quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Cronista


Quem conta ou escreve histórias consegue viver de maneira única. Um livro, uma revista, um blog são painéis, pequenos retratos. O cronista é aquele que passa e percebe as redondezas comuns da vida com detalhes intrigantes e sinceros. É aquele que atravessa uma rua percebendo o bueiro destampado, os copos quebrados na esquina, uma flor esquecida na janela de uma casa amarela. É aquele que interpreta casos, que vê gente por trás de cada pequeno gesto, frustração nas pontas de cigarros na sarjeta e resquícios de uma paixão repentina nas marcas de batom em lenços de papel. É aquele que admira as árvores que tornam aquela estreita rua mais bela, que ouve a conversa durante um jogo de dominó na praça de um sábado qualquer. É aquele que agradece pelo meio sorriso que conseguiu tirar de uma linda garota. Quem escreve sempre vê o cotidiano com um olhar inédito. O escritor é aquele que pega uma carta amassada na calçada e entrega ao destinatário torcendo apenas para que seu dia seja mais feliz.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Negligência


Ele tragou o último cigarro da gaveta. Fazia um tempo que lia e relia seus autores prediletos. Arrumava papéis na mesa, deixava a caneta onde pudesse pegá-la facilmente. Mais perto que isso, só o copo e o cinzeiro. Lembrava que tinha que arrumar a casa, lavar as roupas e guardar os pratos. No entanto, ficava sentado, lendo rascunhos antigos e ignorando as trivialidades domésticas ao seu redor. “Dessa vez será diferente”, pensou ele antes de se encostar na cadeira. O teto do apartamento nunca pareceu tão distante e seus pés tão frios. “Duvido que o Bukowski usava meias”, pensou. Então deitou no sofá.  Um dedo do vinho do fundo da geladeira foi o bastante para ele ter o sono dos (in)justos. A luz que viu não foi a do fim do túnel, mas a do seu notebook, esquecido no canto. Os livros na mesa continuaram o encarando e a solidão foi sua única companhia naquela noite.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Iluminação


Sempre vi a metáfora da vida sendo uma espécie de livro com certa desconfiança, apesar de gostar de me perder em linhas alheias e bem escritas. Entretanto, vejo agora, sem motivo aparente, que essa foi e ainda é a melhor comparação com nossa trajetória nesse planeta, onde as pessoas sonham e vivem.
Quando paramos para “pensar na vida”, se perceber, toca uma música no fundo de seu consciente, baixa, melódica, por vezes triste. Acho que a reflexão, por si, traz isso. Outros se imaginam na praia ou no alto de uma montanha, sentindo a leveza e frescor da brisa marítima ou bucólica que chega e sussurra no ouvido. 
A pessoa fecha os olhos e se imagina em outros lugares, vidas, ou criando raízes, mas, naquele momento, ela foge com seus devaneios e crenças. Nesses pequenos e singelos momentos é que a credito que somos nós mesmos. Estamos ali, sentados no ônibus, no trabalho ou na mesa do bar, perdidos e escrevendo nossa história.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Felicidade qualquer


Naquele dia ele estava estranhamente feliz. Não sabia de onde vinha aquele sentimento tão simples e cada vez mais raro em seus dias. Costumava achar que tudo na vida era uma obrigação, que tudo era rotina. Naquele dia isso não aconteceu. Estava com o pensamento longe, olhava para o céu e uma música calma, quase um mantra, tocava em seus ouvidos. Ele estava leve, calmo. Sentia que podia se conectar às estrelas, que fazia parte de algo maior. Não era religião, tampouco drogas. Era o esplendor de sua mente, alcançando o auge de sua força e clareza. Não tinha medo, não tinha dúvida. E antes que tudo acabasse, ele resolveu escrever num papel aquele sentimento, para que nunca mais pudesse esquecer como era. Depois ele se deitou e foi dormir com a esperança que seus sonhos fossem tão bons quanto sua realidade.

terça-feira, 5 de julho de 2016

(des)construção


Há momentos em que devemos nos (des)construirmos. Livrarmo-nos das amarras bobas e cegas que teimam em não deixar nossa mente livre. Construções psicológicas, feitas ao longo de nossa curta vida, não são contratos que assumimos com nosso destino, ao menos, não deveria ser assim. “Vivemos tempos líquidos”, como diz Bauman. Diante dos mais diversos arquétipos que são impostos social, econômico e culturalmente para nós todos, mais do que apenas aceitar, certo seria construirmos nosso próprio modelo pessoal, que, em tese, deveria ser flexível e adaptável; assim penso. Curiosamente somos massacrados por ideias majoritariamente infundadas e fechadas, mesmo que com aparência de modernas e abertas. Aos poucos somos manipulados e encarcerados em um mundo onde o desamparo afetivo torna-se corriqueiro. Pelo que se vê, o pensamento livre arrebatador não existe, e não estamos vendo isso. Triste quando os devaneios tornam-se mesquinhos e aceitam ser do tamanho do nosso pequeno mundo. 

