sexta-feira, 19 de junho de 2020

A despedida (2019)



Esse segundo filme da cineasta Lulu Wang é um retrato sobre a morte e relacionamento familiar. Conta a história de Billi, interpretada pela Awkwafina, que mora em Nova York e tem que voltar à China pois sabe que sua querida avó Nai Nai (Shuzhen Zhao) está doente e tem pouco tempo de vida. O longa explora bem a diferença de pensamento entre Billi com o restante da família, que opta por esconder de Nai Nai sua real condição. Algo que, aparentemente, é comum na China. 

A família, então, arma um casamento apenas com o intuito de unir a todos e deixar Nai Nai feliz, pois cada uma foi para um lugar diferente. Billi não entende, pois prefere conta a verdade à sua avó, mas sempre é repreendida pela mãe e tio. Ela, logo, passa a ficar mais na companhia da sua avó por saber de seu fim próximo e guarda o segredo. O filme tem sucesso em mostrar de forma objetiva as diferenças culturais que existem até mesmo em um povo com a mesma origem. O tio de Billi, para justificar o segredo, diz a ela que “se a pessoa tem câncer, ela vai morrer. Não é a doença que mata, mas o medo”. Uma visão, por vezes, bem diversa da encarada no ocidente.

A morte é o pano de fundo do filme, mas que possui um arco de dramédia e bons momentos em família, fazendo com que reflitamos sobre valorizar quem está ao nosso lado, mesmo que esteja, às vezes, longe. O laço familiar e o aprendizado extraído de momentos simples ficam marcados, mesmo que você nem perceba. Por fim, destacam-se as atuações da Awkwafina e da doce  Shuzhen Zhao, cada uma com sua sensibilidade.

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Cópia fiel (2010)



Filme do diretor iraniano Abbas Kiarostami, “Cópia fiel” começa quando o escritor inglês James Miller viaja para uma pequena cidade na Itália para divulgar seu livro, que possui o mesmo nome do filme. Ele então conhece a dona de uma pequena loja de obras de arte chamada Elle. Os dois saem para andar pela cidade e conversam sobre vários assuntos.

No bom estilo “Antes do amanhecer”, os dois discutem sobre vários temas interessantes, como o valor do original e da cópia, arte e família. James é frio e racional, Elle é emotiva e preocupada, já que tem um filho e precisa assumir várias funções, como ser mãe, pai e trabalhar, ao mesmo tempo. Entretanto, o filme tem uma reviravolta quando, após serem confundidos por uma senhora, ambos se comportam como marido e mulher (ou de fato seriam casados e não sabíamos?). Aí se encontra a boa trama do diretor Kiarostami.

O filme é bem dividido nessas duas partes que não se excluem, pelo contrário, poderiam até serem invertidas que a trama continuaria interessante, já que ficamos com a dúvida sobre o que é real (ou cópia) na conversa dos dois. No entanto, esse entendimento você somente conseguirá extrair – se for essa a intenção, é claro -, ao assistir a esse filme, que é simples, mas que traz um debate importante, como por exemplo: A obra original não seria apenas uma cópia bem feita ou uma representação daquilo que já existe? O que é verdadeiro e falso na relação entre James e Elle? A interpretação é sua.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Lion – Uma jornada para casa (2016)



O drama conta a história de Saroo, um menino que se perdeu numa estação de trem em Calcutá. Então mostra os desafios que enfrentou até ser adotado por uma família australiana. Anos depois, ele busca encontrar suas origens usando o Google Earth. É uma singela trama emocionante, mas que também tem seus deslizes.

É um filme com cara de comercial publicitário e esse pensamento não é à toa, já que o diretor iniciante Garth Davis fazia comerciais de TV (acho que o Google ganhou uns pontos com isso). Ademais, a relação de Saroo adulto com sua namorada, vivida pela Rooney Mara, também não convence, mostrando ela distante do protagonista, mesmo o apoiando em sua jornada.

Os pontos altos ficam com a atuação da mãe adotiva, com uma bela interpretação de Nicole Kidman, do pequeno Sunny Pawar, correndo pelas ruas e chamando pelo seu irmão Guddu, e pela dicotomia entre a pobreza indiana e a riqueza no litoral da Tasmânia, onde Saroo foi morar após ser adotado. Ah, a fotografia também soube jogar bem com as luzes naturais e tem seu destaque no longa.

Lion foi indicado a 6 Oscars e trata sobre família, laços de sangue e origens.

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Expresso do amanhã (2013)



Este filme de Bong Joon-Ho, diretor de Parasita (2019), traz o que restou da humanidade, após o planeta ter esfriado devido a uma tentativa fracassada de evitar o aquecimento global, vivendo em um trem dividido em vagões que definem suas classes sociais. Quem vive na parte da frente são os ricos e, no fundo, os pobres. O filme trata da tentativa de Curtis (Chris Evans) em chegar na parte da frente do trem, através de uma rebelião interna.

Assim como O Poço, da Netflix, o filme demonstra como o egoísmo e a exploração se tornam comuns tão somente pela condição social da pessoa, ou melhor, pela posição em que ela se encontra. No entanto, diferentemente de O Poço, em que existe uma segregação vertical e com a possibilidade aleatória de ascensão ou queda social, em Expresso do amanhã há uma divisão horizontal e com impossibilidade de movimentação da condição humana.

