“Não deixo o tempo perdoar em meu
lugar. Não darei a ele os créditos de minhas dores. Assumo minhas falhas e eu
mesmo peço desculpa. Minha soberba é menor do que minha inteligência, e posso
garantir que é bem menor que meu coração. Ainda que seja um coração tolo,
crédulo, facilmente influenciável. Não tenho problema em perder uma briga, mas
tenho todos os medos em perder um amor. Não permito o tempo resolver o que não
resolvi, ajeitar o que não ajeitei, concluir o que abandonei, sugerir o que
silenciei, falar por mim. Não assinarei uma procuração no cartório para que ele
defina minha situação. A franqueza tem
que ser paga à vista. O tempo apenas acumula juros e distorções de nosso valor.
Não há sentido no tempo, a saudade torna todos os dias iguais. Sou adepto de
permanecer na tempestade a dois – nenhum dilúvio é para sempre. Sou possessivo
com minhas lembranças, arrumo a bagunça que criei, explico minhas crises, não
transfiro ao tempo minhas responsabilidades. Não considero justo que o tempo
diga se eu estava certo ou errado. Melhor errar assinando a página do que
acertar anonimamente. O tempo organiza, mas não define. Esfria, mas não cura.
Adia dúvidas, mas não dá certezas. O tempo finge que avançamos, mas não saímos do
lugar. Diminui as ofensas, mas não resgata os elogios. O tempo é o senhor da
razão, mas sempre escolho a fé. E a fé tem seu próprio tempo. O tempo de amar é
agora.” Carpinejar
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Entre nós
Eu estou aqui e permanecerei até
meu corpo cansar, minha mente saturar e meu coração deixar de se perdoar. Não
acredito em receitas milagrosas, tudo é muito trabalho e paciência. Há muito
amor em dar-se uma nova chance, mas não me teste, meu amor. Não há distancia entre
nós que não podemos unir. Sempre haverá uma ponte velha para salvar você. O “acreditar”
não aceita contra-argumentações. Sempre vencerei quando meus pensamentos
desistirem de sabotar minha razão, mas prefiro me perder contigo. Sem jogos,
sem jogadores.
A esperança é nossa única arma e
estamos em guerra. A fé e a ilusão caminham juntas, não há como evitar. Peço,
não provoque minha filosofia. Prefiro dar-te o que tenho de melhor, mas que só
pode ser dado, quando já foi aceito. Sem contratos, somente olhares. Pode não
acreditar em mim, mas acredito em você.
Penso e escrevo como outrora. Já
me perdi muito entre o teclado do computador e meus devaneios noturnos. Em noites longínquas
quando só restavam as cinzas do cigarro na mesa. Hoje, sinto-me mais próximo de você do que
desta folha de papel digital em minha frente. Sabe por quê? Porque quando há fé
não há distância. Quando há esperança não há dor que não passe e não há coração que não se cure.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2015
E o que resta é a vida
Ele não queria ouvir seus
próprios pensamentos. No fundo, estava cansado demais para aquilo. Desejava
deixar aquele sentimento para trás, mas não tinha forças para reagir diante
daquela situação. Uma inquietação nova com resquícios de algo antigo. No entanto, não
sabia com se render, e não desistiu. Percebeu que a maior vitória foi conquistada há anos e que a maturidade veio com o tempo. Dar uma chance é a
maior atitude que ele faria. E fez. Desafios novos, remédios antigos.
Lembranças são como velhas cartas
empoeiradas e esquecidas numa gaveta ou como fitas de músicas perdidas. Sabia os parágrafos das cartas e ainda lembrava as letras das músicas. Para ele, tudo
eram papéis riscados e conversas ao entardecer. Mas agora não fazia diferença porque
sabia que o sol sempre nasce no outro dia, com uma nova noite a chegar. Assim
como uma cicatriz em uma árvore que ninguém visita, sabia que seus dias aqui
seriam sempre assim: algo a lembrar, algo a esquecer.
terça-feira, 30 de dezembro de 2014
O ano de sua vida
2015? Bem, se for para desejar
algo, então penso assim: Seja firme, mais feliz, mais ativo, mais paciente. Seja
suficiente, necessário e supere a si mesmo. Enfrente seus medos e vença-os.
Engula a lágrima que cairá do seu rosto em dias de solidão e vá para a luta.
Mas lute por algum motivo. Tenha seus propósitos, mesmo agindo com sutileza.
Corra quando tiver que correr e grite quando tudo estiver errado. Se cair,
recomece. Não tenha medo de dizer o que pensa desde que faça com sensatez. Dê
uma nova chance de viver bem e acredite que poderá ser o que você quiser. Revire
um velho armário e veja o que já superou para estar ali, naquele momento. Conforte
seu coração com as lembranças da pessoa que você ama. Mande uma mensagem quando
quiser falar, ligue quando se importar e ore quando amar. Faça a sua parte e desfrute
de sua escolha porque sabe que é você que esta fazendo algo. E se não souber o
que fazer, volte ao princípio. Crie seus motivos e motivações e sustenta-os em
uma fé. Ame. Não há amor por recompensa, há recompensas no amor.
Dedico a todos e à minha mãe.
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
Polissemia fiscal
Sou de “esquerda” e apoio as intervenções
governamentais na economia feitas pelo Governo nos últimos anos, mas achei inédito
– pra não dizer estranho – a demanda pela diminuição da meta fiscal deste ano.
