segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Mudar


Quis mudar nessa semana. A caminho de casa ou do trabalho, passei a ouvir musicas que não estou habituado, que fogem do usual para mim. Podcasts ou programas que nunca escuto. Talvez, no fundo, porque sempre gostei desse sentimento discreto de mudança, de ver com outros olhos (no caso, ouvidos) diferentes formas de encarar o mundo e suas idiossincrasias. 

Além disso, creio que este ano aprendi a ser vulnerável. "Vulnerabilidade", uma bela palavra. Devia usá-la mais, ou melhor, praticá-la. Seja vulnerável para se tornar mais forte. 
Apreciar os detalhes, um farol do carro num dia de chuva, um vento forte no fim da tarde, o olhar cativante de alguém feliz prestes ao encontro. Detalhes. 
Algumas coisas você somente percebe quando se estar vulnerável. 

Mudar custa pouco e te leva longe.


terça-feira, 3 de setembro de 2019

Onde vivem os monstros



Esse filme é uma adaptação de um livro feita por Spike Jonze. Acabou se tornando uma historia indie-infantil para adultos. É uma grande metáfora dos sentimentos de uma criança e seu crescimento, amadurecimento. Quanto ao enredo, conta a historia do garoto Max que, após ser colocado de castigo pela mãe, foge de casa vestido de lobo e acaba chegando a uma ilha habitada por criaturas.

Há uma constante dúvida se o garoto fugiu de fato e encontrou esse lugar mágico ou se tudo era fruto de sua imaginação. Sendo imaginação, os monstros representavam sentimentos do garoto ou as pessoas próximas a ele? Um desses monstros, Carol, dublado magistralmente por James Gandolfini (Os Sopranos), representa bem essa dualidade entre solidão e ira, sentimentos contidos no próprio Max. De cara, Carol se torna o monstro predileto dele.

Spike Jonze trata o filme como uma fábula, quase um conto infantil. A fotografia de Lance Acord é magistral e sabe jogar bem com a luz natural do sol e as sombras da floresta. Os monstros são reais, com exceção das expressões faciais que são feitas via computação gráfica. Por fim, podemos dizer que Onde moram os monstros é um filme esquisito, diferente. Sua mensagem é relativa e pode ser interpretada por diversos ângulos. Provável que essa era a intenção do diretor. Não há moral da história, mas sim um fluxo de emoções sentidas entre aquele garoto e seus amigos monstros, no único lugar que ele se sentia bem, como um verdadeiro rei.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Sociedade dos Poetas Mortos



Sociedade dos Poetas Mortos (1990) é um clássico. Esse filme do Peter Weir, mesmo diretor de o Show de Truman, é um lindo ensinamento sobre educação e a vida no geral. Nele, vemos o professor John Keating, carinhosamente interpretado por Robin Williams (no auge da carreira), ensinando poesia e literatura numa escola tradicional e conservadora para garotos. No entanto, Keating vai além. Ele destoa dos demais professores por ensinar aos meninos sobre o livre pensamento, a terem autoconfiança e encontrarem sua própria voz.

Em certo momento, eles descobrem que o professor participava em sua juventude de algo chamado sociedade dos poetas mortos. Um grupo de meninos que se encontravam em uma caverna nos arredores da escola à noite para declamarem poemas e discutirem livremente acerca da vida, longe das rédeas morais do colégio. Assim, eles recriam essa sociedade e fazem seus encontros.  Cada um, a sua maneira, acaba por descobrir suas próprias vontades, como, declarar-se a uma garota, desafiar a vontade dos pais ou até entrar para uma peça de teatro.

O filme é cheio de citações de autores famosos, o que serve de enredo para a descoberta das vozes desses estudantes. Para Keating, longe das amarras familiares, a escola deveria ser o local para que os garotos pudessem encontrar suas vontades e se descobrirem como pessoas que possuem pensamentos próprios. Isso torna esse filme atemporal e magnífico. Ao ensinar sobre o poder dos sentimentos das palavras e de como devemos aproveitar nosso dia, o professor acaba por definir bem o sentido da frase mais famosa desse filme e que deveria guiar a maioria das pessoas: Carpe Diem.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Agentes do Destino



Será que existe destino ou somos manipulados sem que percebamos? Agentes do Destino (2011) conta a história do candidato a Senador David Norris (Matt Damon) que, após perder a eleição, conhece por acaso, num banheiro, a bailarina Elise (Emily Blunt). A espontaneidade dela o inspira a fazer um belo discurso que acaba salvando sua carreira política. Naquele instante eles se apaixonam. No entanto, em outro núcleo da trama, vemos agentes planejando para que um deles derrame café do David para que ele perca o ônibus e, assim, não reencontre Elise, já que para esses agentes, os dois não podem ficar juntos, uma vez que isso prejudicaria o “plano”.

Entretanto, o agente Harry (Anthony Mackie) dorme e David acaba reencontrando Elise, e, logo após, o congressista acaba vendo seu amigo sendo “recalibrado”, o que faz com que ele descubra que existem agentes do destino, que manipulam e fazem com que as pessoas sigam suas vidas de acordo com um certo plano, escrito por quem eles chamam de “Presidente”. Os agentes justificam sua atuação dizendo que quando eles se afastaram e deixaram os homens livres para controlarem seu destino, a humanidade viveu seus piores momentos, como na Idade Média ou durante as guerras mundiais. Ainda diz que se David ficar com Elise os sonhos dos dois nunca se realização. Apesar dos avisos e preocupações, David começa a corrida para manter Elise em sua vida e assim salvar seu amor, mesmo que ele tenha que enfrentar esses agentes.