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Vida, desmedida


Tenho o costume antigo de acordar cedo, não por que alguém fazia barulho na cozinha ou o galo cantava no quintal, mas, sobretudo, devido nunca suportar a ideia, mesmo que sem perceber, de que o dia estava lá fora e eu nada faria a respeito. Prefiro o frio do amanhecer e do café quente na mesa a ter que me esgueirar pela madrugada, moribundo de sono. Trabalhar, ler um bom texto e planejar atividades sempre foram tarefas melhor executadas no início do dia. Apesar de adorar a noite, considero-me um “cara matinal”. Enfim, hoje, logo pela manhã, li um texto que me fez pensar sobre nossa vida competitiva, e, muito além dos conceitos exíguos de capitalismo financeiro, refleti sobre a concepção equivocada que temos sobre nossas ações cotidianas. Nessa vida, temos pressão social em sermos bem sucedidos, eficientes, “gente boa”, alegres, donos do carro do ano, bem casados, ou passarmos a simples e boba percepção que temos uma vida considerada interessante. Para isso, temos que enfrentar e derrotar todos que passarem por nós, mostrando o nosso lado cruel de combatividade, ou seja, dizermos que somos melhores social, cultural ou financeiramente que os demais. Tolos somos nós ao viver assim, como touros e toureiros numa arena. Penso, nessa busca desenfreada por vitórias desmedidas, que nos perdemos nesse caminho, julgamos, batemos e, de fato, não vivemos em conjunto, em sociedade. O homem caçador-coletor, antes do Neolítico, percebeu que até 80% que precisava para sua subsistência, advinha da coleta em natureza, não da caça em si. Além disso, a atividade em grupo colaborava mais que a caça isolada. Esse modo de viver precedeu a agricultura e a pecuária e trouxe a ideia mais nobre e genuína de trabalho em grupo e coletividade. Perdemos isso com o tempo, e o altruísmo existe devido atitudes individuais e não mais da vontade social que o mundo dê certo, de maneira geral. Bloquear sua vida por um aspecto ou busca de pódio social, sem considerar o meio em que vive e as pessoas impactadas, é uma empreitada mesquinha e vergonhosa, por se dizer. Quando o homem lembrar que o conceito de humanidade é plural, melhor seremos para todos.

domingo, 17 de janeiro de 2016

O dia lá fora


Sempre gostei do clima de chuva, não dela em si.  Ficar em casa e sentir o vento gélido pela janela sempre foi um ótimo motivo para escrever. As palavras sempre fluem quando se está num ambiente propício, debaixo de lençóis e com uma xícara de café na mesa. Pelo menos para mim. As luzes da noite se aproximam mais rápido quando se está nublado lá fora. Cada gota que escorre pelo vidro da janela transforma-se em um novo pensamento, melancólico (às vezes), porém lúcido e interessante. A saída do sol não pode ser encarada com tristeza ou reclamação, mas como uma nova oportunidade de viver sob as nuvens densas e cinzas. O dia fica mais parado, no entanto com muito a se dizer. Sozinho ou acompanhado, há muito que se viver na chuva. Cada poça d´água tem uma história, se assim você quiser pensar. O sol também se esconde para mostrar um novo dia. E tudo, no final das contas, é uma questão de perspectiva.

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Linhas


Hoje vi uma mulher fazendo crochê no ônibus. Apesar de distante da minha realidade, sempre achei esse entrecruzar de linhas uma arte, uma quase ciência, muito cartesiana e complexa para ser aprendida. Mas ela era persistente, o calor não a interrompia, os buracos na rua não a faziam errar. Os olhos curiosos dos passageiros não tiravam a serenidade daquela senhora. Fazia voltas e mais voltas com a linha, escolhia cirurgicamente o lugar a ser furado, e a agulha, que era segurada com a leveza de um pintor que manuseia seu pincel, desenhava uma bela letra vermelha. A pessoa que faz transmite honestidade e tranquilidade. Nada de louco pode ser associado ao crochê. Quem o faz não precisa ser consultado no SPC/SERASA porque fazer um desenho num pedaço de pano é ter um alvará de franqueza. Outrora, uma atividade feita pelos mais velhos, hoje pode ser uma terapia, uma alternativa para quem não quer tocar violão ou precisa de mais discernimento. A paciência em cada traçado tira a pessoa do mundo real, aprende-se a ter foco e precisão. Havia paz naquele banco no ônibus.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Aquela velha casa


Naquela velha casa havia coisas antigas, um assoalho frio e paredes descoloridas. Havia, também, quadros na parede de pintores desconhecidos, além de uma intensa saudade presente no ar. Alguns sabiam que aquela casa existia, e bem poucos já tiveram o privilégio de conhecê-la por dentro. Abrir a antiga porta de entrada, pisar no tapete empoeirado, andar pela pequena sala com seus poucos móveis ancestrais. Havia uma pequena luz que iluminava o sofá do século passado cor de vinho e de tecido europeu. Era uma casa simples, mas que contava muito de si. As paredes eram o museu para as pequenas obras de arte que desencadeavam emoções diversas, uma quase melancolia invadia a alma ao ver aquelas pinturas. Ao fim de um estreito corredor, um quarto. Apenas um. Uma cama grande, branca e encorpada ocupava quase todo o espaço. Uma escrivaninha de madeira ocupava o seu lado, com porta-retratos, sem fotos. Dentro de uma gaveta, velhas cartas, com letras amorosas, que revelavam um passado bucólico entre duas pessoas. As letras contavam uma humilde história de amor. Quem chegava ao ponto de ver aquela velha casa, sabia que nada poderia retirar dela, tampouco os sentimentos que ali moravam, sem ninguém nela residir. As pessoas, entravam, saíam e levavam lembranças nunca vividas, porém nunca esquecidas.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Quem te controla?