A meta de resultado fiscal, que visa a obter o superávit primário (SP), não
será cumprida pelo Governo. Isto é um fato. Na conta do SP, das receitas
primárias subtraem-se as despesas também primarias, ou seja, recebimentos e
gastos não financeiros. No momento, o Governo quer alterar o cálculo do
superávit (indicador de cumprimento fiscal na LRF) via um projeto de lei que
altera a LDO para retirar do cálculo despesas com o PAC e desonerações fiscais,
assim cumpriria a meta que ficaria em 10 bilhões (hoje a meta é de 81 bilhões).
Apenas lembrando que a finalidade desta “sobra” é pagar os juros da dívida do país.
Bem, o problema é que as despesas
que serão retiradas e baixarão a meta são despesas PRIMÁRIAS, obras e tributos,
assim, devem constar do cálculo. Com isso, o país revela, ao baixar a base de
cálculo, que não tem condições (ou comprometimento) em pagar os juros da
dívida, tampouco amortizar o principal dela. Países estrangeiros, observantes,
tenderão a aumentar os juros de suas transações com o país (pois o risco é
maior) e, em provável escala, diminuirão seus investimentos nos títulos públicos
brasileiros. De qualquer maneira, o Governo deverá
rever medidas de contenção de custos e em outros gastos como no
seguro-desemprego e pensões, por exemplo.
Bem, essa é minha visão ampla, no
entanto, vejo que pagar dívida pública e juros nunca foi (e nem deveria ser) a
maior prioridade no país. Você na sua casa odeia ter que pagar juros do cartão,
né? ...mas isso é inerente do sistema financeiro e nunca impediu de você
realizar sua compra – às vezes recorrendo a uma operação de crédito
(empréstimo) – para aumentar os bens de sua casa. Há dívidas, mas há aumento do
seu “PIB” domiciliar.
O Brasil, nos últimos anos,
mostrou-se bom pagador e local benfazejo para investimentos. O PIB cresceu na década
presente e a economia não “baixou a guarda” frente a uma crise européia. Para
mim, retirar certos gastos para assegurar o cumprimento do plano de governo e,
com isso, os projetos sociais, é uma atitude coerente e corajosa, apesar de ser
desrespeitosa para com as normas da LRF. Aguardaremos as medidas.
segunda-feira, 17 de novembro de 2014
O homem duplicado
“O caos é uma ordem ainda não compreendida”. Essa frase
“explica” bem o filme “O homem duplicado” (2014), de Denis Villeneuve. As aspas
foram necessárias já que uma explicação é algo que você, com certeza, não terá
ao assistir essa pérola do cinema. Baseado num livro homônimo de José Saramago,
o filme trata das inquietações e dúvidas sofridas pelo personagem principal - vivido
por Jake Gyllenhaal - ao descobrir que tem alguém igual a ele. Um é professor
de história e, o outro, um ator coadjuvante de cinema. Qualquer clichê é
descartado na historia, já que ela é permeada de devaneios, sonhos e um laço
intrigante que une cada vez mais os personagens.
Com um enredo repleto de metáforas e elementos da
psicanálise, o telespectador perde-se ao tentar seguir uma linha de pensamento
e tudo é (des)construído com o desenrolar da história. Bem, e se você achasse -
ou descobrisse - que poderia ter outra vida? ou usar roupas diferentes sem se
achar “descolado” ou antiquado demais? Ou recriar um relacionamento amoroso
livre de erros?
O cotidiano enclausura-nos num clima claustrofóbico e
rotineiro, onde perdemos a esperança e ganhamos apatia com o tempo. O filme
trata do questionamento da possibilidade que é trocar de vida (ou destino para muitos),
e que isso não quer dizer necessariamente com outra pessoa, mas sim consigo
mesmo. Quantos de "você" poderiam ser encontrados nas ruas quando
desiste de sonhos ou foge de seus objetivos?
Fazer algo diferente não é ser outra pessoa, mas achar outra
parte escondida de você. Aprender algo novo ou agir de maneira diferente é
buscar qualidade de vida. É você se encontrar com outra versão sua e, muitas
vezes, mais congruente com o que você sempre quis ser.
Em “O homem duplicado” não queira respostas. Espere
questionamentos.
quarta-feira, 29 de outubro de 2014
Não diga que já vai
Nunca venha me dizendo que já
vai. Por favor, não me deixe sentir saudades. Não bata na porta dando um adeus
ao entrar. Não faça movimentos bruscos com seu sorriso porque isso é baixaria
no meu coração. Faça e desfaça tudo e diga que não vai dar, mas nunca, nunca
mesmo comece um desenho já pedindo uma borracha. Na vida, tudo é feito à caneta. No máximo se pula um parágrafo ou se vira a página.
Não procure entender o fácil. O
óbvio é enigmático quando se olha de perto. Suplique aos céus, caia de joelhos
e não minta para si mesmo. Não peça para gritar “gol” ouvindo o rádio. A “geral”
gritará mais forte. Pegue o ônibus quando não tiver dúvidas. Pegue o carro e
atravesse a cidade quando quiser ter certeza. Não dê sobrando e espere o troco.
O que sobra nunca é resto. Chore sozinho, porque a esperança é cinza, quem sabe? Comece
e termine.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
...mais um devaneio eleitoral
Comparando os dois planos de
governo e estritamente o aspecto econômico, que é o que mais pesa numa
administração pública e reflete-se em toda a sociedade, vemos duas vertentes
opostas, mas não comparáveis. Não podemos fechar-nos em uma visão geral, temos
que analisar o contexto e a própria fisiologia do país em que vivemos.
Historicamente, o Brasil tendeu
(até porque nada é perfeito) a ser um Estado Social, natureza dada pela CF/88, vertente não vislumbrada,
ou meramente descartada, na pretensa ação econômica do partido tucano. Esse
afirma que o que país tem feito é errado, isso porque é comparado com a ótica Neoliberal.