Esse longa do George Nolfi traz o questionamento se há outras pessoas – ou "divindades" – que controlam nosso destino, dando a impressão que temos poder sobre nossa própria trajetória de vida, mas que, na realidade, não temos. Será que nosso destino já está escrito ou podemos modificá-lo? Qual o poder do acaso? É um filme que, intercalado a cenas de ação e romance, coloca-nos essa reflexão, e, por isso, vale muito a pena.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

Objetos esquecidos


Quando deixamos de usar certos objetos? Quando não há mais utilidade ou simplesmente quando não os queremos mais? Talvez os dois. Uma calça jeans, uma camisa listrada, uma pulseira ou um livro comprado e nunca lido, esquecido entre garrafas de vinho na estante empoeirada. A matéria também tem vida em sua utilidade.

Há espaço para tudo quando sabe-se priorizar. Escolher o tempo certo é mais importante do que o objeto correto. A intangibilidade produzida por um presente recebido (ou doado) não tem preço e, enquanto tiver valor, não há descartabilidade. Não há desprezo pela velha bola de tenis enquanto ainda se quer jogá-la na parede. Não se joga fora uma garrafa enquanto ainda te faz lembrar da noite que a abriu e bebeu com alguém especial.

O sentido existe porque você o cria, nomeia-o e o guarda em seu coração. Uma vez ouvi que se te faz sentir, então faz sentido. Logo, se você abraça o significado, então nunca irá perder seu real valor. Há mais memória na vida do que se imagina.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Meia Noite em Paris



Meia Noite em Paris é uma obra prima do Woody Allen, que escreve e dirige o filme. No longa, acompanhamos a viagem que Gil Pender (Owen Wilson), roteirista de Hollywood, com sua noiva Inez (Rachel McAdams) a Paris. Ele faz vários passeios noturnos e, a meia-noite, ele é transportado para Paris dos anos 20, melhor época para ele. Gil é nostálgico e sempre quis viver nessa época. Nessas viagens, ele conhece seus ídolos, como escritores e pintores. A partir daí ele passa a questionar as escolhas pessoais e profissionais de sua vida.

Ele percebe, por exemplo, que sua noiva é totalmente diferente dele, que possuem gostos diversos e que ela, por vezes, não respeita suas escolhas. Percebe, também, que poderia ter se tornado um escritor de romances, sonho que sempre possuiu, mas nunca realizou. Na década de 20, ele conhece e se apaixona por Adriana (Marion Cotillard), que namorava Pablo Picasso à época. Juntos eles viajam para La Belle Epoque da França - final do séc. XIX - percebendo ali que a “melhor época” para se viver sempre será diferente para cada pessoa e que no fundo nunca valorizamos nosso presente.

Woody Allen ganhou o Oscar de melhor roteiro original com esse filme. Creio que, além da bela fotografia que acompanha toda sua cinematografia, esse filme funciona bem como um alívio dramático para o tema da nostalgia. Afinal, quem nunca quis viver na época de seus ídolos ou quis ter nascido em outro período? Ou ainda, quem nunca quis ter outra carreira profissional ou ter feito outras escolhas na vida pessoal? Tanto pelo drama como pelo enredo, Meia Noite em Paris funciona bem como se fosse um romance em formato de filme.  

segunda-feira, 1 de julho de 2019

50/50



50/50 é um bom filme do cinema indie americano. Quase esquecido pelo público geral uma vez que foi lançado apenas nas locadoras, ele rende boas risadas e também emociona. Escrito por Will Reise, conta a sua história de como enfrentou o câncer. Nesse longa, vemos Adam (Joseph Gordon-Levitt), rapaz de 27 anos que descobre que possui um câncer na coluna e tem 50% de chances de sobreviver. Vemos o enfrentamento da doença ao lado de seu amigo Kyle (Seth Rogen), da namorada Rachel (Bryce Dallas Howard) e sua família.

O tema do câncer é tratado de forma delicada, sensível e realista. Por exemplo, assim como mostra os efeitos das sessões de quimioterapia, por outro lado vemos os laços de amizades e amor entre os personagens. Exceto em relação a Rachel, já que ela demonstra seu desconforto ao estar ao lado de Adam, indicando um provável fim de relacionamento. Kyle, por sua vez, funciona bem como alívio cômico e traz leveza e alegria para o enredo. Ademais, destaco o papel da Anna Kendrick como a psicóloga iniciante de Adam, numa atuação doce e alegre. Por fim, a relação de Adam e sua mãe é um dos pontos altos do filme e que merece atenção ao assisti-lo.

50/50 é um filme que, muito além de retratar sobre uma doença, expõe bem seus efeitos na família e amigos. Joseph Gordon-levitt mostra como sabe fazer drama, deixando de lado seu papeis como coadjuvante e trazendo realismo como protagonista. Ah, a cena dele raspando a cabeça é boa e divertida, assim como ele com os pais antes de ir fazer a cirurgia. Logo, seja para rir ou chorar, esse filme funciona muito bem.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Jerry Maguire



Em Jerry Maguire – A grande virada (1996), vemos a história de um agente esportivo (Tom Cruise) em busca de sucesso, mas o filme vai muito além disso. Jerry é um personagem arrogante e ganancioso, inclusive o filme começa com seu nome dentro da imagem do planeta terra, o que representa bem seu ego. No entanto, após visitar um cliente machucado no hospital ele percebe sua frieza para com os outros e como a indústria do esporte desumaniza os atletas, assim, visando mudar isso, ele cria uma espécie de manual para que a empresa trate melhor seus clientes. A idéia não dá certo e ele é demitido, conseguindo salvar apenas um cliente ao seu lado, o jogador de futebol americano Rod (Cuba Gooding Jr.) e a doce secretária Dorothy (Renée Zellweger).

Após a demissão ele vai em busca de criar sua própria empresa de agenciamento - mesmo tendo apenas um cliente - e mudar seu estilo de vida. De um agente frenético por dinheiro para um personagem que fica feliz em cantar música dentro do carro. O filme muda seu jeito de filmar, retira cortes rápidos e, aos poucos, sai da figura do Jerry para suas relações tanto com Rod quanto com Dorothy e sua família. O foco não é mais o mundo esportivo e sim a grande virada na vida do protagonista em se tornar uma pessoa melhor.