A maneira como anda, trata desconhecidos, seu nível de egoísmo e até o que você compra no mercado são decisões que você não faz. Acredite. Na década de 90, o psicólogo John Bargh fez um experimento que teve repercussão e resultado intrigantes. Ele dividiu voluntários em dois grupos e pediu que formassem frases com palavras dadas por sua equipe. Mas com uma diferença: sem perceberem, algumas dessas palavras eram relacionadas à velhice (esquecido, careca, ruga, etc). Em seguida, Bargh pedia que todos os voluntários caminhassem até outra sala e cronometrava. Resultado: o grupo que leu mais palavras associadas com velhice andava mais lentamente! Repetidas vezes ele refez o teste e obteve os mesmos números. Mensagens subliminares e inconsciente. Essa era a resposta para tudo. Outro grupo de psicólogos, em 2006, experimentou associar palavras relacionadas a dinheiro durante um jogo de tabuleiro entre duas equipes de estudantes. Os que trabalharam com essas palavras se mostraram mais egoístas e competitivos que o outro grupo. Fato.
Ou seja, quando as pessoas estão submetidas a um contexto social, adquirem hábitos e atitudes sem perceber.Tomam atitudes inconscientemente motivadas por emoções e, disfarçando esse fato para elas mesmas, criam justificativas aparentemente racionais para suas escolhas. Nada de abstrato nesses e noutros experimentos. Comprovaram, de forma sólida e objetiva, que o pilar central das teorias psicológicas tradicionais realmente existe. É que gostamos de pensar que somos senhores de nossas atitudes e decisões, mas é um estranho quem conduz nossas vidas: O inconsciente, que assume várias formas sutis em nosso cotidiano, não para enquanto dormimos e "trabalha" sem percebermos.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Fuga e encontro


Se as palavras no papel acompanhassem na mesma velocidade o que pensamos, teríamos verdadeiras obras de arte, mesmo que prolixas e confusas, em sua maioria. Em meus devaneios diários não me atrevo a tentar transcrever tudo o que reflito – se é que faço isso – num espaço qualquer. Não há tempo hábil.
Bem, uma coisa é o tempo, outra, igualmente importante, é o objeto do discurso. Textos são pessoais. Ficção ou fatos vividos são obras pessoais. O leitor deve saber que aquelas palavras representam pequenos atos de egoísmo que são compartilhados para alguém. O autor é o egoísta que mais doa ao mundo, logo. Se aqueles rascunhos permanecessem “presos” em gavetas nunca abertas, de nada valeriam. O autor morreria com seu orgulho, sozinho. Doar, por sua vez, também não significa ter um destinatário específico. Escrever pode ter um sentido fechado, ou seja, o autor se contenta com o simples (longe disso) ato de escrever. Faz porque tem que escrever, não porque alguém tem que ler. Ou, como na vida, poderíamos dizer que você é o que você ama, não quem ama você. Se o leitor identificar-se com o texto, ótimo; porque escrever é fazer da fuga, um encontro.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Um lugar pra ficar


Era uma vez um cão. Ele ainda não tinha encontrado um lugar para ficar. Pra dizer que era “seu”. Perambulava pelas ruas, revirava latões e dormia sob marquises. Ele era um cão diferente, latia para si mesmo e os outros cães não o entendiam. Urinava apenas quando ninguém estava olhando. Não queria um dono. Reclamava por que Deus o tinha deixado nas ruas, ou ao menos permitido aquilo. O abandono é cruel e seco. Adorava andar na cidade, conhecia todas as galeterias e fundos de lojas e aos domingos ficava triste, mesmo sem motivo aparente. Às vezes, passava na porta de uma velha igreja, entrava e sentava bem na entrada. Não latia, um quase-acordo velado, assim, estranhamente, ninguém o expulsava. Mas logo saía.  O cão não tinha culpa de ter quatro patas, em um mundo dominado por duas pernas, era corajoso, mas não se sentia bem em alguns dias com isso. Seu amigo, um senhor grisalho com um “ar” de padeiro, dono de um antigo restaurante, dava comida a ele. Já as outras pessoas pareciam que o odiavam. Ele sempre foi um bom cão, fiel e companheiro, mas sua fidelidade era solitária. Gostava de ouvir a música que saía dos rádios dos carros quando estacionados, ouvia as promessas de amor entre casais quando dormia embaixo dos bancos das praças. Ele tinha relações simples e leves com a vida. O cão sempre lutou nas ruas para sobreviver, conseguiu resistência e uma capacidade leniente de viver naquela selva egoísta que tirava suas energias. Apesar disso, o cão era feliz e seu sonho era poder ver o mar que em seus sonhos nascia embaixo de uma falésia rochosa num dia de sol. Esse era sempre seu último pensamento antes de dormir, na rua, de novo. No outro dia, acordava e caminhava discretamente pelas ruelas para não atrapalhar as pessoas. Aquelas ruas eram o seu “playground” e seu destino.

sábado, 23 de maio de 2015

Momentos


Em Eclesiastes 3-1 diz que tudo há seu tempo e um propósito debaixo do céu, apesar de ser um não-seguidor de doutrinas, creio que falar de fé é, inevitavelmente, falar da certeza daquilo que não se vê, do que se espera. Há tempo de rir e chorar, de cantar e calar, de abraçar e de afastar-se, de guerra e de paz.

Tenho diversos objetivos, mas não busco criar expectativas absurdas quanto a eles, já que aprendi que não importa o quanto se esforce, haverá pedras no caminho que o deixará mais intrafegável, tortuoso, mas, com certeza, mais interessante. Planos e sonhos se complementam, como a técnica e o dom, como a poesia e o amor. Sempre busquei sentido em tudo, e isso me deixou sempre intrigado, congelado, quase que literalmente. Querer entender e decifrar todos os porquês da vida, mas digo, isso não leva a nada. Faz parte da inconstância do ser humano, assim como viver o melhor e ser quem você quiser ser, mesmo quando o tão sonhado objetivo pareça distante e obscuro. A fé e os desafios da vida devem conviver juntos para se equilibrarem e reforçarem o nosso clichê existencial: buscar ter uma vida feliz.