A economia não é uma ciência exata, deve-se ter uma ponderação com o modelo de
Estado adotado. Bem, o fato do PSDB ter dado as diretrizes do Bolsa Família,
isso não o torna o desenvolvedor de uma política social. A visão econômica do
atual governo não é igual ao PSDB, é muito mais ampla que isso.
A política esquerdista deu ênfase à universalização de serviços
públicos essenciais e sociais, principalmente depois do lançamento do Brasil
Sem Miséria cujos pilares são política de transferência, ampliação do acesso a
serviços e inclusão produtiva. É certo que pode não ser a mais progressista,
mas levemos em conta que o déficit social do país é centenário. Méritos também à política keynesiana que atuou firme durante a crise mundial, com o país gastando e investindo, em vez de entrar em recessão e arrocho junto com os temerários países europeus. Além disso, o Bolsa Família
é sim compatível com um estado neoliberal, mas um estado SOCIAL está longe de
compatibilizar-se com uma filosofia neoliberal.
Eu não acredito nesse modelo de Estado Mínimo para o desenvolvimento
socioeconômico de um país tão desigual como o Brasil. Exemplo é que o candidato
PSDBista propõe concessão de crédito fácil a médico para construção de seus
consultórios, isso é PRIVATIZAÇÃO da Saúde! A historia também nos mostra que não foi com medidas neoliberais que
países se desenvolveram de forma igualitária. Vamos olhar para a sociedade e
ver o quanto um país pode crescer com a política e gestão adequadas às suas
finalidades.
Não sou de Partido algum. Sou do Nordeste sim,
tenho afinidades com a esquerda e uma linha de pensamento que é fruto do que eu
analiso da política do país, humildemente.
quinta-feira, 25 de setembro de 2014
Amor
Este é o texto mais difícil que
já escrevi. A pessoa mais importante da minha vida partiu de maneira abrupta e vira
mais uma estatística nessa guerra que chamamos de trânsito. Somente após a
missa de sétimo dia arrisco a rascunhar algo, sabendo que nenhuma palavra aqui
resumiria metade do sentimento que minha alma clama e de tudo que aprendi com
ela.
A morte não espera um último
beijo, uma última palavra de carinho ou um conselho. Ao contrário, a morte
deixa as roupas no varal, a comida no fogão e não espera você pagar as contas
do mês. A morte é mais triste para quem fica, para quem tem que suportar a ausência
mesmo que insuportável. Quem tem que dizer adeus sozinho na esperança de ser
ouvido e que encontra aconchego nos lençóis da cama ainda desarrumada.
Sempre me lembrarei do seu
carinho em minha cabeça, do café logo cedo da manhã, das idas e vindas do colégio
segurando sua mão, dos biscoitos escondidos estrategicamente embaixo da pia da
cozinha, das broncas pela minha bagunça, do espelho na porta da sala, pelos
conselhos simples e diretos, das noites em que me socorria quando adoecia e
quando dormiu no corredor de um hospital quando eu estava numa maca, sentirei
saudades dos beijos na minha testa em meu aniversário, da voz alegre ao telefone,
da sua humildade, da sua coragem em viver e, principalmente, de sua tão admirada
e evidente Fé.
Com você aprendi a ter um sorriso
fácil, mesmo quando estou triste. Aprendi a fazer de minhas amizades a minha
família, aprendi a respeitar o próximo oferecendo mais carinho e atenção,
aprendi que minha escolaridade é parte de mim, mas não é tudo, aprendi a
arriscar em busca de um sonho, aprendi a comprar passagens só de ida e desejar
que meu caminho fosse iluminado de pessoas alegres e altruístas. Aprendi a ser forte
com os olhos cheios de lágrima. Aprendi a ser quem eu sou, de ter orgulho de
onde eu vim e de tudo que conquistei.
Sei que estás bem, acolhida e em
paz. Continue orando por todos aqueles que a amam. Hoje é dia de amadurecimento. As minhas lágrimas secarão,
mas você sempre estará em meu coração. E como diz a letra: “...ando devagar
porque já tive pressa, levo esse sorriso porque já chorei demais”.
Te Amo! Saudades!
domingo, 7 de setembro de 2014
E onde mora a sensatez?
Objetivos, planos, estratégias.
Todos nós temos isso, até o mais “destranbelhado” dos humanos. Buscamos, incessantemente,
realizar nossos anseios através de tarefas bem arquitetadas. Afinal,
atualmente, sequer podemos nos permitir ter tempo de sonhar. “Quem sonha já
perdeu tempo”, é o que dizem por aí. Não critico esta situação, mas creio, cada
vez mais, que uma vida baseada em planos, não é “natural”.
Viver com sensatez e em busca de equilíbrio
(pessoal) não quer dizer que você irá viver com uma agenda debaixo do braço.
Uma bíblia de seu cotidiano. Isso é chato e desnecessário. Você pode se
planejar, desde que contando com o imprevisto e o desconhecido. Uma vez ouvi
que toda grande jornada começa quando se põe o primeiro pé na rua. Pagando
passagens para o desconhecido, provando sabores exóticos de sorvete, visitando
uma trilha quase inexplorada, ou até mudando o caminho que você faz para seu
trabalho. Tudo é válido para se permitir a aprender.
Nunca me acomodei, tampouco
pensei demasiadamente nos meus cronogramas. Programações são interessantes, mas
perco minha atenção facilmente. Penso que cada dia fora do comum é um passo
que você dar em sua vida, que, metaforicamente, chamamos de caminho. Saio de
casa, enfrento a estrada escura e vazia, visito uma praça, converso com o
porteiro e conquisto o sorriso de alguém. Para mim, isso é viver.