Assim, Curtis quer matar o Wilford (Ed Harris) que é quem defende esse determinismo social e é o criador do trem, morador do primeiro vagão. O filme mescla bem cenas de ação com uma critica social sobre como a sociedade é seccionada e como alguns que possuem muito vivem à custa da exploração de uma parcela da população condenada à pobreza e a péssimas condições de vida. Portanto, é um filme com um tema que é sempre atual e relevante.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

The Wire (2002-2008)



Ambientada em Baltimore, The Wire é um soco no estômago, mostrando de forma crua a frieza e a dura realidade de uma cidade decadente, dominada pelo tráfico de drogas e pela corrupção e jogos políticos sujos nos mais diversos níveis institucionais. No entanto, acima de tudo, trata da perda da inocência, da juventude e de qualquer ato de civilidade ou senso comunitário. O dinheiro move as pessoas, seja nas esquinas, seja nos corredores do Poder. A série não é maniqueísta e mostra que a diferença entre o bem e o mau é muito tênue.

The Wire não é uma série policial, ela é política, uma crítica social, logo, não espere vilão e mocinho bem definidos, nem grandes perseguições e cenas de ação, pois ela quer demonstrar como o sistema como um todo é errado e falho. O enredo é contado através dos vários personagens e suas aflições cotidianas, passando por policiais, traficantes, políticos, crianças, jornalistas e cidadãos comuns. Não há protagonista, todos contam suas histórias e representam bem como é a inglória realidade em uma cidade mergulhada na violência urbana. E, se fosse haver um personagem principal, seria a própria cidade de Baltimore.

Cada umas das cinco temporadas tem um foco diferente, sendo: o combate ao tráfico, o porto e os estivadores, a política, a escolas e a mídia local. Criada pelo repórter policial David Simon, The Wire foi produzida pela HBO e merece o título que recebeu há uns anos de melhor série já feita, por ser dura e realista, opinião essa que também compartilho.

segunda-feira, 30 de março de 2020

Jojo Rabbit (2019)



Este filme se tornou uma ótima surpresa no final de 2019, é uma adaptação de um livro de Christine Leunens, sendo vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado. O enredo fica em torno de Jojo Betzler, garoto de 11 anos, da juventude nazista e que tem como ídolo Hitler, que também é seu amigo imaginário, vivido pelo diretor neozelandês Taika Waititi. O filme é uma crítica e sátira dos mitos e absurdos ideológicos do nazismo, em como uma criança via e acreditava nas histórias sobre judeus e idealizava Hitler.


É um roteiro que traz leveza a um assunto complicado e delicado. Com vários momentos de comédia e ironia, o filme diverte e nos intriga ao ver como a visão de uma criança é tão fértil, mas também manipulável. O pequeno Jojo começa a questionar suas verdades ao descobrir que sua mãe, interpretada lindamente pela Scarlett Johansson, esconde uma judia num esconderijo na parede. Alí, começam a cair por terra as mentiras que até então Jojo acreditava sobre o que estava acontecendo na guerra.

O filme corre o risco de amenizar os horrores da guerra, trazendo um Hitler carismático e engraçado, mas tudo é entendido ao lembrar que se trata da imaginação do jovem Jojo, que tinha no ditador nazista o seu maior ídolo. Ademais, o filme não traz uma reflexão profunda sobre a guerra, não é essa a intenção da direção de Taika Waititi.

Por fim, Jojo Rabbit também faz sutilmente uma homenagem às mães que criam seus filhos sozinhas e nas alegrias que as crianças precisam ter na infância. É um trabalho responsável dentro de uma comédia leve e emocionante.




terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Parasita (2019)



Fazendo jus a ascensão do cinema sul-coreano, “Parasita” traz uma crítica social importante em um ótimo e provável melhor filme de 2019. Trata de duas famílias, de um lado os Kim, família pobre que vive em um sub-andar - quase-porão - em um nível abaixo da rua, com visão para uma lixeira constantemente urinada por bêbados. Do outro lado, os Park, a família burguesa que vive em um bairro rico, na parte alta da cidade.

Aos poucos, os Kim conseguem se infiltrar na família Park, quando o filho vai ensinar inglês para a filha dos Park. A partir desse ponto, o diretor Bong Joon-Ho trata com um humor ácido as artimanhas e malandragens dos Kim para conseguirem se aproximarem da família abastada. Exemplo disso é quando o filho dos Kim fala para toda obra artística “que metafórico!”, ironizando como a burguesia retratada nos filmes se considera melhor que os demais.

O segundo e terceiro atos são intensos e assumem conotações sombrias, dando um ritmo quente e extremamente interessante à narrativa, já que são feitas revelações na trama que mudam todo o plano da família Kim. Creio que o interessante nesse filme é como o diretor aborda a estratificação social na coréia (assim como também vemos aqui) através de metáforas, como, por exemplo, o fato de os Kim morarem bem abaixo da rua e os Park em uma colina, fato percebido quando eles sobem e descem a via, enfatizando as diferenças sociais. Por fim, o modo como os Kim se “unem” aos Park justifica perfeitamente o nome do filme.

“Parasita” é um filme genial, com belas tomadas e situações cômicas, fortes e também muito intrigantes.

domingo, 8 de dezembro de 2019

Despedida



E no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir; foi triste. Se houvesse uma despedida talvez fosse mais triste, talvez tenha sido melhor assim, uma separação como às vezes acontece em um baile de carnaval — uma pessoa se perde da outra, procura-a por um instante e depois adere a qualquer cordão. É melhor para os amantes pensar que a última vez que se encontraram se amaram muito — depois apenas aconteceu que não se encontraram mais. Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado—sem glória nem humilhação.

Creio que será permitido guardar uma leve tristeza, e também uma lembrança boa; que não será proibido confessar que às vezes se tem saudades; nem será odioso dizer que a separação ao mesmo tempo nos traz um inexplicável sentimento de alívio, e de sossego; e um indefinível remorso; e um recôndito despeito.