Gosto de pensar que tenho que dar chance a tudo, desde que me vi enfrentando todo tipo de situação sozinho. Dar chance a um aprendizado qualquer, a uma passagem só de ida, à despedida sem um "adeus", a uma música no silencio do quarto, à luz da lua sobre as árvores, àquela conversa que só existiu enquanto tomava banho, à festa com amigos, a um filme no frio do cinema, ou a um meio-sorriso de uma linda garota tímida. Sempre fui bom em buscar a esperança em cada pessoa.

Faço não por que preciso entender a fisiologia da situação, mas para saber como é a sensação, em arriscar-me em algo novo que não era minha intenção, e é justamente essa novidade que me faz seguir, viver. 

terça-feira, 14 de abril de 2015

Em algum lugar no passado


Você não vai acreditar. É a primeira vez que estamos nos vendo e não é a primeira vez. Eu, na verdade, voltei para 23 de agosto de 2013. São 20h 20min, instantes anteriores ao nosso primeiro beijo. Parece loucura, mas em 15 minutos você perguntará se eu ficarei contigo, de um jeito direto e abusado, e responderei desconcertado diante de nosso pouco contato:
- Acho que sim.
E daí o chicote da sua língua não deixará por menos:
- Acho não me serve!
Com o desafio, não me deixará opção, prenderei seus braços na parede e a beijarei longamente.
Queria dizer que vim do futuro porque não consegui consertar nosso presente - e sinto uma saudade imperdoável. Nossa vida está condenada ao ressentimento.
Não confia em mim? Pois não escolheremos nenhum preto principal da risoteria. Iremos do couvert direto à sobremesa.
Ainda não acredita? Daqui a pouco sairá para fumar, aliviada porque também fumo, você sempre quis um namorado fumante. Estará chovendo e colocará o casaco na cabeça, parecerá um elfo.  Peço a você que desapegue do passado, abandone o que já viveu.
Não está entendendo nada que estou falando, né? Bem, como adverti-la daquilo que nos afastou e não estragar a noite em que nos conhecemos? Se o medo fosse assim, doce e ingênuo, estaríamos salvos. Você não é ingênua. Você vai errar comigo e não se movimentará para consertar, envergonhada e imobilizada pelo orgulho ferido.  E perderemos o contato. Mas antes, perderemos uma gravidez, a nossa espontaneidade, perderemos nossa vontade de morar na Zona Sul, os amigos e família.  E nos perderemos para sempre. Iremos nos separar em 2015. Após um ano e sete meses. Hoje vamos transar, será inesquecível, seu corpo foi feito para se encaixar no meu, adoramos a mistura de nossos perfumes, estaremos leves, alegres e maravilhados com nossa empatia. No próximo dia não iremos nos desgrudar, trará lentamente sacola de roupas para o apartamento, até vir com as malas, após aceitar meu pedido de casamento com os olhos encolhidos de felicidade, mergulhada numa braçada de rosas colombianas.
Mas, amor, peço para nunca se afastar de mim. Em hipótese alguma. Meu tempo está acabando e te beijarei com lábios trêmulos. Vejo que não entende a gravidade de meu apelo. Pensa que é apenas uma declaração romântica. Esquecerá em meio a tanta coisa boa desta madrugada e nunca mais terei a chance para avisá-la do quanto é um crime para a eternidade não estarmos juntos. Carpinejar

quarta-feira, 18 de março de 2015

A (Não) Dicotomia


E daí, que ela fale alto no bar? Que ela divida a conta com você? E daí que ela ande com camisinha na bolsa? Que beba cerveja na garrafa e goste de futebol? E daí se ela gosta de rock? Que ela não saiba cozinhar? Que defenda o aborto? E daí se ela tenha tatuagens? E daí se ela não usa cor-de-rosa? Que não queira ter filhos? Que não chorou no final de Titanic? E daí se ela saiba dirigir melhor que você? Que ela te chame pra “tomar uma”? E daí se ela não tenha passado da página 3 do livro da cinderela? E daí se ela prefere Rubem Fonseca a Oscar Wilde? E daí se ela não faça dieta e não poste foto de comida no instagram? Problemas socioculturais de uma sociedade machista.

E daí? Ela vai te amar mesmo assim.

E daí, que ele não fale palavrão? Que não abra a porta do carro? E daí se ele não joga futebol às quartas? Que ele não saiba fazer churrasco? Que ele tenha medo de tomar choque ao trocar uma lâmpada? E daí se ele gosta de história e artes plásticas? E daí se ele sabe a diferença da água sanitária e do detergente? E daí que não tenha carro? Que ele goste de conversar no motel? Que ligue a noite sem motivo? E daí se ele não tem justificativa pra tudo? E daí se ele gosta de escrever cartas ao invés de jogar pôquer? Ou se ele viu “500 dias com ela” umas 500 vezes?