Morre lentamente aquele que não
vira a mesa quando está infeliz com o que faz, quem não arrisca o certo pelo incerto
atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos
sensatos.
(imagem: cena do filme "A vida secreta de Walter Mitty")
quinta-feira, 7 de agosto de 2014
Crônica
Toda história começa com um “Era
uma vez...”, mas ele não gostava disso. Vivia sempre no presente e escondia seu
passado para conversas despropositadas de bar. Nunca gostou da ideia de deixar
tudo para depois. O tal do “depois” nunca chegou para ele e só de pensar nisso
já era perda de tempo. Talvez fosse culpa do seu mapa astral. A vida dele não foi fácil, o calor incomodava-o e o frio
não o deixava dormir. Preferia acordar cedo, pagar suas contas e rir um pouco. Sentia
uma melancolia no fim da tarde como se os sonhos fossem embora com o último
raio de sol sobre a linha do horizonte. A noite não exigia planos, mas atitude,
um copo cheio e histórias a visitar durante a madrugada. Usava sempre duas
toalhas e gostava de dizer “Oi, tudo bom?” com os olhos. Gostava de falar, mas
sabia ouvir. Sempre acreditou que as pessoas têm muita opinião de tudo, mas
pouco ouvidos. Gostava de ler e escrever. Tinha um vício na sétima arte e
adorava provocar o sorriso em uma linda garota. Sempre mostrava um pouco de si
aos poucos. Para ele, o interesse deve ser conquistado sempre no crédito, nunca
à vista.
terça-feira, 27 de maio de 2014
Apenas uma pausa
Uma vez li: “Não quero a
opinião do jornalista, dele eu espero os fatos. Opinião eu tenho a minha”. Diante
de protestos, lutas e lamentações nos últimos tempos, paramos para analisar
nossa democracia e nossos hábitos. Calma, este não é um texto político, tampouco tentarei
esmiuçar tal temática divergente e polêmica, apesar de saber claramente que
temos sim uma democracia consolidada e legítima, no entanto, sofremos pelas
escolhas feitas diante daquela caixa de ferro a cada quatro anos. Mas deixemos
isso de lado.
Penso sobre o seguinte:
discutimos, exaltamo-nos e até perdemos amigos por convicções maniqueístas e
desproporcionais por nada. O resultado pode ser previsto, bem mais do que
imaginávamos. Creio que vivemos uma ditadura imposta por meios tecnológicos e modas
infundadas. Vivemos a ditadura da imagem e pseudomoralismo.
Quantas vidas são perdidas sob a
névoa da ingratidão, do orgulho e da futilidade? Quantas vezes você já mudou de
dieta? Quantas vezes não deu bom dia quando chega ao trabalho? Quantas vezes
não se escondeu atrás da multidão e não bateu palmas ao fim de um discurso?
Quantas vezes não atravessou a rua para não cruzar com um medigo logo a frente?
Quantas vezes mudou para a novela porque assim se distraía melhor? Quantas
vezes somente apertou as mãos quando queria mesmo era dar dois beijos num
encontro? Quantas vezes deixou de contemplar um bom samba para ouvir um blockbuster
musical americano qualquer? Quantas vezes pensou em uma desculpa quando queria dizer não? Quantas vezes esqueceu de sua origem e de como chegou onde está?
terça-feira, 13 de maio de 2014
Insônia
Durante a noite não conseguiu
dormir. Revirou uma pilha de papéis velhos que estavam no fundo do armário,
arrumou os livros na estante e até limpou a casa, mas o sono não veio. Nem os
devaneios causados por meia hora de Chopin o fez cair no sono. Estudar
tampouco. Ele estava ali, no quarto, condenado, e sua única companhia era a
solidão. Os lençóis ainda estavam bagunçados porque neles não quis mexer. Saiu
conversou sobre política e futebol com o porteiro da madrugada. Contou quantos
azulejos existem entre o hall e sua porta da frente. Comeu um miojo. No entanto
não conseguiu ver um filme completo. Para esse hobby ele sempre precisou de
total descompromisso e naquela noite ele estava prometido à inquietude dos
noturnos. Viu uma luz entre a cortina, foi à janela, observou a rua e nada viu.
Estava Fatigado de si e de seu infortúnio. Encontrou velhas cartas em uma
gaveta, leu todas e se sentiu em outro lugar e momento por um breve instante. Aquilo
não o fez bem, pois não queria encontrar aquilo de que não queria se lembrar.
Guardou as cartas, abriu o computador e escreveu uma crônica. Assim, pela
primeira vez durante toda a noite, conseguiu ter foco. Deitou e dormiu ainda
sem ter sono. Acordou ainda com vontade de dormir.
quinta-feira, 24 de abril de 2014
Na boa?
Na boa?
A gente tá muito acertadinho, muito certinho
A gente tá cheio de inho
Noite passada me peguei com horário para dormir
E acertando o horário para acordar
Estamos cheios de horários e esquecendo a hora de se perder
Pois, na boa? A gente deve se perder de vez em quando
Se perder
Deixar de se ter
Pegar uma bicicleta no feriado
Com alguma grana para não passar fome
Sair, se perder, dar trabalho ao tempo que nos dá trabalho
E ir sozinho, só com esse inho
E lá, perdido, encontrar o que a gente sempre foi
Do jeitinho que estávamos quando choramos da primeira vez
Lá, perdido, o tempo não faz sentido
Sentindo o real sentido de sentir
Cara, na boa? Deixa de querer só ganhar
Só gananciar
Perde, cara! Acorda e perde!
Pede pra jogar peteca com um menino e perde!