E que houve momentos perfeitos que passaram, mas não se perderam, porque ficaram em nossa vida; que a lembrança deles nos faz sentir maior a nossa solidão; mas que essa solidão ficou menos infeliz: que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?

Talvez não mereçamos imaginar que haverá outros verões; se eles vierem, nós os receberemos obedientes como as cigarras e as paineiras — com flores e cantos. O inverno — te lembras — nos maltratou; não havia flores, não havia mar, e fomos sacudidos de um lado para outro como dois bonecos na mão de um titeriteiro inábil.

Ah, talvez valesse a pena dizer que houve um telefonema que não pôde haver; entretanto, é possível que não adiantasse nada. Para que explicações? Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso; lembremos apenas as coisas douradas e digamos apenas a pequena palavra: adeus.

A pequena palavra que se alonga como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.

Rubem Braga

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Mudar


Quis mudar nessa semana. A caminho de casa ou do trabalho, passei a ouvir musicas que não estou habituado, que fogem do usual para mim. Podcasts ou programas que nunca escuto. Talvez, no fundo, porque sempre gostei desse sentimento discreto de mudança, de ver com outros olhos (no caso, ouvidos) diferentes formas de encarar o mundo e suas idiossincrasias. 

Além disso, creio que este ano aprendi a ser vulnerável. "Vulnerabilidade", uma bela palavra. Devia usá-la mais, ou melhor, praticá-la. Seja vulnerável para se tornar mais forte. 
Apreciar os detalhes, um farol do carro num dia de chuva, um vento forte no fim da tarde, o olhar cativante de alguém feliz prestes ao encontro. Detalhes. 
Algumas coisas você somente percebe quando se estar vulnerável. 

Mudar custa pouco e te leva longe.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Onde vivem os monstros



Esse filme é uma adaptação de um livro feita por Spike Jonze. Acabou se tornando uma historia indie-infantil para adultos. É uma grande metáfora dos sentimentos de uma criança e seu crescimento, amadurecimento. Quanto ao enredo, conta a historia do garoto Max que, após ser colocado de castigo pela mãe, foge de casa vestido de lobo e acaba chegando a uma ilha habitada por criaturas.

Há uma constante dúvida se o garoto fugiu de fato e encontrou esse lugar mágico ou se tudo era fruto de sua imaginação. Sendo imaginação, os monstros representavam sentimentos do garoto ou as pessoas próximas a ele? Um desses monstros, Carol, dublado magistralmente por James Gandolfini (Os Sopranos), representa bem essa dualidade entre solidão e ira, sentimentos contidos no próprio Max. De cara, Carol se torna o monstro predileto dele.

Spike Jonze trata o filme como uma fábula, quase um conto infantil. A fotografia de Lance Acord é magistral e sabe jogar bem com a luz natural do sol e as sombras da floresta. Os monstros são reais, com exceção das expressões faciais que são feitas via computação gráfica. Por fim, podemos dizer que Onde moram os monstros é um filme esquisito, diferente. Sua mensagem é relativa e pode ser interpretada por diversos ângulos. Provável que essa era a intenção do diretor. Não há moral da história, mas sim um fluxo de emoções sentidas entre aquele garoto e seus amigos monstros, no único lugar que ele se sentia bem, como um verdadeiro rei.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Sociedade dos Poetas Mortos



Sociedade dos Poetas Mortos (1990) é um clássico. Esse filme do Peter Weir, mesmo diretor de o Show de Truman, é um lindo ensinamento sobre educação e a vida no geral. Nele, vemos o professor John Keating, carinhosamente interpretado por Robin Williams (no auge da carreira), ensinando poesia e literatura numa escola tradicional e conservadora para garotos. No entanto, Keating vai além. Ele destoa dos demais professores por ensinar aos meninos sobre o livre pensamento, a terem autoconfiança e encontrarem sua própria voz.

Em certo momento, eles descobrem que o professor participava em sua juventude de algo chamado sociedade dos poetas mortos. Um grupo de meninos que se encontravam em uma caverna nos arredores da escola à noite para declamarem poemas e discutirem livremente acerca da vida, longe das rédeas morais do colégio. Assim, eles recriam essa sociedade e fazem seus encontros.  Cada um, a sua maneira, acaba por descobrir suas próprias vontades, como, declarar-se a uma garota, desafiar a vontade dos pais ou até entrar para uma peça de teatro.

O filme é cheio de citações de autores famosos, o que serve de enredo para a descoberta das vozes desses estudantes. Para Keating, longe das amarras familiares, a escola deveria ser o local para que os garotos pudessem encontrar suas vontades e se descobrirem como pessoas que possuem pensamentos próprios. Isso torna esse filme atemporal e magnífico. Ao ensinar sobre o poder dos sentimentos das palavras e de como devemos aproveitar nosso dia, o professor acaba por definir bem o sentido da frase mais famosa desse filme e que deveria guiar a maioria das pessoas: Carpe Diem.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Agentes do Destino



Será que existe destino ou somos manipulados sem que percebamos? Agentes do Destino (2011) conta a história do candidato a Senador David Norris (Matt Damon) que, após perder a eleição, conhece por acaso, num banheiro, a bailarina Elise (Emily Blunt). A espontaneidade dela o inspira a fazer um belo discurso que acaba salvando sua carreira política. Naquele instante eles se apaixonam. No entanto, em outro núcleo da trama, vemos agentes planejando para que um deles derrame café do David para que ele perca o ônibus e, assim, não reencontre Elise, já que para esses agentes, os dois não podem ficar juntos, uma vez que isso prejudicaria o “plano”.