E daí? Ele vai te amar mesmo assim.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Fora do tempo


“Não deixo o tempo perdoar em meu lugar. Não darei a ele os créditos de minhas dores. Assumo minhas falhas e eu mesmo peço desculpa. Minha soberba é menor do que minha inteligência, e posso garantir que é bem menor que meu coração. Ainda que seja um coração tolo, crédulo, facilmente influenciável. Não tenho problema em perder uma briga, mas tenho todos os medos em perder um amor. Não permito o tempo resolver o que não resolvi, ajeitar o que não ajeitei, concluir o que abandonei, sugerir o que silenciei, falar por mim. Não assinarei uma procuração no cartório para que ele defina minha situação. A franqueza tem que ser paga à vista. O tempo apenas acumula juros e distorções de nosso valor. Não há sentido no tempo, a saudade torna todos os dias iguais. Sou adepto de permanecer na tempestade a dois – nenhum dilúvio é para sempre. Sou possessivo com minhas lembranças, arrumo a bagunça que criei, explico minhas crises, não transfiro ao tempo minhas responsabilidades. Não considero justo que o tempo diga se eu estava certo ou errado. Melhor errar assinando a página do que acertar anonimamente. O tempo organiza, mas não define. Esfria, mas não cura. Adia dúvidas, mas não dá certezas. O tempo finge que avançamos, mas não saímos do lugar. Diminui as ofensas, mas não resgata os elogios. O tempo é o senhor da razão, mas sempre escolho a fé. E a fé tem seu próprio tempo. O tempo de amar é agora.” Carpinejar       

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Entre nós


Eu estou aqui e permanecerei até meu corpo cansar, minha mente saturar e meu coração deixar de se perdoar. Não acredito em receitas milagrosas, tudo é muito trabalho e paciência. Há muito amor em dar-se uma nova chance, mas não me teste, meu amor. Não há distancia entre nós que não podemos unir. Sempre haverá uma ponte velha para salvar você. O “acreditar” não aceita contra-argumentações. Sempre vencerei quando meus pensamentos desistirem de sabotar minha razão, mas prefiro me perder contigo. Sem jogos, sem jogadores.

A esperança é nossa única arma e estamos em guerra. A fé e a ilusão caminham juntas, não há como evitar. Peço, não provoque minha filosofia. Prefiro dar-te o que tenho de melhor, mas que só pode ser dado, quando já foi aceito. Sem contratos, somente olhares. Pode não acreditar em mim, mas acredito em você.

Penso e escrevo como outrora. Já me perdi muito entre o teclado do computador e meus devaneios noturnos. Em noites longínquas quando só restavam as cinzas do cigarro na mesa.  Hoje, sinto-me mais próximo de você do que desta folha de papel digital em minha frente. Sabe por quê? Porque quando há fé não há distância. Quando há esperança não há dor que não passe e não há coração que não se cure.



quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

E o que resta é a vida


Ele não queria ouvir seus próprios pensamentos. No fundo, estava cansado demais para aquilo. Desejava deixar aquele sentimento para trás, mas não tinha forças para reagir diante daquela situação. Uma inquietação nova com resquícios de algo antigo. No entanto, não sabia com se render, e não desistiu. Percebeu que a maior vitória foi conquistada há anos e que a maturidade veio com o tempo. Dar uma chance é a maior atitude que ele faria. E fez. Desafios novos, remédios antigos.

Lembranças são como velhas cartas empoeiradas e esquecidas numa gaveta ou como fitas de músicas perdidas. Sabia os parágrafos das cartas e ainda lembrava as letras das músicas. Para ele, tudo eram papéis riscados e conversas ao entardecer. Mas agora não fazia diferença porque sabia que o sol sempre nasce no outro dia, com uma nova noite a chegar. Assim como uma cicatriz em uma árvore que ninguém visita, sabia que seus dias aqui seriam sempre assim: algo a lembrar, algo a esquecer.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

O ano de sua vida


2015? Bem, se for para desejar algo, então penso assim: Seja firme, mais feliz, mais ativo, mais paciente. Seja suficiente, necessário e supere a si mesmo. Enfrente seus medos e vença-os. Engula a lágrima que cairá do seu rosto em dias de solidão e vá para a luta. Mas lute por algum motivo. Tenha seus propósitos, mesmo agindo com sutileza. Corra quando tiver que correr e grite quando tudo estiver errado. Se cair, recomece. Não tenha medo de dizer o que pensa desde que faça com sensatez. Dê uma nova chance de viver bem e acredite que poderá ser o que você quiser. Revire um velho armário e veja o que já superou para estar ali, naquele momento. Conforte seu coração com as lembranças da pessoa que você ama. Mande uma mensagem quando quiser falar, ligue quando se importar e ore quando amar. Faça a sua parte e desfrute de sua escolha porque sabe que é você que esta fazendo algo. E se não souber o que fazer, volte ao princípio. Crie seus motivos e motivações e sustenta-os em uma fé. Ame. Não há amor por recompensa, há recompensas no amor.


Dedico a todos e à minha mãe. 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Polissemia fiscal


Sou de “esquerda” e apoio as intervenções governamentais na economia feitas pelo Governo nos últimos anos, mas achei inédito – pra não dizer estranho – a demanda pela diminuição da meta fiscal deste ano. A meta de resultado fiscal, que visa a obter o superávit primário (SP), não será cumprida pelo Governo. Isto é um fato. Na conta do SP, das receitas primárias subtraem-se as despesas também primarias, ou seja, recebimentos e gastos não financeiros. No momento, o Governo quer alterar o cálculo do superávit (indicador de cumprimento fiscal na LRF) via um projeto de lei que altera a LDO para retirar do cálculo despesas com o PAC e desonerações fiscais, assim cumpriria a meta que ficaria em 10 bilhões (hoje a meta é de 81 bilhões). Apenas lembrando que a finalidade desta “sobra” é pagar os juros da dívida do país.

Bem, o problema é que as despesas que serão retiradas e baixarão a meta são despesas PRIMÁRIAS, obras e tributos, assim, devem constar do cálculo. Com isso, o país revela, ao baixar a base de cálculo, que não tem condições (ou comprometimento) em pagar os juros da dívida, tampouco amortizar o principal dela. Países estrangeiros, observantes, tenderão a aumentar os juros de suas transações com o país (pois o risco é maior) e, em provável escala, diminuirão seus investimentos nos títulos públicos brasileiros. De qualquer maneira, o Governo deverá rever medidas de contenção de custos e em outros gastos como no seguro-desemprego e pensões, por exemplo.