Os filmes do Cameron Crowe sempre têm uma temática: o ser humano e sua relações. Jerry Maguire tornou-se um clássico desse diretor. Não trata apenas da competitividade das empresas esportivas, mas da evolução de um personagem e em como podemos mudar nossa vida e sermos pessoas íntegras e empáticas com as pessoas e suas nuances.

terça-feira, 28 de maio de 2019

A vida secreta de Walter Mitty



Remake de O homem de 8 vidas (1947), A vida secreta de Walter Mitty (2013) trata sobre mudança de vida e como sair da inércia e começar a agir e a viver. Ben Stiller tem uma direção memorável e mostra ser um bom diretor motivacional nesse longa-metragem.

Stiller faz o papel de Walter Mitty, homem pacato e funcionário da lendária revista LIFE. Ele revela negativos para as publicações da capa da revista. Um dia, o fotógrafo selvagem interpretado por Sean Penn envia os últimos negativos - já que a revista impressa será fechada dando lugar a online - porém falta o negativo número 25, justamente a foto que será a capa final da revista.

Assim, Mitty, motivado a encontrar esse negativo, sai em busca de Sean, indo em uma aventura que passa pela Groelândia, Islândia e nas montanhas do Afeganistão. O filme intercala momentos de devaneios e fantasia do protagonista com a real corrida dele em busca da fotografia perdida. O longa ganha ao utilizar cenários reais, como as cenas na Islândia, o que dá ao filme uma ótima fotografia e edição de imagens.

Walter Mitty representa bem aqueles momentos em que nos perdemos em sonhos acordados ou idealizamos muito em como seria nossa vida se fossemos de outro jeito, seguros, aventureiros, reconhecidos no trabalho e com o amor de nossas vidas ao nosso lado. No entanto, o filme deixa claro que Mitty não era só um homem desinteressante e sem qualidades, ao contrário, ele tinha objetivos. Por exemplo, quando reencontra uma mochila antiga de camping quando sonhava em viajar a Europa, ou quando ele mostra que sabe andar bem de longboard. Coisas que foram esquecidas por ele próprio e sufocadas pela rotina do cotidiano.

Por fim, o filme diverte e motiva. Contribui com aqueles que sempre quiseram fazer algo a mais ou que se veem estagnados na vida. É um filme que surgiu sem grandes pretensões, mas que fica guardado com carinho por aqueles que se identificaram com o enredo e com o lema da revista LIFE: “Ver o mundo e seus perigos. Ver por trás dos muros. Chegar mais perto. Encontrar o outro e sentir. Esse é o propósito da vida.”

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Hora de voltar



Hora de voltar (Garden State, 2004) é um drama cômico realista e independente escrito, dirigido e estrelado por Zach Braff, mais conhecido pela série Scrubs. No filme, Andrew Largeman (Braff) é um ator e garçom sem muitas emoções na vida e entediado que mora sozinho há muitos anos em Los Angeles. Ele tem que retornar à sua cidade pois sua mãe faleceu. Ele não quer voltar e encarar seu passado já que desde criança toma remédios psiquiátricos receitados por seu próprio pai e sente-se culpado por ter derrubado sua mãe, que ficou paraplégica.

Ao retornar, ele reencontra antigos amigos e conhece uma nova garota, a alegre e engenhosa Sam (Natalie Portman). A partir daí, ele visita lugares junto à Sam e seu amigo Mark (Peter Sarsgaard). O filme é sensível e funciona como uma viagem no tempo, principalmente para aqueles que saíram de casa e agora retornam, cheios de lembranças e nostalgias.

Andrew, aos poucos, aprende a enfrentar seus medos e, com a ajuda dos amigos, percebe que pode novamente aprender a ser alguém livre de vícios e até a encontrar um novo amor. Deixa de estar entorpecido para ser alguém com sonhos e que busca um futuro diferente, longe de seus traumas. O filme mostra que às vezes para se viver melhor é importante voltar para aprender a perdoar e, assim, recomeçar.

Por fim (e não menos importante), o filme tem uma ótima trilha sonora!

terça-feira, 30 de abril de 2019

Alta fidelidade


"O que veio primeiro, a música ou a tristeza? Eu ouço música pop porque sou infeliz? Ou sou infeliz porque ouço música pop?" É assim que inicia o filme Alta fidelidade, baseado no livro homônimo de Nick  Hornby. Esse é um dos questionamentos que o inseguro Rob Gordon tem durante o filme.

Rob (John Cusack) tem 35 anos e é dono de uma loja de discos em um bairro sem muitos clientes. Ele tem como únicos amigos seus dois curiosos funcionários, Barry e Dick. Após sua namorada Laura terminar o namoro e sair de casa, Rob conclui que há algo de errado com ele e, para tentar entender sua vida amorosa, elenca os cincos piores términos de relacionamentos que teve na vida: Alison, Penny, Jackie, Sarah e Charlie. Por orgulho - e certo rancor - ele não coloca na lista a Laura, seu término mais recente, apesar de percebermos que ele ama ela. Falando em listas, o filme é cheio delas, o que deixa a narrativa leve e dinâmica. Ele e seus amigos constantemente fazem listas como "Top Five músicas sobre a morte" ou "cinco melhores discos de todos os tempos". Tudo sempre relacionado à música, é claro.

O filme usa bem a técnica de break the fourth wall (quebra da quarta parede), pois o Rob fala diretamente com o público, contando seus pensamentos e inseguranças para a gente que está assistindo ao filme. Lembrando que essa técnica é bastante usada em "Curtindo a vida adoidado" (1986), "Clube da luta" (1999), "O senhor das armas" (2005) e na série "House of Cards" (2013), o que nos deixa presos ao roteiro e sabendo exatamente o que ele pensa sobre certa cena.