Passa o troco sobrando para o padeiro
E mostra que tá sobrando!
Perde! Saca, assim, ganhar não significa nada
Saca? Na boa?
Só se perdendo é que a gente volta a se achar
E não há nada melhor do que se achar
Por não haver nada melhor do que se perder
Rafael Martins
Texto de um antigo e verdadeiro amigo que, assim como eu, gosta de se perder para se encontrar
quinta-feira, 3 de abril de 2014
De onde você é?
Pessoas interessantes não têm
pudor. Calma, eu explico. Elas vivem intensamente, a seu modo. Não pedem
permissão. Elas mudam de cidade. Investem em projetos sem garantia. Fazem novas
amizades. Não criam expectativas. Elas se interessam por pessoas que são o oposto delas.
Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam convites para fazer algo
que nunca fizeram. Estão sempre dispostas a mudar de cor preferida, de prato
predileto. Começam do “zero” várias vezes. Não se assustam com o passar do tempo.
Sobem no palco. Fazem loucuras por amor. Compram passagens só de ida.
terça-feira, 18 de fevereiro de 2014
Doce distração
Vi no meu armário uma antiga
camisa que tem escrito “i lost my Love in a storm”. Bem, foi um dia de chuva. Grandes turbulências
acontecem repentinamente, no entanto, elas têm nome e lugar para acontecer.
Nosso estado de espírito é provocado através da pessoa que nos tira o sono.
Pior é conviver com ela que é o motivo de nosso enclausuramento em pensamentos
ilógicos.
O amor é opressor, tira nossa
energia, ao mesmo tempo em que se alimenta de si. Às vezes penso em não ter
visto nada além do superficial, mas você me incomodou. E ficará assim por um
bom tempo, até que passará. O tempo não cura feridas, apenas põe fim a uma
ressaca. E eu estou com ressaca de você. Ironicamente, a vontade de beber vinho
é tão grande quanto a de melhorar.
Espero que fique bem, é provável
que não a veja mais e que aos poucos sairá do meu coração. Espero que fique
bem, pois você não sabe, mas foi mais do que uma doce distração.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Dois
Ele era diferente, tinha
modas e manias, caminhava rapidamente, coçava a cabeça quando estava ansioso e possuía
uma incrível preocupação com o tempo, talvez por sua composição astrológica que
ele teimava em não acreditar. Ela era séria, tinha um olhar triste, mas era
carinhosa e gentil, possuía um ciúme irresistível e cultivava uma modéstia
admirável.
No apê dele, sempre víamos as
roupas amassadas no canto do quarto, as chinelas quase embaixo da cama, papéis
compartilhando o espaço de cima da mesa marrom que ganhara da tia, capas de CDs
nas gavetas e o notebook aberto com algum filme passando. Ela sempre achou
estranho sua mania de cinema. Via-o com olhos de alguém bobo, mas
irresistivelmente atraente e interessante.
Os dois combinavam. Gostavam da
discrição e das aventuras entre as quatro paredes. Tinham sonhos e objetivos,
vidas e vivências. Ele ia e ela o seguia, não atrás, ao lado. Gostavam de
tardes no parque e de barzinhos na madrugada.
Porém, um dia a conversa parou. As
ligações cessaram, mudaram de horário, e demoravam a ser atendidas. As
divergências sempre existiam, mas eram ofuscadas pela opressão dos sentimentos
bons e das noites de vinho no tapete da sala dele. Não importa como, os rostos
ficaram inconvenientes e, de repente, a fala tornou-se grito. Minto, eles não
brigavam, se evitavam. Do sol quente e da cerveja gelada, sobrou o alento das
lembranças. O sábado tornou-se depressivo e o saudosismo suas primeiras
palavras.
Um dia, a vida a dois deixou de
ser fantasia ou romance e se tornou apenas vida a dois. Foi isso que eles
perceberam. E aos poucos as conversas voltaram. A conformação era o sentimento
mais límpido que repousava nos travesseiros. O amor tem um pouco de
compreensão. Dizer “te amo” não é um “bom dia”. Ela entendeu. Ele se adaptou.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Lembranças e pipocas
Lembranças são partes da vida que
ficaram para trás, mas que, em sua maioria, colaboraram para construir o que
somos hoje. Quem me conhece sabe que costumo lembrar, reconstruir pensamentos,
mas nunca buscar corrigir algo, pois tudo já passou. Um amigo hoje me mandou
uma mensagem, e as lembranças vieram no rodapé.
A nostalgia é um sentimento que
me incomoda, mas é bom, por sinal. Surgi para fazer você não esquecer do pouco
que passou, viveu para estar onde conseguiu chegar. Se não sente nada ao se
lembrar, é porque não viveu verdadeiramente aquele momento. Simplesmente
passou. Lembrar das idas ao São Francisco para ver filmes, das ladeiras ao som
do brega do sábado a noite, do banheiro com a placa “beco da bosta”, de dormir
em uma rede sob o ar-condicionado e passar madrugadas com Lars Von Trier,
Kaufman, Allen e R. Kelly foi arrebatador naquele momento em minha vida. Uma
verdadeira reconstrução audiovisual, de vida, e, ao mesmo tempo, a concretização
de uma ótima amizade.
Meu amigo disse que “a vida tem
disso mesmo”. É verdade. Ela, por si só, não possui existencialidade própria,
mas seu significado aparece nos momentos em que nos dedicamos a algo ou
compartilhamos objetivos. Ver que algo foi importante, é lembrá-lo com
nostalgia, ou melhor, saudades.
A um amigo.
segunda-feira, 11 de novembro de 2013
Adaptação
E debaixo do tronco de uma árvore
na mata, escondidos. Em meio aos tiros que precediam a morte e o frio. Conversaram
pela primeira vez sinceramente.