Bem, essa é minha visão ampla, no entanto, vejo que pagar dívida pública e juros nunca foi (e nem deveria ser) a maior prioridade no país. Você na sua casa odeia ter que pagar juros do cartão, né? ...mas isso é inerente do sistema financeiro e nunca impediu de você realizar sua compra – às vezes recorrendo a uma operação de crédito (empréstimo) – para aumentar os bens de sua casa. Há dívidas, mas há aumento do seu “PIB” domiciliar.

O Brasil, nos últimos anos, mostrou-se bom pagador e local benfazejo para investimentos. O PIB cresceu na década presente e a economia não “baixou a guarda” frente a uma crise européia. Para mim, retirar certos gastos para assegurar o cumprimento do plano de governo e, com isso, os projetos sociais, é uma atitude coerente e corajosa, apesar de ser desrespeitosa para com as normas da LRF. Aguardaremos as medidas. 

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

O homem duplicado



“O caos é uma ordem ainda não compreendida”. Essa frase “explica” bem o filme “O homem duplicado” (2014), de Denis Villeneuve. As aspas foram necessárias já que uma explicação é algo que você, com certeza, não terá ao assistir essa pérola do cinema. Baseado num livro homônimo de José Saramago, o filme trata das inquietações e dúvidas sofridas pelo personagem principal - vivido por Jake Gyllenhaal - ao descobrir que tem alguém igual a ele. Um é professor de história e, o outro, um ator coadjuvante de cinema. Qualquer clichê é descartado na historia, já que ela é permeada de devaneios, sonhos e um laço intrigante que une cada vez mais os personagens.

Com um enredo repleto de metáforas e elementos da psicanálise, o telespectador perde-se ao tentar seguir uma linha de pensamento e tudo é (des)construído com o desenrolar da história. Bem, e se você achasse - ou descobrisse - que poderia ter outra vida? ou usar roupas diferentes sem se achar “descolado” ou antiquado demais? Ou recriar um relacionamento amoroso livre de erros?

O cotidiano enclausura-nos num clima claustrofóbico e rotineiro, onde perdemos a esperança e ganhamos apatia com o tempo. O filme trata do questionamento da possibilidade que é trocar de vida (ou destino para muitos), e que isso não quer dizer necessariamente com outra pessoa, mas sim consigo mesmo. Quantos de "você" poderiam ser encontrados nas ruas quando desiste de sonhos ou foge de seus objetivos?

Fazer algo diferente não é ser outra pessoa, mas achar outra parte escondida de você. Aprender algo novo ou agir de maneira diferente é buscar qualidade de vida. É você se encontrar com outra versão sua e, muitas vezes, mais congruente com o que você sempre quis ser.

Em “O homem duplicado” não queira respostas. Espere questionamentos.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Não diga que já vai


Nunca venha me dizendo que já vai. Por favor, não me deixe sentir saudades. Não bata na porta dando um adeus ao entrar. Não faça movimentos bruscos com seu sorriso porque isso é baixaria no meu coração. Faça e desfaça tudo e diga que não vai dar, mas nunca, nunca mesmo comece um desenho já pedindo uma borracha. Na vida, tudo é feito à caneta. No máximo se pula um parágrafo ou se vira a página.

Não procure entender o fácil. O óbvio é enigmático quando se olha de perto. Suplique aos céus, caia de joelhos e não minta para si mesmo. Não peça para gritar “gol” ouvindo o rádio. A “geral” gritará mais forte. Pegue o ônibus quando não tiver dúvidas. Pegue o carro e atravesse a cidade quando quiser ter certeza. Não dê sobrando e espere o troco. O que sobra nunca é resto. Chore sozinho, porque a esperança é cinza, quem sabe? Comece e termine.

Ame e esqueça, às vezes; mas nunca, nunca mesmo, venha me dizendo que já vai.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

...mais um devaneio eleitoral


Comparando os dois planos de governo e estritamente o aspecto econômico, que é o que mais pesa numa administração pública e reflete-se em toda a sociedade, vemos duas vertentes opostas, mas não comparáveis. Não podemos fechar-nos em uma visão geral, temos que analisar o contexto e a própria fisiologia do país em que vivemos.

Historicamente, o Brasil tendeu (até porque nada é perfeito) a ser um Estado Social, natureza dada pela CF/88, vertente não vislumbrada, ou meramente descartada, na pretensa ação econômica do partido tucano. Esse afirma que o que país tem feito é errado, isso porque é comparado com a ótica Neoliberal. A economia não é uma ciência exata, deve-se ter uma ponderação com o modelo de Estado adotado. Bem, o fato do PSDB ter dado as diretrizes do Bolsa Família, isso não o torna o desenvolvedor de uma política social. A visão econômica do atual governo não é igual ao PSDB, é muito mais ampla que isso.

A política esquerdista deu ênfase à universalização de serviços públicos essenciais e sociais, principalmente depois do lançamento do Brasil Sem Miséria cujos pilares são política de transferência, ampliação do acesso a serviços e inclusão produtiva. É certo que pode não ser a mais progressista, mas levemos em conta que o déficit social do país é centenário. Méritos também à política keynesiana que atuou firme durante a crise mundial, com o país gastando e investindo, em vez de entrar em recessão e arrocho junto com os temerários países europeus. Além disso, o Bolsa Família é sim compatível com um estado neoliberal, mas um estado SOCIAL está longe de compatibilizar-se com uma filosofia neoliberal.