Então, ele visita suas ex-namoradas para entender o que fez de errado para merecer ser rejeitado em todos os seus casos anteriores, buscando um sentido para sua vida, ao mesmo tempo em que conhece uma charmosa cantora e inicia um relacionamento novo. A partir desse ponto, só assistindo para evitar spoiler (rs).

O filme é repleto de referencia pop e é bem fiel ao livro, que aproveito e indico também, até por que ao ler o livro você consegue descobrir várias bandas e músicas que os personagens citam em suas listas. Assim, quem gosta de música, lembra das locadoras (aqui, no caso, loja de discos) e tem muitas dúvidas em seus relacionamentos, esse filme vai cair como uma luva. Além de ser divertido é, apesar de ser de 2000, a cara dos anos 90.

Let´s get it on!

quarta-feira, 24 de abril de 2019

O Estado das Coisas



O Estado das Coisas (Brad´s status), de 2017, escrito e dirigido pelo Mike White, diretor de “Escola do Rock” e “Nacho libre”, é um daqueles filmes simples, de baixo orçamento, que devemos reconhecer como importantes para refletirmos sobre a vida. Brad, interpretado pelo Ben Stiller (em sua melhor interpretação dramática), vive um homem perto dos 50 anos, com uma vida comum, casa, esposa e filho, este prestes a entrar numa faculdade. De repente, ele se vê numa crise pessoal, questionando as escolhas que fez na vida e se comparando com antigos amigos da faculdade, que se tornaram ricos e bem sucedidos. Então, ele parte para Boston para acompanhar a entrevista do filho em uma universidade.

Brad é melancólico, algo perceptível em alguém que está frustrado e insatisfeito com a própria vida. Antes e durante a viagem ele se perde em seus pensamentos, pensando em como seria a vida se fosse solteiro ou se tivesse seguido outra carreira profissional, por vezes, até devaneia trocando de vida com o próprio filho, que aparentemente terá uma carreira e experiência universitária melhor que a dele. A crise de meia idade de Brad o consome, mas é bem comum e ganha força nos tempos atuais, em que vivemos sob a égide das redes sociais, onde podemos publicar - e muitas vezes comparar - nossas vidas com a de amigos ou familiares, infelizmente.

Entretanto, vemos o amor dele pelo filho, e, apesar das comparações feitas, ele percebe, aos poucos, a importância dele na vida de sua própria família e como ele conseguiu criar um “ser humano maravilhoso”. O filme é realista e sensível, tocando em temas atuais, como o fato de vivermos pressionados para sermos perfeitos, termos uma bela carreira profissional e uma vida social glamurosa, ou ao menos aparentar isso para o mundo.

Em “O Estado das Coisas”, vemos muito além da relação entre pai e filho, aprendemos, também, a valorizar o que construímos e em nunca perder o interesse pela vida, seja qual for o caminho traçado, pois, como deduz o protagonista, nós ainda podemos amar o mundo sem ter que possuí-lo.

terça-feira, 16 de abril de 2019

After life



A nova série After Life, da Netflix, escrita e dirigida por Ricky Gervais, traz uma perspectiva realista e esperançosa acerca da depressão. Após a morte de sua mulher, por um câncer de mama, Tony (Gervais) fica deprimido e amargurado, além de desenvolver pensamentos suicidas. Ele passa a tratar a todos da maneira que lhe convém, mesmo que isso signifique falar mal de idosas na rua ou ameaçar uma criança de 10 anos com um martelo, tudo com muito sarcasmo e ironia – nessas horas lembramos do humor que o consagrou como David Brent, em “The Office”. Sua vida se resume em uma rotina melancólica e trocas de ofensas com pessoas aleatórias, atitudes bem diferentes de sua personalidade alegre e divertida de outrora, quando tinha a companhia de sua esposa.

A série mostra um lado bem comum da depressão, mostrando a insatisfação e tristeza de alguém que acaba de perder o amor de sua vida. No entanto, a série deixa claro que, apesar da vontade de se matar, ele não o fez. Com o pretexto de cuidar da cadela Brandy, vemos que o Tony, no fundo, não desistiu da própria vida. Os planos de filmagem da série, que sempre é filmada durante o dia - normalmente ensolarado e em belos lugares, como parques e praia – corroboram com essa visão otimista, deixando a entender que há esperança para ele, o que contrasta com o humor deprimido do personagem que sempre veste cores escuras.

Com o tempo e as interações com os outros ao seu redor, ele percebe que há coisas boas para celebrar e visualiza que tem pessoas que querem seu bem. A trilha sonora vai mudando à medida que ele vai percebendo a importância dos momentos comuns em sua vida, como aproveitar a companhia dos colegas de trabalho, as novas amizades no bairro e até a possível descoberta de um (novo) amor.

Coisas boas acontecem com pessoas ruins, e coisas ruins acontecem com pessoas boas. É a vida. Ponto.” Diz uma personagem. Isso resume bem como devemos enfrentar as mais diversas circunstancias na vida e como devemos aprender a ver o quanto nós contribuímos para o nosso pequeno pedaço de mundo. Assim é After Life.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Cronista


Quem conta ou escreve histórias consegue viver de maneira única. Um livro, uma revista, um blog são painéis, pequenos retratos. O cronista é aquele que passa e percebe as redondezas comuns da vida com detalhes intrigantes e sinceros. É aquele que atravessa uma rua percebendo o bueiro destampado, os copos quebrados na esquina, uma flor esquecida na janela de uma casa amarela. É aquele que interpreta casos, que vê gente por trás de cada pequeno gesto, frustração nas pontas de cigarros na sarjeta e resquícios de uma paixão repentina nas marcas de batom em lenços de papel. É aquele que admira as árvores que tornam aquela estreita rua mais bela, que ouve a conversa durante um jogo de dominó na praça de um sábado qualquer. É aquele que agradece pelo meio sorriso que conseguiu tirar de uma linda garota. Quem escreve sempre vê o cotidiano com um olhar inédito. O escritor é aquele que pega uma carta amassada na calçada e entrega ao destinatário torcendo apenas para que seu dia seja mais feliz.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Negligência