Entretanto, o agente Harry (Anthony Mackie) dorme e David acaba reencontrando Elise, e, logo após, o congressista acaba vendo seu amigo sendo “recalibrado”, o que faz com que ele descubra que existem agentes do destino, que manipulam e fazem com que as pessoas sigam suas vidas de acordo com um certo plano, escrito por quem eles chamam de “Presidente”. Os agentes justificam sua atuação dizendo que quando eles se afastaram e deixaram os homens livres para controlarem seu destino, a humanidade viveu seus piores momentos, como na Idade Média ou durante as guerras mundiais. Ainda diz que se David ficar com Elise os sonhos dos dois nunca se realização. Apesar dos avisos e preocupações, David começa a corrida para manter Elise em sua vida e assim salvar seu amor, mesmo que ele tenha que enfrentar esses agentes.

Esse longa do George Nolfi traz o questionamento se há outras pessoas – ou "divindades" – que controlam nosso destino, dando a impressão que temos poder sobre nossa própria trajetória de vida, mas que, na realidade, não temos. Será que nosso destino já está escrito ou podemos modificá-lo? Qual o poder do acaso? É um filme que, intercalado a cenas de ação e romance, coloca-nos essa reflexão, e, por isso, vale muito a pena.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Objetos esquecidos


Quando deixamos de usar certos objetos? Quando não há mais utilidade ou simplesmente quando não os queremos mais? Talvez os dois. Uma calça jeans, uma camisa listrada, uma pulseira ou um livro comprado e nunca lido, esquecido entre garrafas de vinho na estante empoeirada. A matéria também tem vida em sua utilidade.

Há espaço para tudo quando sabe-se priorizar. Escolher o tempo certo é mais importante do que o objeto correto. A intangibilidade produzida por um presente recebido (ou doado) não tem preço e, enquanto tiver valor, não há descartabilidade. Não há desprezo pela velha bola de tenis enquanto ainda se quer jogá-la na parede. Não se joga fora uma garrafa enquanto ainda te faz lembrar da noite que a abriu e bebeu com alguém especial.

O sentido existe porque você o cria, nomeia-o e o guarda em seu coração. Uma vez ouvi que se te faz sentir, então faz sentido. Logo, se você abraça o significado, então nunca irá perder seu real valor. Há mais memória na vida do que se imagina.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Meia Noite em Paris



Meia Noite em Paris é uma obra prima do Woody Allen, que escreve e dirige o filme. No longa, acompanhamos a viagem que Gil Pender (Owen Wilson), roteirista de Hollywood, com sua noiva Inez (Rachel McAdams) a Paris. Ele faz vários passeios noturnos e, a meia-noite, ele é transportado para Paris dos anos 20, melhor época para ele. Gil é nostálgico e sempre quis viver nessa época. Nessas viagens, ele conhece seus ídolos, como escritores e pintores. A partir daí ele passa a questionar as escolhas pessoais e profissionais de sua vida.

Ele percebe, por exemplo, que sua noiva é totalmente diferente dele, que possuem gostos diversos e que ela, por vezes, não respeita suas escolhas. Percebe, também, que poderia ter se tornado um escritor de romances, sonho que sempre possuiu, mas nunca realizou. Na década de 20, ele conhece e se apaixona por Adriana (Marion Cotillard), que namorava Pablo Picasso à época. Juntos eles viajam para La Belle Epoque da França - final do séc. XIX - percebendo ali que a “melhor época” para se viver sempre será diferente para cada pessoa e que no fundo nunca valorizamos nosso presente.

Woody Allen ganhou o Oscar de melhor roteiro original com esse filme. Creio que, além da bela fotografia que acompanha toda sua cinematografia, esse filme funciona bem como um alívio dramático para o tema da nostalgia. Afinal, quem nunca quis viver na época de seus ídolos ou quis ter nascido em outro período? Ou ainda, quem nunca quis ter outra carreira profissional ou ter feito outras escolhas na vida pessoal? Tanto pelo drama como pelo enredo, Meia Noite em Paris funciona bem como se fosse um romance em formato de filme.  

segunda-feira, 1 de julho de 2019

50/50



50/50 é um bom filme do cinema indie americano. Quase esquecido pelo público geral uma vez que foi lançado apenas nas locadoras, ele rende boas risadas e também emociona. Escrito por Will Reise, conta a sua história de como enfrentou o câncer. Nesse longa, vemos Adam (Joseph Gordon-Levitt), rapaz de 27 anos que descobre que possui um câncer na coluna e tem 50% de chances de sobreviver. Vemos o enfrentamento da doença ao lado de seu amigo Kyle (Seth Rogen), da namorada Rachel (Bryce Dallas Howard) e sua família.

O tema do câncer é tratado de forma delicada, sensível e realista. Por exemplo, assim como mostra os efeitos das sessões de quimioterapia, por outro lado vemos os laços de amizades e amor entre os personagens. Exceto em relação a Rachel, já que ela demonstra seu desconforto ao estar ao lado de Adam, indicando um provável fim de relacionamento. Kyle, por sua vez, funciona bem como alívio cômico e traz leveza e alegria para o enredo. Ademais, destaco o papel da Anna Kendrick como a psicóloga iniciante de Adam, numa atuação doce e alegre. Por fim, a relação de Adam e sua mãe é um dos pontos altos do filme e que merece atenção ao assisti-lo.