Eu não acredito nesse modelo de Estado Mínimo para o desenvolvimento socioeconômico de um país tão desigual como o Brasil. Exemplo é que o candidato PSDBista propõe concessão de crédito fácil a médico para construção de seus consultórios, isso é PRIVATIZAÇÃO da Saúde! A historia também nos mostra que não foi com medidas neoliberais que países se desenvolveram de forma igualitária. Vamos olhar para a sociedade e ver o quanto um país pode crescer com a política e gestão adequadas às suas finalidades.

Não sou de Partido algum. Sou do Nordeste sim, tenho afinidades com a esquerda e uma linha de pensamento que é fruto do que eu analiso da política do país, humildemente.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Amor


Este é o texto mais difícil que já escrevi. A pessoa mais importante da minha vida partiu de maneira abrupta e vira mais uma estatística nessa guerra que chamamos de trânsito. Somente após a missa de sétimo dia arrisco a rascunhar algo, sabendo que nenhuma palavra aqui resumiria metade do sentimento que minha alma clama e de tudo que aprendi com ela.

A morte não espera um último beijo, uma última palavra de carinho ou um conselho. Ao contrário, a morte deixa as roupas no varal, a comida no fogão e não espera você pagar as contas do mês. A morte é mais triste para quem fica, para quem tem que suportar a ausência mesmo que insuportável. Quem tem que dizer adeus sozinho na esperança de ser ouvido e que encontra aconchego nos lençóis da cama ainda desarrumada.

Sempre me lembrarei do seu carinho em minha cabeça, do café logo cedo da manhã, das idas e vindas do colégio segurando sua mão, dos biscoitos escondidos estrategicamente embaixo da pia da cozinha, das broncas pela minha bagunça, do espelho na porta da sala, pelos conselhos simples e diretos, das noites em que me socorria quando adoecia e quando dormiu no corredor de um hospital quando eu estava numa maca, sentirei saudades dos beijos na minha testa em meu aniversário, da voz alegre ao telefone, da sua humildade, da sua coragem em viver e, principalmente, de sua tão admirada e evidente Fé.

Com você aprendi a ter um sorriso fácil, mesmo quando estou triste. Aprendi a fazer de minhas amizades a minha família, aprendi a respeitar o próximo oferecendo mais carinho e atenção, aprendi que minha escolaridade é parte de mim, mas não é tudo, aprendi a arriscar em busca de um sonho, aprendi a comprar passagens só de ida e desejar que meu caminho fosse iluminado de pessoas alegres e altruístas. Aprendi a ser forte com os olhos cheios de lágrima. Aprendi a ser quem eu sou, de ter orgulho de onde eu vim e de tudo que conquistei.

Sei que estás bem, acolhida e em paz. Continue orando por todos aqueles que a amam. Hoje é dia de amadurecimento. As minhas lágrimas secarão, mas você sempre estará em meu coração. E como diz a letra: “...ando devagar porque já tive pressa, levo esse sorriso porque já chorei demais”.
Te Amo! Saudades!

domingo, 7 de setembro de 2014

E onde mora a sensatez?


Objetivos, planos, estratégias. Todos nós temos isso, até o mais “destranbelhado” dos humanos. Buscamos, incessantemente, realizar nossos anseios através de tarefas bem arquitetadas. Afinal, atualmente, sequer podemos nos permitir ter tempo de sonhar. “Quem sonha já perdeu tempo”, é o que dizem por aí. Não critico esta situação, mas creio, cada vez mais, que uma vida baseada em planos, não é “natural”.
Viver com sensatez e em busca de equilíbrio (pessoal) não quer dizer que você irá viver com uma agenda debaixo do braço. Uma bíblia de seu cotidiano. Isso é chato e desnecessário. Você pode se planejar, desde que contando com o imprevisto e o desconhecido. Uma vez ouvi que toda grande jornada começa quando se põe o primeiro pé na rua. Pagando passagens para o desconhecido, provando sabores exóticos de sorvete, visitando uma trilha quase inexplorada, ou até mudando o caminho que você faz para seu trabalho. Tudo é válido para se permitir a aprender.
Nunca me acomodei, tampouco pensei demasiadamente nos meus cronogramas. Programações são interessantes, mas perco minha atenção facilmente. Penso que cada dia fora do comum é um passo que você dar em sua vida, que, metaforicamente, chamamos de caminho. Saio de casa, enfrento a estrada escura e vazia, visito uma praça, converso com o porteiro e conquisto o sorriso de alguém. Para mim, isso é viver.
Morre lentamente aquele que não vira a mesa quando está infeliz com o que faz, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
(imagem:  cena do filme "A vida secreta de Walter Mitty")

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Crônica


Toda história começa com um “Era uma vez...”, mas ele não gostava disso. Vivia sempre no presente e escondia seu passado para conversas despropositadas de bar. Nunca gostou da ideia de deixar tudo para depois. O tal do “depois” nunca chegou para ele e só de pensar nisso já era perda de tempo. Talvez fosse culpa do seu mapa astral. A vida dele não foi fácil, o calor incomodava-o e o frio não o deixava dormir. Preferia acordar cedo, pagar suas contas e rir um pouco. Sentia uma melancolia no fim da tarde como se os sonhos fossem embora com o último raio de sol sobre a linha do horizonte. A noite não exigia planos, mas atitude, um copo cheio e histórias a visitar durante a madrugada. Usava sempre duas toalhas e gostava de dizer “Oi, tudo bom?” com os olhos. Gostava de falar, mas sabia ouvir. Sempre acreditou que as pessoas têm muita opinião de tudo, mas pouco ouvidos. Gostava de ler e escrever. Tinha um vício na sétima arte e adorava provocar o sorriso em uma linda garota. Sempre mostrava um pouco de si aos poucos. Para ele, o interesse deve ser conquistado sempre no crédito, nunca à vista. 

terça-feira, 27 de maio de 2014

Apenas uma pausa


Uma vez li: “Não quero a opinião do jornalista, dele eu espero os fatos. Opinião eu tenho a minha”. Diante de protestos, lutas e lamentações nos últimos tempos, paramos para analisar nossa democracia e nossos hábitos. Calma, este não é um texto político, tampouco tentarei esmiuçar tal temática divergente e polêmica, apesar de saber claramente que temos sim uma democracia consolidada e legítima, no entanto, sofremos pelas escolhas feitas diante daquela caixa de ferro a cada quatro anos. Mas deixemos isso de lado.