Ele tragou o último cigarro da gaveta. Fazia um tempo que lia e relia seus autores prediletos. Arrumava papéis na mesa, deixava a caneta onde pudesse pegá-la facilmente. Mais perto que isso, só o copo e o cinzeiro. Lembrava que tinha que arrumar a casa, lavar as roupas e guardar os pratos. No entanto, ficava sentado, lendo rascunhos antigos e ignorando as trivialidades domésticas ao seu redor. “Dessa vez será diferente”, pensou ele antes de se encostar na cadeira. O teto do apartamento nunca pareceu tão distante e seus pés tão frios. “Duvido que o Bukowski usava meias”, pensou. Então deitou no sofá.  Um dedo do vinho do fundo da geladeira foi o bastante para ele ter o sono dos (in)justos. A luz que viu não foi a do fim do túnel, mas a do seu notebook, esquecido no canto. Os livros na mesa continuaram o encarando e a solidão foi sua única companhia naquela noite.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Iluminação


Sempre vi a metáfora da vida sendo uma espécie de livro com certa desconfiança, apesar de gostar de me perder em linhas alheias e bem escritas. Entretanto, vejo agora, sem motivo aparente, que essa foi e ainda é a melhor comparação com nossa trajetória nesse planeta, onde as pessoas sonham e vivem.
Quando paramos para “pensar na vida”, se perceber, toca uma música no fundo de seu consciente, baixa, melódica, por vezes triste. Acho que a reflexão, por si, traz isso. Outros se imaginam na praia ou no alto de uma montanha, sentindo a leveza e frescor da brisa marítima ou bucólica que chega e sussurra no ouvido. 
A pessoa fecha os olhos e se imagina em outros lugares, vidas, ou criando raízes, mas, naquele momento, ela foge com seus devaneios e crenças. Nesses pequenos e singelos momentos é que a credito que somos nós mesmos. Estamos ali, sentados no ônibus, no trabalho ou na mesa do bar, perdidos e escrevendo nossa história.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Felicidade qualquer


Naquele dia ele estava estranhamente feliz. Não sabia de onde vinha aquele sentimento tão simples e cada vez mais raro em seus dias. Costumava achar que tudo na vida era uma obrigação, que tudo era rotina. Naquele dia isso não aconteceu. Estava com o pensamento longe, olhava para o céu e uma música calma, quase um mantra, tocava em seus ouvidos. Ele estava leve, calmo. Sentia que podia se conectar às estrelas, que fazia parte de algo maior. Não era religião, tampouco drogas. Era o esplendor de sua mente, alcançando o auge de sua força e clareza. Não tinha medo, não tinha dúvida. E antes que tudo acabasse, ele resolveu escrever num papel aquele sentimento, para que nunca mais pudesse esquecer como era. Depois ele se deitou e foi dormir com a esperança que seus sonhos fossem tão bons quanto sua realidade.

terça-feira, 5 de julho de 2016

(des)construção


Há momentos em que devemos nos (des)construirmos. Livrarmo-nos das amarras bobas e cegas que teimam em não deixar nossa mente livre. Construções psicológicas, feitas ao longo de nossa curta vida, não são contratos que assumimos com nosso destino, ao menos, não deveria ser assim. “Vivemos tempos líquidos”, como diz Bauman. Diante dos mais diversos arquétipos que são impostos social, econômico e culturalmente para nós todos, mais do que apenas aceitar, certo seria construirmos nosso próprio modelo pessoal, que, em tese, deveria ser flexível e adaptável; assim penso. Curiosamente somos massacrados por ideias majoritariamente infundadas e fechadas, mesmo que com aparência de modernas e abertas. Aos poucos somos manipulados e encarcerados em um mundo onde o desamparo afetivo torna-se corriqueiro. Pelo que se vê, o pensamento livre arrebatador não existe, e não estamos vendo isso. Triste quando os devaneios tornam-se mesquinhos e aceitam ser do tamanho do nosso pequeno mundo. 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Vida, desmedida


Tenho o costume antigo de acordar cedo, não por que alguém fazia barulho na cozinha ou o galo cantava no quintal, mas, sobretudo, devido nunca suportar a ideia, mesmo que sem perceber, de que o dia estava lá fora e eu nada faria a respeito. Prefiro o frio do amanhecer e do café quente na mesa a ter que me esgueirar pela madrugada, moribundo de sono. Trabalhar, ler um bom texto e planejar atividades sempre foram tarefas melhor executadas no início do dia. Apesar de adorar a noite, considero-me um “cara matinal”. Enfim, hoje, logo pela manhã, li um texto que me fez pensar sobre nossa vida competitiva, e, muito além dos conceitos exíguos de capitalismo financeiro, refleti sobre a concepção equivocada que temos sobre nossas ações cotidianas. Nessa vida, temos pressão social em sermos bem sucedidos, eficientes, “gente boa”, alegres, donos do carro do ano, bem casados, ou passarmos a simples e boba percepção que temos uma vida considerada interessante. Para isso, temos que enfrentar e derrotar todos que passarem por nós, mostrando o nosso lado cruel de combatividade, ou seja, dizermos que somos melhores social, cultural ou financeiramente que os demais. Tolos somos nós ao viver assim, como touros e toureiros numa arena. Penso, nessa busca desenfreada por vitórias desmedidas, que nos perdemos nesse caminho, julgamos, batemos e, de fato, não vivemos em conjunto, em sociedade. O homem caçador-coletor, antes do Neolítico, percebeu que até 80% que precisava para sua subsistência, advinha da coleta em natureza, não da caça em si. Além disso, a atividade em grupo colaborava mais que a caça isolada. Esse modo de viver precedeu a agricultura e a pecuária e trouxe a ideia mais nobre e genuína de trabalho em grupo e coletividade. Perdemos isso com o tempo, e o altruísmo existe devido atitudes individuais e não mais da vontade social que o mundo dê certo, de maneira geral. Bloquear sua vida por um aspecto ou busca de pódio social, sem considerar o meio em que vive e as pessoas impactadas, é uma empreitada mesquinha e vergonhosa, por se dizer. Quando o homem lembrar que o conceito de humanidade é plural, melhor seremos para todos.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O dia lá fora