Charles: Lembro que você gostava
da loira da 4ª série. Você tentava chamar sua atenção, mas quando virava as costas, ela ria de você.
Don respondeu: É verdade, sabia
que ela ria de mim. Mas a amava.
Charles: Mas ela te achava
patético!
Don: Isso já era problema dela. Meu
irmão, você é aquilo que ama, não quem ama você.
Depois de um tempo percebi que
não era a sua ausência que me fazia sofrer, mas sim, era o que restava de seu
amor que me fazia verdadeiramente viver. Manter-se preso é um modo de sobreviver.
Sinta e tenha orgulho disso, a opinião alheia não mudará nada. E quase sem
querer perceberá, em uma noite qualquer, que você é aquilo que ama, e não quem
ama você.
.
sábado, 9 de novembro de 2013
A Ilusão da igualdade
A escola pública não consegue preparar seus alunos para o
Enem e os vestibulares tão bem quanto as escolas particulares de ponta.
Solução: melhorar a qualidade do ensino público? Não: criar cotas nas universidades para alunos egressos de escolas
públicas. O sistema político-partidário é tradicionalmente dominado por homens.
Solução: iniciativas para enfrentar a cultura machista e discriminatória? Não:
criar cotas de reserva para candidatas mulheres nas eleições legislativas. A programação de emissoras de Rádio e televisão privilegia músicas e
filmes estrangeiros. Solução: estimular a formação de artistas nacionais, a
produção de suas criações em meio digital e multiplicar festivais e eventos de
divulgação de suas obras? Não: criar cotas mínimas de programação de conteúdo
nacional em Rádio e TV.
O Brasil não enfrenta
seus problemas objetivamente. No país, quando qualquer grupo se sente
prejudicado ou sub-representado, a política busca atalhos, e não a resolução efetiva,
que demandaria debate, persistência e vontade geral. Vende-se a ilusão de
que as cotas, por si só, reparariam injustiças históricas e estabeleceriam
algum tipo de equilíbrio de
representatividade entre os diversos grupos sociais. É ilusão, pois cada ser
humano encerra muito maior valor ou complexidade do que apenas a sua origem
geográfica ou étnica, identidade religiosa ou sexual, características físicas
etc.
A utilização abusiva e sem critérios do atalho das cotas
pode gerar distorções piores que as que pretende enfrentar, gerar tensões e ressentimentos e, principalmente, adiar o debate
quanto a soluções efetivas para desigualdades constatadas. Porque não cotas de
gênero? Porque não cotas religiosas? Porque não cotas de acordo com a origem
dos candidatos segundo as diversas regiões do país, ou do estado, ou dos
bairros de uma cidade? De acordo com o projeto, até 40% das vagas de cada concurso
poderão ser destinadas não àqueles que se prepararam melhor e que num certame
aberto se classificaram como os mais aptos a exercerem determinada função
pública, mas sim aos que se enquadrarem em algum critério arbitrário de
inclusão em segmento protegido por cotas. A proposta é extremamente nociva.
Fere a isonomia, desestimula a meritocracia e, a médio prazo, tende a piorar a
qualidade do serviço público. Não contempla nenhuma metodologia científica
séria, sociológica, antropológica ou gerencial, masapresenta o sedutor discurso
de compensação de injustiças seculares, como se, para compensá-las, fosse
necessário praticar outras injustiças no presente. É importante que o Senado
discuta e aprimore esta proposição.
Não parece longe o dia
em que algum legislador, constatando que há mais de 30 anos um time do
Nordeste, Norte ou Centro-Oeste não vence o Campeonato Brasileiro de Futebol da
Série A, irá propor algum tipo de critério de cotas para supostamente fazer
justiça aos brasileiros dessas regiões.
Com uma diferença, a
reserva de 20% praticamente fará com que o concurso perca o caráter
concorrencial. Ou seja, bastará ao negro tirar a nota mínima para conquistar o
cargo. Isso não é direito. É privilégio. De fato, se somarmos os 20% possíveis
para as pessoas com deficiência com os 20% possíveis para os negros, então
poderemos ter 40% dos servidores entrando no serviço público não por meio de um
concurso, mas por meio de um teste de aptidão mínima, tal como é o Exame da
Ordem dos Advogados. É uma política paliativa e desarrazoada.
Sem mais.
sexta-feira, 20 de setembro de 2013
Simplicidade do complicado
Perdemos mais tempo arrumando desculpas
do que vivendo. Adiando do que aceitando a dificuldade. Perdemos mais tempo
explicando a desistência do que enfrentando o sim. Garanto que a fuga dá mais
trabalho do que se encontrar, pois estaremos longe, mas com saudades. Estaremos
protegidos, mas vazios. Aliviados, mas entediados. A vida é simples, não há
como acalmar o coração senão vivendo. Parece que não conseguiremos, mas
acredite, a vida é feita de sustos bons. Os riscos valorizam a recompensa e viver
não é para solitários.
Pensei que nunca me equilibraria
em uma bicicleta, mas minha mãe fingiu que segurava minha garupa e pedalei de
olhos fechados. Pensei que nunca aprenderia a ler, mas as letras garrafais e
bem delineadas da “tia” da escola foram minhas primeiras histórias. Pensei que
não teria namorada, mas o beijo veio distraído no recreio da segunda série.
Pensei que não entraria na faculdade, mas sacrifiquei noites sobre livros e
depois desfrutei de boas calouradas. Pensei e fui fazendo e fazendo.
Acha que somos impossíveis, mas é
do impossível que o amor gosta. O impossível é o possível repartido.