Penso sobre o seguinte: discutimos, exaltamo-nos e até perdemos amigos por convicções maniqueístas e desproporcionais por nada. O resultado pode ser previsto, bem mais do que imaginávamos. Creio que vivemos uma ditadura imposta por meios tecnológicos e modas infundadas. Vivemos a ditadura da imagem e pseudomoralismo.

Quantas vidas são perdidas sob a névoa da ingratidão, do orgulho e da futilidade? Quantas vezes você já mudou de dieta? Quantas vezes não deu bom dia quando chega ao trabalho? Quantas vezes não se escondeu atrás da multidão e não bateu palmas ao fim de um discurso? Quantas vezes não atravessou a rua para não cruzar com um medigo logo a frente? Quantas vezes mudou para a novela porque assim se distraía melhor? Quantas vezes somente apertou as mãos quando queria mesmo era dar dois beijos num encontro? Quantas vezes deixou de contemplar um bom samba para ouvir um blockbuster musical americano qualquer? Quantas vezes pensou em uma desculpa quando queria dizer não? Quantas vezes esqueceu de sua origem e de como chegou onde está?

Vivemos, sim, a ditadura do hoje, do "belo", do "culto", da comédia desnecessária, do fugaz. Gosto de escrever para materializar meus devaneios, então, para tentar esquivar-me deste destino trágico e esgotar por aqui, digo: calma, isso é somente minha opinião!

terça-feira, 13 de maio de 2014

Insônia




Durante a noite não conseguiu dormir. Revirou uma pilha de papéis velhos que estavam no fundo do armário, arrumou os livros na estante e até limpou a casa, mas o sono não veio. Nem os devaneios causados por meia hora de Chopin o fez cair no sono. Estudar tampouco. Ele estava ali, no quarto, condenado, e sua única companhia era a solidão. Os lençóis ainda estavam bagunçados porque neles não quis mexer. Saiu conversou sobre política e futebol com o porteiro da madrugada. Contou quantos azulejos existem entre o hall e sua porta da frente. Comeu um miojo. No entanto não conseguiu ver um filme completo. Para esse hobby ele sempre precisou de total descompromisso e naquela noite ele estava prometido à inquietude dos noturnos. Viu uma luz entre a cortina, foi à janela, observou a rua e nada viu. Estava Fatigado de si e de seu infortúnio. Encontrou velhas cartas em uma gaveta, leu todas e se sentiu em outro lugar e momento por um breve instante. Aquilo não o fez bem, pois não queria encontrar aquilo de que não queria se lembrar. Guardou as cartas, abriu o computador e escreveu uma crônica. Assim, pela primeira vez durante toda a noite, conseguiu ter foco. Deitou e dormiu ainda sem ter sono. Acordou ainda com vontade de dormir.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Na boa?


Na boa?
A gente tá muito acertadinho, muito certinho
A gente tá cheio de inho
Noite passada me peguei com horário para dormir
E acertando o horário para acordar
Estamos cheios de horários e esquecendo a hora de se perder
Pois, na boa? A gente deve se perder de vez em quando
Se perder
Deixar de se ter
Pegar uma bicicleta no feriado
Com alguma grana para não passar fome
Sair, se perder, dar trabalho ao tempo que nos dá trabalho
E ir sozinho, só com esse inho
E lá, perdido, encontrar o que a gente sempre foi
Do jeitinho que estávamos quando choramos da primeira vez
Lá, perdido, o tempo não faz sentido
Sentindo o real sentido de sentir
Cara, na boa? Deixa de querer só ganhar
Só gananciar
Perde, cara! Acorda e perde!
Pede pra jogar peteca com um menino e perde!
Passa o troco sobrando para o padeiro
E mostra que tá sobrando!
Perde! Saca, assim, ganhar não significa nada
Saca? Na boa?
Só se perdendo é que a gente volta a se achar
E não há nada melhor do que se achar
Por não haver nada melhor do que se perder
Rafael Martins

Texto de um antigo e verdadeiro amigo que, assim como eu, gosta de se perder para se encontrar

quinta-feira, 3 de abril de 2014

De onde você é?



Pessoas interessantes não têm pudor. Calma, eu explico. Elas vivem intensamente, a seu modo. Não pedem permissão. Elas mudam de cidade. Investem em projetos sem garantia. Fazem novas amizades. Não criam expectativas. Elas se interessam por pessoas que são o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam convites para fazer algo que nunca fizeram. Estão sempre dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do “zero” várias vezes. Não se assustam com o passar do tempo. Sobem no palco. Fazem loucuras por amor. Compram passagens só de ida.

Pessoas interessantes estão aqui e ali, elas te ligam durante a noite sem ter um assunto, te acompanham na fila do supermercado. Estão onde você acha que nada de interessante sairá de lá. Aparecem e desaparecem.