
Vá atrás! Não tenha medo de mostrar quem você é e lute com os tubarões. Se tem um problema, resolva-o. Você
provavelmente emergirá com as cicatrizes, mas saberá que quando você quiser
poderá sempre mergulhar novamente.
quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Busca
Não comentarei sobre o fim do mundo, pelo
contrário, prefiro falar sobre a busca incessante pela vida e prazer.
Há dentro de cada um de nós valores, sentimentos,
desejos e frustrações, que não são perceptíveis pelas pessoas que estão em
nossa volta. Muitas ocasiões, tomados por determinados sentimentos, nós apenas
calamos e deixamos que o pensamento flua, impregnando a alma.
Ainda bem que é assim, pois há sentimentos, há
sensações, há prazeres na vida que não se pode partilhar com ninguém; são
sentimentos que calam no fundo da alma de cada um de nós, a reafirmar a nossa
condição de gente. Muitas vezes, pode ser uma raiva intensa de determinada
pessoa, que, em face de convenções sociais, não pode ser externada; outras
vezes, pode ser apenas a vontade quase incontida de ter no aconchego dos braços
a pessoa que se ama, mas que, às vezes por timidez ou por outra circunstância
qualquer, não temos coragem de revelar.
Todavia, para mim, o importante mesmo não é a
possibilidade ou a impossibilidade de se externar um sentimento, pelas
mais diversas razões. O que importa mesmo, desde a minha percepção, é sentir, é
ter a convicção de que o tempo passa e não perdemos a capacidade de sentir as
emoções que sentimos em tantas oportunidades já vividas.
Viver, por isso, é sim, um quase incontido prazer.
Aliás, Freud dizia que quem fixa os objetivos da vida é a busca do prazer.
Textualmente: “Quem fixa os objetivos da vida é simplesmente o Princípio do
Prazer, que rege as operações do aparelho psíquico desde a sua origem” ( O
mal-estar da civilização)
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
Campanha para a Secretaria da Cultura de São Luís
Resposta de Zeca Baleiro à ideia para ser secretário municipal da cultura de São Luís
"Este texto é para agradecer a mobilização que
foi feita nas redes sociais há cerca de um mês pedindo o meu nome para
Secretário Municipal de Cultura de São Luís do Maranhão. Naturalmente fiquei
lisonjeado com a “campanha”, uma iniciativa de fãs, entusiastas e amigos, mesmo
que não tenha sido feito nenhum convite oficial.
Nunca havia passado pela minha cabeça o projeto
de assumir um cargo como o de Secretário de Cultura, mas é claro que, uma vez
deflagrada a campanha, minha mente sonhadora se perdeu em mil projetos e
devaneios. Sonhei festivais, editais, ocupação artística da área histórica,
revitalização de fato, oficinas, intercâmbios e troca de conhecimentos com o
resto do país. Sempre lutei, à minha maneira e com as armas que tinha, por uma
vida cultural proativa, intensa e autossuficiente nas cercanias do Maranhão,
estado cuja diversidade culturale racial ímpar faz dele um dos grandes tesouros
do país (ainda que bastante escondido).
Mas o cargo de Secretário Municipal de Cultura
é um cargo político, e mais que político, burocrático. E eu, por mais que me
esforçasse, não me sentiria capaz (não neste momento pelo menos) de desempenhar
a função como devida. Sou um artista, e é dessa maneira que sinto que posso ajudar
no desenvolvimento cultural do meu lugar de origem. Mas não tenho ilusões. Não
se muda o cenário cultural de uma cidade, estado ou país com atitudes
paternalistas ou favores de balcão (cultura que aliás sempre imperou no
Maranhão), mas sobretudo com uma discussão madura sobre o tema e uma proposta
efetiva e plausível de política cultural. Infelizmente o Maranhão – e São Luís
a reboque – está ainda na pré-história do debate político sobre cultura, como
de vários outros debates (e faço aqui uma exceção honrosa a alguns guerreiros
solitários como os amigos Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho).
O que vigora é a “politicagem” mais estéril e
infrutífera (frutífera apenas para os bolsos dos beneficiados, que não são
poucos) e a briga de interesses tacanhos de grupos políticos e/ou partidários.