50/50 é um filme que, muito além de retratar sobre uma doença, expõe bem seus efeitos na família e amigos. Joseph Gordon-levitt mostra como sabe fazer drama, deixando de lado seu papeis como coadjuvante e trazendo realismo como protagonista. Ah, a cena dele raspando a cabeça é boa e divertida, assim como ele com os pais antes de ir fazer a cirurgia. Logo, seja para rir ou chorar, esse filme funciona muito bem.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Jerry Maguire



Em Jerry Maguire – A grande virada (1996), vemos a história de um agente esportivo (Tom Cruise) em busca de sucesso, mas o filme vai muito além disso. Jerry é um personagem arrogante e ganancioso, inclusive o filme começa com seu nome dentro da imagem do planeta terra, o que representa bem seu ego. No entanto, após visitar um cliente machucado no hospital ele percebe sua frieza para com os outros e como a indústria do esporte desumaniza os atletas, assim, visando mudar isso, ele cria uma espécie de manual para que a empresa trate melhor seus clientes. A idéia não dá certo e ele é demitido, conseguindo salvar apenas um cliente ao seu lado, o jogador de futebol americano Rod (Cuba Gooding Jr.) e a doce secretária Dorothy (Renée Zellweger).

Após a demissão ele vai em busca de criar sua própria empresa de agenciamento - mesmo tendo apenas um cliente - e mudar seu estilo de vida. De um agente frenético por dinheiro para um personagem que fica feliz em cantar música dentro do carro. O filme muda seu jeito de filmar, retira cortes rápidos e, aos poucos, sai da figura do Jerry para suas relações tanto com Rod quanto com Dorothy e sua família. O foco não é mais o mundo esportivo e sim a grande virada na vida do protagonista em se tornar uma pessoa melhor.

Os filmes do Cameron Crowe sempre têm uma temática: o ser humano e sua relações. Jerry Maguire tornou-se um clássico desse diretor. Não trata apenas da competitividade das empresas esportivas, mas da evolução de um personagem e em como podemos mudar nossa vida e sermos pessoas íntegras e empáticas com as pessoas e suas nuances.

terça-feira, 28 de maio de 2019

A vida secreta de Walter Mitty



Remake de O homem de 8 vidas (1947), A vida secreta de Walter Mitty (2013) trata sobre mudança de vida e como sair da inércia e começar a agir e a viver. Ben Stiller tem uma direção memorável e mostra ser um bom diretor motivacional nesse longa-metragem.

Stiller faz o papel de Walter Mitty, homem pacato e funcionário da lendária revista LIFE. Ele revela negativos para as publicações da capa da revista. Um dia, o fotógrafo selvagem interpretado por Sean Penn envia os últimos negativos - já que a revista impressa será fechada dando lugar a online - porém falta o negativo número 25, justamente a foto que será a capa final da revista.

Assim, Mitty, motivado a encontrar esse negativo, sai em busca de Sean, indo em uma aventura que passa pela Groelândia, Islândia e nas montanhas do Afeganistão. O filme intercala momentos de devaneios e fantasia do protagonista com a real corrida dele em busca da fotografia perdida. O longa ganha ao utilizar cenários reais, como as cenas na Islândia, o que dá ao filme uma ótima fotografia e edição de imagens.

Walter Mitty representa bem aqueles momentos em que nos perdemos em sonhos acordados ou idealizamos muito em como seria nossa vida se fossemos de outro jeito, seguros, aventureiros, reconhecidos no trabalho e com o amor de nossas vidas ao nosso lado. No entanto, o filme deixa claro que Mitty não era só um homem desinteressante e sem qualidades, ao contrário, ele tinha objetivos. Por exemplo, quando reencontra uma mochila antiga de camping quando sonhava em viajar a Europa, ou quando ele mostra que sabe andar bem de longboard. Coisas que foram esquecidas por ele próprio e sufocadas pela rotina do cotidiano.

Por fim, o filme diverte e motiva. Contribui com aqueles que sempre quiseram fazer algo a mais ou que se veem estagnados na vida. É um filme que surgiu sem grandes pretensões, mas que fica guardado com carinho por aqueles que se identificaram com o enredo e com o lema da revista LIFE: “Ver o mundo e seus perigos. Ver por trás dos muros. Chegar mais perto. Encontrar o outro e sentir. Esse é o propósito da vida.”

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Hora de voltar



Hora de voltar (Garden State, 2004) é um drama cômico realista e independente escrito, dirigido e estrelado por Zach Braff, mais conhecido pela série Scrubs. No filme, Andrew Largeman (Braff) é um ator e garçom sem muitas emoções na vida e entediado que mora sozinho há muitos anos em Los Angeles. Ele tem que retornar à sua cidade pois sua mãe faleceu. Ele não quer voltar e encarar seu passado já que desde criança toma remédios psiquiátricos receitados por seu próprio pai e sente-se culpado por ter derrubado sua mãe, que ficou paraplégica.

Ao retornar, ele reencontra antigos amigos e conhece uma nova garota, a alegre e engenhosa Sam (Natalie Portman). A partir daí, ele visita lugares junto à Sam e seu amigo Mark (Peter Sarsgaard). O filme é sensível e funciona como uma viagem no tempo, principalmente para aqueles que saíram de casa e agora retornam, cheios de lembranças e nostalgias.

Andrew, aos poucos, aprende a enfrentar seus medos e, com a ajuda dos amigos, percebe que pode novamente aprender a ser alguém livre de vícios e até a encontrar um novo amor. Deixa de estar entorpecido para ser alguém com sonhos e que busca um futuro diferente, longe de seus traumas. O filme mostra que às vezes para se viver melhor é importante voltar para aprender a perdoar e, assim, recomeçar.

Por fim (e não menos importante), o filme tem uma ótima trilha sonora!

terça-feira, 30 de abril de 2019

Alta fidelidade


"O que veio primeiro, a música ou a tristeza? Eu ouço música pop porque sou infeliz? Ou sou infeliz porque ouço música pop?" É assim que inicia o filme Alta fidelidade, baseado no livro homônimo de Nick  Hornby. Esse é um dos questionamentos que o inseguro Rob Gordon tem durante o filme.