Texto adaptado.
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Aos novos, aos antigos
Para as amizades não existe
conceituações objetivas e definitivas. Se você é amigo, não respeitará
convenções sociais. A educação ficará em segundo plano diante de dois amigos em
uma mesa de bar. O escárnio e o respeito andam juntos em uma mesma sintonia.
Não determino a origem das
amizades. Amigos não decoram a data do primeiro abraço, riso ou do primeiro
porre. A amizade tem uma memória alforriada. Jamais liga para fazer comparações
ou testar afinidade. Não lamentaremos injustiças, mas riremos do tempo passado.
Amigo que é amigo te deixa
desconfortável, ele te desconsola. Ele não dará “tapinhas” nas suas costas e
dirá “É assim mesmo.” Não! Ele te dará um tapa na cara e dirá para você olhar
para cima e que a tristeza passará. Fará você rir de si mesmo para ver o que já
superou na vida. O amigo de verdade mostra suas vulnerabilidades, ele te
exibirá como uma relíquia e fará com que todos saibam que você está ali.
Em momentos cruciais e difíceis ele
sempre mostra sua boa crueldade. Ensinar-te-á a ver não o óbvio, mas o
verdadeiro. Na amizade não há espaço para romantismos. Amigo de verdade não te pedirá um
copo com água. Ele abrirá sua geladeira e tomará sua coca-cola. Não há rótulos
que o identifique, há ações.
Aos novos, aos antigos.
(Foto: cena do filme "the intouchables")
(Foto: cena do filme "the intouchables")
terça-feira, 3 de setembro de 2013
Ao tempo, uma poesia
O brilho de seus cabelos castanhos amanheceu em
minha mente naquele dia.
Era incomum isso para mim.
Lembrara da noite em que a vi, disse “oi” e ela
sorriu para mim.
Cheguei em uma fria madrugada,
Vi as ruas em uma bela tarde,
Discursei em uma noite com amigos,
e em outra, despretensiosa, a vi.
Como um barco que busca a terra distante,
Como uma música que busca ouvintes perdidos na
madrugada,
Como a fé que não necessita de justificativas para
existir.
Sempre admirei a terra molhada, após um dia de
chuva.
Mesmo após um temporal, lá nasce a vida.
Simples, calma, justa, diferente.
O carinho inoportuno é sempre o mais interessante,
o mais vivido, o mais prolongado.
Talvez ela seja assim em mim.
Espero aprender a admirá-la ainda mais.
Não há celebração que a mereça.
Não há humildade que combata sua ternura.
Não há apresentação que vença sua chegada.
Não há elogios que revivam suas palavras.
Agradeço ao destino, ou ao mundo pequeno.
Para você.
sexta-feira, 30 de agosto de 2013
Cão manco
Sou devoto dos cachorros mancos. Aquele cachorro com uma perna
imaginária, apoiando-se no vento. Admiro imensamente o vira-lata que, apesar de
quebrado, percorre seu trajeto com o focinho erguido. Irei segui-lo na rua para
descobrir o que come e onde mora. Posso entornar as latas de lixo para me
tornar igual. Fico curioso e assombrado pela força sobrenatural que emana de
seu andar. Ele perdeu a pata, mas não a estrada. Ele perdeu a pata, mas não a
vontade. Ele perdeu a pata, mas não a esperança. Ele perdeu a pata, mas não
perdeu a lembrança de caminhar.
Não tenho pena dele, nem cometo o desatino de me comparar. O cão manco é
um homem inteiro.
Passeia por mim e não pede desculpa. Não menosprezo sua convicção: o
cachorro manco também corre. O cachorro manco talvez voe. O cachorro manco
esquece que tem chão. Sua esperança é uma centopeia apressada.
Ele não se entregou ao encolhimento, continua se arriscando no trânsito
pela compreensão. Aceitou apenas que a vida não é perfeita e ninguém é capaz de
controlá-la.
Os homens com vergonha de amar deveriam adotar um cachorro manco e
contemplar o esforço da ausência. Segurar a patinha inexistente e enxergar o
quanto ela é musculosa. Encarar os olhos carentes desprovidos de cílios, nada separando a
realidade do fundo das pupilas. Sua aparição transforma nosso jeito de desejar
o mundo. É só pegar o animal no colo que paramos de reclamar dos pequenos
aborrecimentos. Desistimos do orgulho. Nasce uma suave fé da carícia. Porque o
cão manco confia antes de conhecer. Faz festa mesmo sem ser convidado. No
amparo estranho, abanará o rabo e tremerá de contentamento. Ele sofreu e não se
tornou arredio. Sofreu e não deixou de oferecer o coto.
Um cão manco é uma passagem para a infância – ele lambe o rosto para
lavar pudores e ressentimentos. Aceita um prato de comida como se fosse o seu
próprio aniversário. Harmonioso na falta, nos diz que não dependemos de
equilíbrio, e sim de um lugar para ir.
O cão manco é meu professor de transcendência. Explicou-me que eu não
posso amar por dois, posso amar por três, quatro, cinco, o que precisar para
retribuir a ternura de outro amor.
Carpinejar.
sábado, 17 de agosto de 2013
Enganos e Acertos
Olhar, sorrir, mentir. O amor
abre espaços para enganos. Enganamo-nos para viver a dois. A beleza da
cumplicidade e a frieza da indiferença convivem lado a lado. Quando você acerta
é porque errou há tempos. Possivelmente já perdoou seus arrependimentos e encontrou
novos motivos para pedir desculpas. Como vivemos eternamente enganados no amor?