Ora, a cultura é um bem comum, e deveria estar acima de interesses deste ou
daquele. Mas não á assim que acontece, infelizmente.
E assim vai-se levando a carruagem, dando
esmolas à nobreza da cultura popular e enriquecendo os cofres de joões-ninguéns
articulados e bem relacionados, mas sem nenhum comprometimento com o fazer
cultural. Minto, pois eles têm sim um comprometimento com a cultura - a cultura
do dinheiro, sujo de preferência, e ganho às custas do suor de poetas,
pintores, escritores, músicos, grafiteiros, atores ou simplesmente amantes da
arte e da beleza. Enriquecem enquanto morrem à míngua felipes, leonardos,
tetés, nivôs e toda a realeza mestiça espalhada (e esquecida) nos guetos de
nossa outrora “Ilha Rebelde”.
Pois é justamente o que falta à nossa cidade:
rebeldia. Rebeldia de verdade, visceral, guerreira, suicida quem sabe. Aprender
a não bater continência aos absurdos e desmandos de governantes, sejam quais
forem. Aprender que fazer cultura é muito mais que administrar orçamentos de
Carnaval e de São João, prestigiando grupos não por talento ou mérito, mas por
retribuição a sei lá que “tenebrosas transações”.
Há muitas pessoas capazes em São Luís –
artistas ou não - para ocupar o cargo de Secretário de Cultura. Espero que o
prefeito eleito tenha a sabedoria de escolher uma pessoa honesta e realmente
comprometida com os rumos culturais da cidade. Nenhum governo, em nenhuma
esfera, pode ser considerado “vitorioso” se não se basear no tripé básico Saúde
+ Educação + Cultura. Desejo sorte a ele e à cidade durante seu mandato.
E se por acaso acontecer de um dia eu ser de
fato convidado para cargo semelhante, espero estar à altura de merecê-lo, e ser
capaz de fazer metade do que sonho como projeto cultural ideal para minha
cidade, cidade que amo, apesar de todos os pesares de toda relação de amor, que
pode (e deve) ser crítica, por que não? Isso não torna o meu amor menor. Nem
minha revolta. Sim, revolta contra as almas mesquinhas que querem apequenar o
que nasceu para ser grande e belo e altivo, como a nossa Ilha de Upaon-Açu,
grande desde o nome até o seu destino."
Zeca Baleiro
26 de novembro de 2012
sábado, 1 de dezembro de 2012
Oração
Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que
eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do voo
no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam,
que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que
meus olhos continuem se alargando sempre. Porque eu ainda sonho.
Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café
e travesseiro. Quero seu beijo, seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o
desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito
quando é demais.
quarta-feira, 21 de novembro de 2012
Essa calou os americanos!
Não é uma notícia nova, mas vale a pena ler de novo, até porque
não é todo dia que um brasileiro dá um esculacho educadíssimo em um americano.
Durante um debate em uma
universidade, no EUA, o Ex-ministro da Educação e Ex-Governador do DF e atual
Senador, Cristóvam Buarque, foi questionado sobre a internacionalização da
Amazônia. O americano que perguntou disse que esperava uma resposta de um
humanista, e não de um brasileiro. Bem, essa foi a resposta do Senador:
“De fato, como brasileiro eu
defenderia que sou contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nosso
governo não tenha o devido cuidado com o patrimônio, ele é nosso.
“Como humanista, sentindo a
degradação que sofre a Amazônia, é natural que isto se torne um problema mundial
e defenda-se a internacionalização. Bem, se a Amazônia, sob a ética humanista
deve ser internacionalizada, deve-se internacionalizar também as jazidas de
petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante quanto a Amazônia,
apesar disso os donos do petróleo sentem-se a vontade para aumentar e diminuir o
preços dos combustíveis. Da mesma maneira o capital financeiro dos países ricos também deve ser
internacionalizado. Se a Amazônia é tão importante então, de fato, não pode
ficar nas mãos de uma só pessoa para queimá-la. Queimar a Amazônia é tão grave
quanto o desemprego criado pelas especulações arbitrárias dos países ricos. Antes
mesmo da Amazônia gostaria de ver a internacionalização dos grandes museus. O Louvre
não deve ficar apenas com a França. Trata-se de um patrimônio mundial e não um
privilégio dos milionários egocêntricos como um japonês de decidiu ser enterrado
ao morrer com um quadro de um pintor famoso. A cultura é para o mundo inteiro.