Sempre gostei do clima de chuva, não dela em si.  Ficar em casa e sentir o vento gélido pela janela sempre foi um ótimo motivo para escrever. As palavras sempre fluem quando se está num ambiente propício, debaixo de lençóis e com uma xícara de café na mesa. Pelo menos para mim. As luzes da noite se aproximam mais rápido quando se está nublado lá fora. Cada gota que escorre pelo vidro da janela transforma-se em um novo pensamento, melancólico (às vezes), porém lúcido e interessante. A saída do sol não pode ser encarada com tristeza ou reclamação, mas como uma nova oportunidade de viver sob as nuvens densas e cinzas. O dia fica mais parado, no entanto com muito a se dizer. Sozinho ou acompanhado, há muito que se viver na chuva. Cada poça d´água tem uma história, se assim você quiser pensar. O sol também se esconde para mostrar um novo dia. E tudo, no final das contas, é uma questão de perspectiva.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Linhas


Hoje vi uma mulher fazendo crochê no ônibus. Apesar de distante da minha realidade, sempre achei esse entrecruzar de linhas uma arte, uma quase ciência, muito cartesiana e complexa para ser aprendida. Mas ela era persistente, o calor não a interrompia, os buracos na rua não a faziam errar. Os olhos curiosos dos passageiros não tiravam a serenidade daquela senhora. Fazia voltas e mais voltas com a linha, escolhia cirurgicamente o lugar a ser furado, e a agulha, que era segurada com a leveza de um pintor que manuseia seu pincel, desenhava uma bela letra vermelha. A pessoa que faz transmite honestidade e tranquilidade. Nada de louco pode ser associado ao crochê. Quem o faz não precisa ser consultado no SPC/SERASA porque fazer um desenho num pedaço de pano é ter um alvará de franqueza. Outrora, uma atividade feita pelos mais velhos, hoje pode ser uma terapia, uma alternativa para quem não quer tocar violão ou precisa de mais discernimento. A paciência em cada traçado tira a pessoa do mundo real, aprende-se a ter foco e precisão. Havia paz naquele banco no ônibus.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Aquela velha casa


Naquela velha casa havia coisas antigas, um assoalho frio e paredes descoloridas. Havia, também, quadros na parede de pintores desconhecidos, além de uma intensa saudade presente no ar. Alguns sabiam que aquela casa existia, e bem poucos já tiveram o privilégio de conhecê-la por dentro. Abrir a antiga porta de entrada, pisar no tapete empoeirado, andar pela pequena sala com seus poucos móveis ancestrais. Havia uma pequena luz que iluminava o sofá do século passado cor de vinho e de tecido europeu. Era uma casa simples, mas que contava muito de si. As paredes eram o museu para as pequenas obras de arte que desencadeavam emoções diversas, uma quase melancolia invadia a alma ao ver aquelas pinturas. Ao fim de um estreito corredor, um quarto. Apenas um. Uma cama grande, branca e encorpada ocupava quase todo o espaço. Uma escrivaninha de madeira ocupava o seu lado, com porta-retratos, sem fotos. Dentro de uma gaveta, velhas cartas, com letras amorosas, que revelavam um passado bucólico entre duas pessoas. As letras contavam uma humilde história de amor. Quem chegava ao ponto de ver aquela velha casa, sabia que nada poderia retirar dela, tampouco os sentimentos que ali moravam, sem ninguém nela residir. As pessoas, entravam, saíam e levavam lembranças nunca vividas, porém nunca esquecidas.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Quem te controla?


A maneira como anda, trata desconhecidos, seu nível de egoísmo e até o que você compra no mercado são decisões que você não faz. Acredite. Na década de 90, o psicólogo John Bargh fez um experimento que teve repercussão e resultado intrigantes. Ele dividiu voluntários em dois grupos e pediu que formassem frases com palavras dadas por sua equipe. Mas com uma diferença: sem perceberem, algumas dessas palavras eram relacionadas à velhice (esquecido, careca, ruga, etc). Em seguida, Bargh pedia que todos os voluntários caminhassem até outra sala e cronometrava. Resultado: o grupo que leu mais palavras associadas com velhice andava mais lentamente! Repetidas vezes ele refez o teste e obteve os mesmos números. Mensagens subliminares e inconsciente. Essa era a resposta para tudo. Outro grupo de psicólogos, em 2006, experimentou associar palavras relacionadas a dinheiro durante um jogo de tabuleiro entre duas equipes de estudantes. Os que trabalharam com essas palavras se mostraram mais egoístas e competitivos que o outro grupo. Fato.
Ou seja, quando as pessoas estão submetidas a um contexto social, adquirem hábitos e atitudes sem perceber.Tomam atitudes inconscientemente motivadas por emoções e, disfarçando esse fato para elas mesmas, criam justificativas aparentemente racionais para suas escolhas. Nada de abstrato nesses e noutros experimentos. Comprovaram, de forma sólida e objetiva, que o pilar central das teorias psicológicas tradicionais realmente existe. É que gostamos de pensar que somos senhores de nossas atitudes e decisões, mas é um estranho quem conduz nossas vidas: O inconsciente, que assume várias formas sutis em nosso cotidiano, não para enquanto dormimos e "trabalha" sem percebermos.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Fuga e encontro