Rob (John Cusack) tem 35 anos e é dono de uma loja de discos em um bairro sem muitos clientes. Ele tem como únicos amigos seus dois curiosos funcionários, Barry e Dick. Após sua namorada Laura terminar o namoro e sair de casa, Rob conclui que há algo de errado com ele e, para tentar entender sua vida amorosa, elenca os cincos piores términos de relacionamentos que teve na vida: Alison, Penny, Jackie, Sarah e Charlie. Por orgulho - e certo rancor - ele não coloca na lista a Laura, seu término mais recente, apesar de percebermos que ele ama ela. Falando em listas, o filme é cheio delas, o que deixa a narrativa leve e dinâmica. Ele e seus amigos constantemente fazem listas como "Top Five músicas sobre a morte" ou "cinco melhores discos de todos os tempos". Tudo sempre relacionado à música, é claro.

O filme usa bem a técnica de break the fourth wall (quebra da quarta parede), pois o Rob fala diretamente com o público, contando seus pensamentos e inseguranças para a gente que está assistindo ao filme. Lembrando que essa técnica é bastante usada em "Curtindo a vida adoidado" (1986), "Clube da luta" (1999), "O senhor das armas" (2005) e na série "House of Cards" (2013), o que nos deixa presos ao roteiro e sabendo exatamente o que ele pensa sobre certa cena.

Então, ele visita suas ex-namoradas para entender o que fez de errado para merecer ser rejeitado em todos os seus casos anteriores, buscando um sentido para sua vida, ao mesmo tempo em que conhece uma charmosa cantora e inicia um relacionamento novo. A partir desse ponto, só assistindo para evitar spoiler (rs).

O filme é repleto de referencia pop e é bem fiel ao livro, que aproveito e indico também, até por que ao ler o livro você consegue descobrir várias bandas e músicas que os personagens citam em suas listas. Assim, quem gosta de música, lembra das locadoras (aqui, no caso, loja de discos) e tem muitas dúvidas em seus relacionamentos, esse filme vai cair como uma luva. Além de ser divertido é, apesar de ser de 2000, a cara dos anos 90.

Let´s get it on!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

O Estado das Coisas



O Estado das Coisas (Brad´s status), de 2017, escrito e dirigido pelo Mike White, diretor de “Escola do Rock” e “Nacho libre”, é um daqueles filmes simples, de baixo orçamento, que devemos reconhecer como importantes para refletirmos sobre a vida. Brad, interpretado pelo Ben Stiller (em sua melhor interpretação dramática), vive um homem perto dos 50 anos, com uma vida comum, casa, esposa e filho, este prestes a entrar numa faculdade. De repente, ele se vê numa crise pessoal, questionando as escolhas que fez na vida e se comparando com antigos amigos da faculdade, que se tornaram ricos e bem sucedidos. Então, ele parte para Boston para acompanhar a entrevista do filho em uma universidade.

Brad é melancólico, algo perceptível em alguém que está frustrado e insatisfeito com a própria vida. Antes e durante a viagem ele se perde em seus pensamentos, pensando em como seria a vida se fosse solteiro ou se tivesse seguido outra carreira profissional, por vezes, até devaneia trocando de vida com o próprio filho, que aparentemente terá uma carreira e experiência universitária melhor que a dele. A crise de meia idade de Brad o consome, mas é bem comum e ganha força nos tempos atuais, em que vivemos sob a égide das redes sociais, onde podemos publicar - e muitas vezes comparar - nossas vidas com a de amigos ou familiares, infelizmente.

Entretanto, vemos o amor dele pelo filho, e, apesar das comparações feitas, ele percebe, aos poucos, a importância dele na vida de sua própria família e como ele conseguiu criar um “ser humano maravilhoso”. O filme é realista e sensível, tocando em temas atuais, como o fato de vivermos pressionados para sermos perfeitos, termos uma bela carreira profissional e uma vida social glamurosa, ou ao menos aparentar isso para o mundo.

Em “O Estado das Coisas”, vemos muito além da relação entre pai e filho, aprendemos, também, a valorizar o que construímos e em nunca perder o interesse pela vida, seja qual for o caminho traçado, pois, como deduz o protagonista, nós ainda podemos amar o mundo sem ter que possuí-lo.

terça-feira, 16 de abril de 2019

After life



A nova série After Life, da Netflix, escrita e dirigida por Ricky Gervais, traz uma perspectiva realista e esperançosa acerca da depressão. Após a morte de sua mulher, por um câncer de mama, Tony (Gervais) fica deprimido e amargurado, além de desenvolver pensamentos suicidas. Ele passa a tratar a todos da maneira que lhe convém, mesmo que isso signifique falar mal de idosas na rua ou ameaçar uma criança de 10 anos com um martelo, tudo com muito sarcasmo e ironia – nessas horas lembramos do humor que o consagrou como David Brent, em “The Office”. Sua vida se resume em uma rotina melancólica e trocas de ofensas com pessoas aleatórias, atitudes bem diferentes de sua personalidade alegre e divertida de outrora, quando tinha a companhia de sua esposa.

A série mostra um lado bem comum da depressão, mostrando a insatisfação e tristeza de alguém que acaba de perder o amor de sua vida. No entanto, a série deixa claro que, apesar da vontade de se matar, ele não o fez. Com o pretexto de cuidar da cadela Brandy, vemos que o Tony, no fundo, não desistiu da própria vida. Os planos de filmagem da série, que sempre é filmada durante o dia - normalmente ensolarado e em belos lugares, como parques e praia – corroboram com essa visão otimista, deixando a entender que há esperança para ele, o que contrasta com o humor deprimido do personagem que sempre veste cores escuras.