Neste encontro aqui nos EUA
muitos representantes tiveram dificuldade de entrar na cidade nas fortes
fronteiras americanas, assim acho que a cidade de Nova York deve ser internacionalizada.
Pelo menos Manhatan deveria pertencer a todos, assim como Veneza, Paris e Rio
de Janeiro, Brasília e Roma.
Se os EUA querem
internacionalizar a Amazônia para não deixá-la nas mãos dos brasileiros, então
vamos internacionalizar as reservas nucleares dos EUA, pois estas podem criar
uma destruição milhares de vezes maior do que qualquer queimada na Amazônia.
Defendo trocar a internacionalização de floresta por dívida. Comecemos
garantindo que cada criança no mundo possa COMER e ir à escola.
Internacionalizemos as crianças tratando-as todas elas de igual modo,
independente do lugar que estão dando a elas os mesmos materiais escolares.
Como humanista, defendo a
internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro,
lutarei para que a Amazônia seja só nossa. Só nossa”
segunda-feira, 15 de outubro de 2012
Professor
Hoje é um dia que passa por nós
como os demais, apenas percebido pelo fato de ser um dos vários feriados em
nosso país, mas, de fato, é um dos poucos dias que merecem esse famigerado título de feriado, ou de pelo menos lembrado. Dia dos professores!
Não sou professor (já tentei),
mas confesso que vontade não falta, pelo caminho traçado, pelo conhecimento
adquirido e claro, pelo oportunidade de repassar algo a alguém. É uma ótima
sensação, ou deve ser. Nosso país não carece de políticas públicas para a
educação, seja na manutenção, seja no fomento do ensino. Elas existem! No entanto,
não são plenamente adequadas ou implementadas. Concorrem com outros “interesses”
que não geram resultados eficazes ou atingem um porção pequena da população.
Penso que diante de greves, más
condições de trabalho e ensino, escolas sucateadas, insegurança e baixíssimos
salários, nossos representantes poderiam fazer algo a mais, valorizando a
função do professor e não apenas o cargo. O ensino, assim como o conhecimento
está em diversos lugares e a capacidade de lecionar esta em todos os recôncavos
de nossas escolas (públicas, principalmente), mas não são alvo da nossa deficiente
política.
Ao contrário da maioria, não acho
que o governo não valoriza nossos professores, creio que nosso país não
valoriza o que eles fazem.
(Este
na foto era foi meu professor de matemática, na 8ª série, Pedro Airton. Um dos
melhores que tive. Só ele mesmo para fazer simulados na quadra da escola,
gincanas de questões de Baskara (era o terror), vivia com suas mãos sujas de
giz, sempre com um bom humor e rara excentricidade. )
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
Meus amigos, o ministro Joaquim
Barbosa, do STF, poderá ser chamado à presidência da Corte Suprema nessa
quarta-feira, 10. Com a iminente aposentadoria do atual presidente, ministro
Carlos Ayres Britto, a nomeação poderá ser em novembro. Será uma chance de ver
melhor a figura do “exaltado e adorado” ministro Joaquim à frente do Tribunal.
Em entrevista à Folha de SP, ele afirma não ser um herói no presente julgamento
do mensalão (ele se considera mais um anti-herói, rs), mas confirma sua
incisividade nas acusações, pois traz de sua experiência como ex-procurador da
república essa veia pela proteção da administração pública.
Votou em Lula nas duas
oportunidades para presidente, não nega. Ele sabe da melhoria que o país obteve
(não sou partidário do PT, ok?) por isso não escondeu seu voto, além de é claro
ter sido nomeado pelo ex-presidente para a cadeira no STF. Mas, apesar disso,
opõe-se piamente a bonificações e favoritismos políticos e sabe que tem que ser
imparcial e julgar. É o que está fazendo desde então.