Se as palavras no papel acompanhassem na mesma velocidade o que pensamos, teríamos verdadeiras obras de arte, mesmo que prolixas e confusas, em sua maioria. Em meus devaneios diários não me atrevo a tentar transcrever tudo o que reflito – se é que faço isso – num espaço qualquer. Não há tempo hábil.
Bem, uma coisa é o tempo, outra, igualmente importante, é o objeto do discurso. Textos são pessoais. Ficção ou fatos vividos são obras pessoais. O leitor deve saber que aquelas palavras representam pequenos atos de egoísmo que são compartilhados para alguém. O autor é o egoísta que mais doa ao mundo, logo. Se aqueles rascunhos permanecessem “presos” em gavetas nunca abertas, de nada valeriam. O autor morreria com seu orgulho, sozinho. Doar, por sua vez, também não significa ter um destinatário específico. Escrever pode ter um sentido fechado, ou seja, o autor se contenta com o simples (longe disso) ato de escrever. Faz porque tem que escrever, não porque alguém tem que ler. Ou, como na vida, poderíamos dizer que você é o que você ama, não quem ama você. Se o leitor identificar-se com o texto, ótimo; porque escrever é fazer da fuga, um encontro.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Um lugar pra ficar


Era uma vez um cão. Ele ainda não tinha encontrado um lugar para ficar. Pra dizer que era “seu”. Perambulava pelas ruas, revirava latões e dormia sob marquises. Ele era um cão diferente, latia para si mesmo e os outros cães não o entendiam. Urinava apenas quando ninguém estava olhando. Não queria um dono. Reclamava por que Deus o tinha deixado nas ruas, ou ao menos permitido aquilo. O abandono é cruel e seco. Adorava andar na cidade, conhecia todas as galeterias e fundos de lojas e aos domingos ficava triste, mesmo sem motivo aparente. Às vezes, passava na porta de uma velha igreja, entrava e sentava bem na entrada. Não latia, um quase-acordo velado, assim, estranhamente, ninguém o expulsava. Mas logo saía.  O cão não tinha culpa de ter quatro patas, em um mundo dominado por duas pernas, era corajoso, mas não se sentia bem em alguns dias com isso. Seu amigo, um senhor grisalho com um “ar” de padeiro, dono de um antigo restaurante, dava comida a ele. Já as outras pessoas pareciam que o odiavam. Ele sempre foi um bom cão, fiel e companheiro, mas sua fidelidade era solitária. Gostava de ouvir a música que saía dos rádios dos carros quando estacionados, ouvia as promessas de amor entre casais quando dormia embaixo dos bancos das praças. Ele tinha relações simples e leves com a vida. O cão sempre lutou nas ruas para sobreviver, conseguiu resistência e uma capacidade leniente de viver naquela selva egoísta que tirava suas energias. Apesar disso, o cão era feliz e seu sonho era poder ver o mar que em seus sonhos nascia embaixo de uma falésia rochosa num dia de sol. Esse era sempre seu último pensamento antes de dormir, na rua, de novo. No outro dia, acordava e caminhava discretamente pelas ruelas para não atrapalhar as pessoas. Aquelas ruas eram o seu “playground” e seu destino.

sábado, 23 de maio de 2015

Momentos


Em Eclesiastes 3-1 diz que tudo há seu tempo e um propósito debaixo do céu, apesar de ser um não-seguidor de doutrinas, creio que falar de fé é, inevitavelmente, falar da certeza daquilo que não se vê, do que se espera. Há tempo de rir e chorar, de cantar e calar, de abraçar e de afastar-se, de guerra e de paz.

Tenho diversos objetivos, mas não busco criar expectativas absurdas quanto a eles, já que aprendi que não importa o quanto se esforce, haverá pedras no caminho que o deixará mais intrafegável, tortuoso, mas, com certeza, mais interessante. Planos e sonhos se complementam, como a técnica e o dom, como a poesia e o amor. Sempre busquei sentido em tudo, e isso me deixou sempre intrigado, congelado, quase que literalmente. Querer entender e decifrar todos os porquês da vida, mas digo, isso não leva a nada. Faz parte da inconstância do ser humano, assim como viver o melhor e ser quem você quiser ser, mesmo quando o tão sonhado objetivo pareça distante e obscuro. A fé e os desafios da vida devem conviver juntos para se equilibrarem e reforçarem o nosso clichê existencial: buscar ter uma vida feliz.

Gosto de pensar que tenho que dar chance a tudo, desde que me vi enfrentando todo tipo de situação sozinho. Dar chance a um aprendizado qualquer, a uma passagem só de ida, à despedida sem um "adeus", a uma música no silencio do quarto, à luz da lua sobre as árvores, àquela conversa que só existiu enquanto tomava banho, à festa com amigos, a um filme no frio do cinema, ou a um meio-sorriso de uma linda garota tímida. Sempre fui bom em buscar a esperança em cada pessoa.

Faço não por que preciso entender a fisiologia da situação, mas para saber como é a sensação, em arriscar-me em algo novo que não era minha intenção, e é justamente essa novidade que me faz seguir, viver. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Em algum lugar no passado