Com o tempo e as interações com os outros ao seu redor, ele percebe que há coisas boas para celebrar e visualiza que tem pessoas que querem seu bem. A trilha sonora vai mudando à medida que ele vai percebendo a importância dos momentos comuns em sua vida, como aproveitar a companhia dos colegas de trabalho, as novas amizades no bairro e até a possível descoberta de um (novo) amor.

Coisas boas acontecem com pessoas ruins, e coisas ruins acontecem com pessoas boas. É a vida. Ponto.” Diz uma personagem. Isso resume bem como devemos enfrentar as mais diversas circunstancias na vida e como devemos aprender a ver o quanto nós contribuímos para o nosso pequeno pedaço de mundo. Assim é After Life.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Cronista


Quem conta ou escreve histórias consegue viver de maneira única. Um livro, uma revista, um blog são painéis, pequenos retratos. O cronista é aquele que passa e percebe as redondezas comuns da vida com detalhes intrigantes e sinceros. É aquele que atravessa uma rua percebendo o bueiro destampado, os copos quebrados na esquina, uma flor esquecida na janela de uma casa amarela. É aquele que interpreta casos, que vê gente por trás de cada pequeno gesto, frustração nas pontas de cigarros na sarjeta e resquícios de uma paixão repentina nas marcas de batom em lenços de papel. É aquele que admira as árvores que tornam aquela estreita rua mais bela, que ouve a conversa durante um jogo de dominó na praça de um sábado qualquer. É aquele que agradece pelo meio sorriso que conseguiu tirar de uma linda garota. Quem escreve sempre vê o cotidiano com um olhar inédito. O escritor é aquele que pega uma carta amassada na calçada e entrega ao destinatário torcendo apenas para que seu dia seja mais feliz.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Negligência


Ele tragou o último cigarro da gaveta. Fazia um tempo que lia e relia seus autores prediletos. Arrumava papéis na mesa, deixava a caneta onde pudesse pegá-la facilmente. Mais perto que isso, só o copo e o cinzeiro. Lembrava que tinha que arrumar a casa, lavar as roupas e guardar os pratos. No entanto, ficava sentado, lendo rascunhos antigos e ignorando as trivialidades domésticas ao seu redor. “Dessa vez será diferente”, pensou ele antes de se encostar na cadeira. O teto do apartamento nunca pareceu tão distante e seus pés tão frios. “Duvido que o Bukowski usava meias”, pensou. Então deitou no sofá.  Um dedo do vinho do fundo da geladeira foi o bastante para ele ter o sono dos (in)justos. A luz que viu não foi a do fim do túnel, mas a do seu notebook, esquecido no canto. Os livros na mesa continuaram o encarando e a solidão foi sua única companhia naquela noite.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Iluminação


Sempre vi a metáfora da vida sendo uma espécie de livro com certa desconfiança, apesar de gostar de me perder em linhas alheias e bem escritas. Entretanto, vejo agora, sem motivo aparente, que essa foi e ainda é a melhor comparação com nossa trajetória nesse planeta, onde as pessoas sonham e vivem.
Quando paramos para “pensar na vida”, se perceber, toca uma música no fundo de seu consciente, baixa, melódica, por vezes triste. Acho que a reflexão, por si, traz isso. Outros se imaginam na praia ou no alto de uma montanha, sentindo a leveza e frescor da brisa marítima ou bucólica que chega e sussurra no ouvido. 
A pessoa fecha os olhos e se imagina em outros lugares, vidas, ou criando raízes, mas, naquele momento, ela foge com seus devaneios e crenças. Nesses pequenos e singelos momentos é que a credito que somos nós mesmos. Estamos ali, sentados no ônibus, no trabalho ou na mesa do bar, perdidos e escrevendo nossa história.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Felicidade qualquer


Naquele dia ele estava estranhamente feliz. Não sabia de onde vinha aquele sentimento tão simples e cada vez mais raro em seus dias. Costumava achar que tudo na vida era uma obrigação, que tudo era rotina. Naquele dia isso não aconteceu. Estava com o pensamento longe, olhava para o céu e uma música calma, quase um mantra, tocava em seus ouvidos. Ele estava leve, calmo. Sentia que podia se conectar às estrelas, que fazia parte de algo maior. Não era religião, tampouco drogas. Era o esplendor de sua mente, alcançando o auge de sua força e clareza. Não tinha medo, não tinha dúvida. E antes que tudo acabasse, ele resolveu escrever num papel aquele sentimento, para que nunca mais pudesse esquecer como era. Depois ele se deitou e foi dormir com a esperança que seus sonhos fossem tão bons quanto sua realidade.

terça-feira, 5 de julho de 2016

(des)construção


Há momentos em que devemos nos (des)construirmos. Livrarmo-nos das amarras bobas e cegas que teimam em não deixar nossa mente livre. Construções psicológicas, feitas ao longo de nossa curta vida, não são contratos que assumimos com nosso destino, ao menos, não deveria ser assim. “Vivemos tempos líquidos”, como diz Bauman. Diante dos mais diversos arquétipos que são impostos social, econômico e culturalmente para nós todos, mais do que apenas aceitar, certo seria construirmos nosso próprio modelo pessoal, que, em tese, deveria ser flexível e adaptável; assim penso. Curiosamente somos massacrados por ideias majoritariamente infundadas e fechadas, mesmo que com aparência de modernas e abertas. Aos poucos somos manipulados e encarcerados em um mundo onde o desamparo afetivo torna-se corriqueiro. Pelo que se vê, o pensamento livre arrebatador não existe, e não estamos vendo isso. Triste quando os devaneios tornam-se mesquinhos e aceitam ser do tamanho do nosso pequeno mundo. 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Vida, desmedida