Considero o ministro Joaquim Barbosa
um juiz da corte, e ponto. Também não o considero herói, creio que essas definições advêm do fato de não termos o costume de fazer o correto ou bons exemplos na nossa alta cúpula do país. Considero-o um brasileiro que sofreu (e sofre até
hoje) com nosso famigerado racismo, fruto de anos de escravidão e retaliação
social devida à cor da pele. Considero-o simples, tímido, humilde, mas com uma
personalidade ímpar e forte. Admiro quem se dedica a uma causa e crer que, de
fato, aquilo fará diferença e que consegue desenvolver-se na vida. Foi o caso
dele, da pobreza e dos banhos no rio de sua cidade no interior mineiro até o
ponto maior na nossa justiça.
Assim, exalto-o, não pela sua
posição no Judiciário ou por sua figura estar na mídia (acho que isso até o
assusta), mas pela sua capacidade de ser quem é, que faz o que tem que ser
feito. Julgar e defender nossa constituição.
domingo, 16 de setembro de 2012
Amanhecer
Naquele amanhecer, senti uma
brisa cálida no rosto, acordei na varanda do apartamento e, ainda sobre as
cobertas frias e amassadas, olhei o horizonte e o sol a nascer. Com o olhar
mais agudo olhei para baixo, na entrada da rua, em uma casa qualquer, vi você.
Estava varrendo inadvertidamente
a sarjeta onde as folhas amarelas da amendoeira teimavam em cair naquela
estação. Você sob aquela sensação primária olhou para cima. Viu-me,
petrificou-se. Possuía um olhar indescritível de dó e carinho, mas não havia alegria
em seus olhos castanhos e em seu rosto quase sempre sério. Apoiei-me no batente
da sacada por um instante, o vento ainda soprava naquela rua estranha, não
havia carros, pessoas ou cães perdidos; apenas eu, você e um espaço metafísico
entre nós.
Preferi recolher o coração,
agarrar-me no orgulho e, dando três passos para trás, fugi do seu olhar
esperando que o dia começasse bem.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
Nosso final é simples, tchau.
Não há mais nada aqui de você. Tudo
foi embora. Deus abençoou meu sonho, minha intenções. Foi assim que acordei e
deixei minha cama em seu eterno sono abaixo da janela que há tempos prometo consertar. Com um ar de alegria, pensara que
a noite tivera sido perfeita, pois você não estava comigo, não, apenas meu
lençol e meu celular na cabeceira que trouxe de outra época. Lembrar que você
perseguia-me sem saber, sufocava-me sem intenção, ria de mim mesmo longe da
porta da minha casa. Mas estava feliz.
O sol que outrora se escondia
detrás das nuvens negras, suas vassalas, agora ilumina meu dia e não permite
que o frio de seus lábios molhem minhas lembranças com a nostalgia que
acompanhara minhas noites de contos inventados. Já fui russo por muito tempo,
então fuja de mim românticos suicidas e vodkas despretensiosas! Não mais!
Sabemos que tudo, nesse caminho
sem volta, acompanha-nos como a inércia e repugnância de uma simbiose de
sentimentos que não fazem mais sentidos e que, por isso, devem ser largados em
nosso “Ser”. Deixe-me apenas com o que tenho de bom em mim, isso eu faço
questão de preservar. Assim, sei que nada nos deixa, mas que pode mudar e que
será sempre parte de mim, mas nunca eu por completo. Assim tudo passa.
Agora preciso ir, e pegar o
caminho que você não viu. Assim, suas memórias me deixarão passar.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
A queda do solar de usher
"Durante um pesado, sombrio e
silente dia de outono, em que as nuvens pairavam opressivamente baixas no céu,
estive passeando sozinho a cavalo em uma região do interior singularmente
tristonha, e afinal me encontrei, ao caírem as sombras da tarde, no melancólico
solar de usher. Não sei explicar, ao primeiro olhar invadiu-me a alma uma
angustia insuportável, poética, cruel, desolação do terror. Contemplei o
panorama a minha frente – era uma casa simples, com paisagem simples. Paredes
soturnas, janelas vazias, uns poucos canteiros de caniços e uns troncos brancos
de arvores mortas Como um sonho de ópio. Havia
um engessamento, uma tontura, uma enfermidade inimaginável. Quem dele desperta,
a amarga recaída da vida cotidiana, vive o tombar do véu. Não era frio. Era indiferença. Uma revolta do
coração."
Edgar Allan Poe
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