Você não vai acreditar. É a primeira vez que estamos nos vendo e não é a primeira vez. Eu, na verdade, voltei para 23 de agosto de 2013. São 20h 20min, instantes anteriores ao nosso primeiro beijo. Parece loucura, mas em 15 minutos você perguntará se eu ficarei contigo, de um jeito direto e abusado, e responderei desconcertado diante de nosso pouco contato:
- Acho que sim.
E daí o chicote da sua língua não deixará por menos:
- Acho não me serve!
Com o desafio, não me deixará opção, prenderei seus braços na parede e a beijarei longamente.
Queria dizer que vim do futuro porque não consegui consertar nosso presente - e sinto uma saudade imperdoável. Nossa vida está condenada ao ressentimento.
Não confia em mim? Pois não escolheremos nenhum preto principal da risoteria. Iremos do couvert direto à sobremesa.
Ainda não acredita? Daqui a pouco sairá para fumar, aliviada porque também fumo, você sempre quis um namorado fumante. Estará chovendo e colocará o casaco na cabeça, parecerá um elfo.  Peço a você que desapegue do passado, abandone o que já viveu.
Não está entendendo nada que estou falando, né? Bem, como adverti-la daquilo que nos afastou e não estragar a noite em que nos conhecemos? Se o medo fosse assim, doce e ingênuo, estaríamos salvos. Você não é ingênua. Você vai errar comigo e não se movimentará para consertar, envergonhada e imobilizada pelo orgulho ferido.  E perderemos o contato. Mas antes, perderemos uma gravidez, a nossa espontaneidade, perderemos nossa vontade de morar na Zona Sul, os amigos e família.  E nos perderemos para sempre. Iremos nos separar em 2015. Após um ano e sete meses. Hoje vamos transar, será inesquecível, seu corpo foi feito para se encaixar no meu, adoramos a mistura de nossos perfumes, estaremos leves, alegres e maravilhados com nossa empatia. No próximo dia não iremos nos desgrudar, trará lentamente sacola de roupas para o apartamento, até vir com as malas, após aceitar meu pedido de casamento com os olhos encolhidos de felicidade, mergulhada numa braçada de rosas colombianas.
Mas, amor, peço para nunca se afastar de mim. Em hipótese alguma. Meu tempo está acabando e te beijarei com lábios trêmulos. Vejo que não entende a gravidade de meu apelo. Pensa que é apenas uma declaração romântica. Esquecerá em meio a tanta coisa boa desta madrugada e nunca mais terei a chance para avisá-la do quanto é um crime para a eternidade não estarmos juntos. Carpinejar

quarta-feira, 18 de março de 2015

A (Não) Dicotomia


E daí, que ela fale alto no bar? Que ela divida a conta com você? E daí que ela ande com camisinha na bolsa? Que beba cerveja na garrafa e goste de futebol? E daí se ela gosta de rock? Que ela não saiba cozinhar? Que defenda o aborto? E daí se ela tenha tatuagens? E daí se ela não usa cor-de-rosa? Que não queira ter filhos? Que não chorou no final de Titanic? E daí se ela saiba dirigir melhor que você? Que ela te chame pra “tomar uma”? E daí se ela não tenha passado da página 3 do livro da cinderela? E daí se ela prefere Rubem Fonseca a Oscar Wilde? E daí se ela não faça dieta e não poste foto de comida no instagram? Problemas socioculturais de uma sociedade machista.

E daí? Ela vai te amar mesmo assim.

E daí, que ele não fale palavrão? Que não abra a porta do carro? E daí se ele não joga futebol às quartas? Que ele não saiba fazer churrasco? Que ele tenha medo de tomar choque ao trocar uma lâmpada? E daí se ele gosta de história e artes plásticas? E daí se ele sabe a diferença da água sanitária e do detergente? E daí que não tenha carro? Que ele goste de conversar no motel? Que ligue a noite sem motivo? E daí se ele não tem justificativa pra tudo? E daí se ele gosta de escrever cartas ao invés de jogar pôquer? Ou se ele viu “500 dias com ela” umas 500 vezes?

E daí? Ele vai te amar mesmo assim.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Fora do tempo


“Não deixo o tempo perdoar em meu lugar. Não darei a ele os créditos de minhas dores. Assumo minhas falhas e eu mesmo peço desculpa. Minha soberba é menor do que minha inteligência, e posso garantir que é bem menor que meu coração. Ainda que seja um coração tolo, crédulo, facilmente influenciável. Não tenho problema em perder uma briga, mas tenho todos os medos em perder um amor. Não permito o tempo resolver o que não resolvi, ajeitar o que não ajeitei, concluir o que abandonei, sugerir o que silenciei, falar por mim. Não assinarei uma procuração no cartório para que ele defina minha situação. A franqueza tem que ser paga à vista. O tempo apenas acumula juros e distorções de nosso valor. Não há sentido no tempo, a saudade torna todos os dias iguais. Sou adepto de permanecer na tempestade a dois – nenhum dilúvio é para sempre. Sou possessivo com minhas lembranças, arrumo a bagunça que criei, explico minhas crises, não transfiro ao tempo minhas responsabilidades. Não considero justo que o tempo diga se eu estava certo ou errado. Melhor errar assinando a página do que acertar anonimamente. O tempo organiza, mas não define. Esfria, mas não cura. Adia dúvidas, mas não dá certezas. O tempo finge que avançamos, mas não saímos do lugar. Diminui as ofensas, mas não resgata os elogios. O tempo é o senhor da razão, mas sempre escolho a fé. E a fé tem seu próprio tempo. O tempo de amar é agora.” Carpinejar       

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Entre nós


Eu estou aqui e permanecerei até meu corpo cansar, minha mente saturar e meu coração deixar de se perdoar. Não acredito em receitas milagrosas, tudo é muito trabalho e paciência. Há muito amor em dar-se uma nova chance, mas não me teste, meu amor. Não há distancia entre nós que não podemos unir. Sempre haverá uma ponte velha para salvar você. O “acreditar” não aceita contra-argumentações. Sempre vencerei quando meus pensamentos desistirem de sabotar minha razão, mas prefiro me perder contigo. Sem jogos, sem jogadores.

A esperança é nossa única arma e estamos em guerra. A fé e a ilusão caminham juntas, não há como evitar. Peço, não provoque minha filosofia. Prefiro dar-te o que tenho de melhor, mas que só pode ser dado, quando já foi aceito. Sem contratos, somente olhares. Pode não acreditar em mim, mas acredito em você.

Penso e escrevo como outrora. Já me perdi muito entre o teclado do computador e meus devaneios noturnos. Em noites longínquas quando só restavam as cinzas do cigarro na mesa.  Hoje, sinto-me mais próximo de você do que desta folha de papel digital em minha frente. Sabe por quê? Porque quando há fé não há distância. Quando há esperança não há dor que não passe e não há coração que não se cure.