Talvez porque o engano retira-nos
da mesmice sentimental. A apatia de nosso conforto é provocada pelo interesse
afetivo, que cresce e se distribui promiscuamente em nossos pensamentos. O
interesse é orgulhoso e objetivo. A minha mente me sabota quando durmo. A
dúvida da humanidade é saber se evoluímos com os nossos amores e enganos, ou
apenas enterramos velhos sentimentos em um cemitério de recordações não
vividas.
Lembrei, lendo hoje este poema:
“Como nos enganamos fugindo ao
amor, como o desconhecemos talvez com receio de enfrentar, sua espada coruscante,
seu formidável poder de penetrar o sangue e nele imprimir uma orquídea de fogo
e lágrimas”.
Foto do filme: Brilho eterno de uma mente sem lembranças
sábado, 10 de agosto de 2013
No outro lado do quarto
Há algum tempo não escrevo neste
blog, creio que devido a situações em minha vida recente. Situações boas,
dessa vez. Bem, de qualquer modo, temo pelo despreparo dessas linhas, mesmo
quando ainda estão apenas em minha mente.
Observando a cortina, o tapete, a
TV, às vezes sinto um leve sussurro de “Boa Noite” da solidão do outro lado do
quarto. Já somos amigos. Então, lembrei. Penso que não devemos ter esperança
em algo, mas fé. A fé nos move, nos evidencia, ela prova quem somos. A
esperança morre, para e espera algo que não teremos se assim fizermos jus ao
seu nome.
Não tenho esperança na igreja, ou
no fim da fome na África, ou na abolição da corrupção em nosso país. Tenho fé
no que podemos fazer, construir, mudar. Se sinto fome, como. Se estou animado,
brinco. Se estou triste, me calo. Palavras não ditas são filosofias escondidas.
Se tenho esperança, pratico a fé. E a minha é deslocada, atípica, sutil. Se
você a percebe, é por que deixei que você percebesse. Minha expressão de fé não
é vã. Eu a exerço quando te observo, toco em você e deixo um gesto no ar. Minha
fé está no pequeno espaço entre nós.
Se você sofre, tenha fé. Não ache
que ninguém quebrará o monopólio de sua dor. Termine de se arrepender e
pratique mais de você. É preciso discutir a fé quando combatemos a esperança
preguiçosa. E quando fecho meus olhos e vejo você, falo de fé com a solidão no
outro lado do quarto.
sexta-feira, 21 de junho de 2013
Democracia contra a letargia
As manifestações realizadas
nestes dias buscam diversas reivindicações e não se voltam apenas para a queda
de um regime de governo. Essa pluralidade de questionamentos traz à tona uma
dúvida sobre nossa democracia e sua eficiência.
Bem, ao contrário do que muitos
pensam, nosso sistema eleitoral/democrático funciona (e muito bem). É um dos
mais modernos do planeta. No entanto, vivemos, creio eu, uma crise de
representatividade, onde quem assume cargos políticos não nos representa de
fato, ou extravia-se dos objetivos que outrora defendia.
Penso que a população cansou de
ver na pauta política discutida assuntos irrelevantes ou que, direta ou
indiretamente, tornar-se-ão inúteis com o tempo. Projeto de cura gay, aumentos
salariais dos congressistas, discussões de legitimidade entre o judiciário e o
legislativo, dentre outros temas igualmente desprezíveis ou que retardam nossa
justiça, como a Pec 37. Enquanto isso, o custo de vida aumenta, dentistas são
queimados vivos, jovens são assassinados por causa de um celular e um pai sofre
para levar seus filhos ao colégio com uma passagem absurdamente desproporcional
à sua realidade.
Assistimos à elitização do
futebol e à farra com a concessão de diárias para “apadrinhados” políticos irem
à Europa, enquanto a massa do povo sofre com o desprezo dado ao SUS e ao
transporte público. Infelizmente, no Brasil, a mídia mostra, mas não provoca.
Prefere-se falar sobre quantos milhões o Neymar vai ganhar a discutir uma
possível redução de impostos ou uma CPI dos estádios superfaturados.
No Brasil, o buraco é sempre mais
embaixo.
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Essa é a liberdade de expressão!
Marco Feliciano foi muito infeliz em suas frases, é fato. No
entanto, é agredido e acusado por dar sua opinião, isso é um absurdo. Ele defende
o "seu povo" - eleitores - e por mais que suas palavras soem agressivas, não pode sofrer
agressão por dizer o que pensa. O povo está confundindo liberdade de expressão
com homofobia. Flagrante erro.
Quando ele disse que só sairia da comissão se o Genuíno e o
JP Cunha, CONDENADOS no Mensalão, saíssem da Comissão de Constituição e Justiça, ele estava certíssimo! É vergonhoso ver protestantes invadindo as
sessões da CDH enquanto que, ali do lado, estão dois condenados na maior e mais
importante comissão do congresso. Deviam sim levantar suas vozes de protestos, mas na CCJ, e não mudar o foco atacando alguém que é inimputável por suas palavras (imunidade
material).
Há uma linha tênue entre opinião e preconceito, mas mais
sutil ainda é separar a emoção da razão. É só olhar os fatos para ver que essas
acusações são puro sensacionalismo de “sindicalistas da moral e bons costumes”
que no Brasil que existe. Pior, meus caros, é ver Dirceu, Genuíno e toda aquela
corja atuando firmemente no governo ou em seus bastidores.
Não sou a favor dele, da igreja, dos protestantes, dos católicos, dos gays e muito
menos da mídia. Devemos olhar para onde realmente interessa.
Daqui a pouco alguma fábrica explode, algum famoso é assaltado,
uma dezena de pessoas morrem em algum acidente...e tudo será, novamente,
esquecido.
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