Tenho o costume antigo de acordar cedo, não por que alguém fazia barulho na cozinha ou o galo cantava no quintal, mas, sobretudo, devido nunca suportar a ideia, mesmo que sem perceber, de que o dia estava lá fora e eu nada faria a respeito. Prefiro o frio do amanhecer e do café quente na mesa a ter que me esgueirar pela madrugada, moribundo de sono. Trabalhar, ler um bom texto e planejar atividades sempre foram tarefas melhor executadas no início do dia. Apesar de adorar a noite, considero-me um “cara matinal”. Enfim, hoje, logo pela manhã, li um texto que me fez pensar sobre nossa vida competitiva, e, muito além dos conceitos exíguos de capitalismo financeiro, refleti sobre a concepção equivocada que temos sobre nossas ações cotidianas. Nessa vida, temos pressão social em sermos bem sucedidos, eficientes, “gente boa”, alegres, donos do carro do ano, bem casados, ou passarmos a simples e boba percepção que temos uma vida considerada interessante. Para isso, temos que enfrentar e derrotar todos que passarem por nós, mostrando o nosso lado cruel de combatividade, ou seja, dizermos que somos melhores social, cultural ou financeiramente que os demais. Tolos somos nós ao viver assim, como touros e toureiros numa arena. Penso, nessa busca desenfreada por vitórias desmedidas, que nos perdemos nesse caminho, julgamos, batemos e, de fato, não vivemos em conjunto, em sociedade. O homem caçador-coletor, antes do Neolítico, percebeu que até 80% que precisava para sua subsistência, advinha da coleta em natureza, não da caça em si. Além disso, a atividade em grupo colaborava mais que a caça isolada. Esse modo de viver precedeu a agricultura e a pecuária e trouxe a ideia mais nobre e genuína de trabalho em grupo e coletividade. Perdemos isso com o tempo, e o altruísmo existe devido atitudes individuais e não mais da vontade social que o mundo dê certo, de maneira geral. Bloquear sua vida por um aspecto ou busca de pódio social, sem considerar o meio em que vive e as pessoas impactadas, é uma empreitada mesquinha e vergonhosa, por se dizer. Quando o homem lembrar que o conceito de humanidade é plural, melhor seremos para todos.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O dia lá fora


Sempre gostei do clima de chuva, não dela em si.  Ficar em casa e sentir o vento gélido pela janela sempre foi um ótimo motivo para escrever. As palavras sempre fluem quando se está num ambiente propício, debaixo de lençóis e com uma xícara de café na mesa. Pelo menos para mim. As luzes da noite se aproximam mais rápido quando se está nublado lá fora. Cada gota que escorre pelo vidro da janela transforma-se em um novo pensamento, melancólico (às vezes), porém lúcido e interessante. A saída do sol não pode ser encarada com tristeza ou reclamação, mas como uma nova oportunidade de viver sob as nuvens densas e cinzas. O dia fica mais parado, no entanto com muito a se dizer. Sozinho ou acompanhado, há muito que se viver na chuva. Cada poça d´água tem uma história, se assim você quiser pensar. O sol também se esconde para mostrar um novo dia. E tudo, no final das contas, é uma questão de perspectiva.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Linhas


Hoje vi uma mulher fazendo crochê no ônibus. Apesar de distante da minha realidade, sempre achei esse entrecruzar de linhas uma arte, uma quase ciência, muito cartesiana e complexa para ser aprendida. Mas ela era persistente, o calor não a interrompia, os buracos na rua não a faziam errar. Os olhos curiosos dos passageiros não tiravam a serenidade daquela senhora. Fazia voltas e mais voltas com a linha, escolhia cirurgicamente o lugar a ser furado, e a agulha, que era segurada com a leveza de um pintor que manuseia seu pincel, desenhava uma bela letra vermelha. A pessoa que faz transmite honestidade e tranquilidade. Nada de louco pode ser associado ao crochê. Quem o faz não precisa ser consultado no SPC/SERASA porque fazer um desenho num pedaço de pano é ter um alvará de franqueza. Outrora, uma atividade feita pelos mais velhos, hoje pode ser uma terapia, uma alternativa para quem não quer tocar violão ou precisa de mais discernimento. A paciência em cada traçado tira a pessoa do mundo real, aprende-se a ter foco e precisão. Havia paz naquele banco no ônibus.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Aquela velha casa


Naquela velha casa havia coisas antigas, um assoalho frio e paredes descoloridas. Havia, também, quadros na parede de pintores desconhecidos, além de uma intensa saudade presente no ar. Alguns sabiam que aquela casa existia, e bem poucos já tiveram o privilégio de conhecê-la por dentro. Abrir a antiga porta de entrada, pisar no tapete empoeirado, andar pela pequena sala com seus poucos móveis ancestrais. Havia uma pequena luz que iluminava o sofá do século passado cor de vinho e de tecido europeu. Era uma casa simples, mas que contava muito de si. As paredes eram o museu para as pequenas obras de arte que desencadeavam emoções diversas, uma quase melancolia invadia a alma ao ver aquelas pinturas. Ao fim de um estreito corredor, um quarto. Apenas um. Uma cama grande, branca e encorpada ocupava quase todo o espaço. Uma escrivaninha de madeira ocupava o seu lado, com porta-retratos, sem fotos. Dentro de uma gaveta, velhas cartas, com letras amorosas, que revelavam um passado bucólico entre duas pessoas. As letras contavam uma humilde história de amor. Quem chegava ao ponto de ver aquela velha casa, sabia que nada poderia retirar dela, tampouco os sentimentos que ali moravam, sem ninguém nela residir. As pessoas, entravam, saíam e levavam lembranças nunca vividas, porém nunca esquecidas.