quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Não diga que já vai


Nunca venha me dizendo que já vai. Por favor, não me deixe sentir saudades. Não bata na porta dando um adeus ao entrar. Não faça movimentos bruscos com seu sorriso porque isso é baixaria no meu coração. Faça e desfaça tudo e diga que não vai dar, mas nunca, nunca mesmo comece um desenho já pedindo uma borracha. Na vida, tudo é feito à caneta. No máximo se pula um parágrafo ou se vira a página.

Não procure entender o fácil. O óbvio é enigmático quando se olha de perto. Suplique aos céus, caia de joelhos e não minta para si mesmo. Não peça para gritar “gol” ouvindo o rádio. A “geral” gritará mais forte. Pegue o ônibus quando não tiver dúvidas. Pegue o carro e atravesse a cidade quando quiser ter certeza. Não dê sobrando e espere o troco. O que sobra nunca é resto. Chore sozinho, porque a esperança é cinza, quem sabe? Comece e termine.

Ame e esqueça, às vezes; mas nunca, nunca mesmo, venha me dizendo que já vai.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

...mais um devaneio eleitoral


Comparando os dois planos de governo e estritamente o aspecto econômico, que é o que mais pesa numa administração pública e reflete-se em toda a sociedade, vemos duas vertentes opostas, mas não comparáveis. Não podemos fechar-nos em uma visão geral, temos que analisar o contexto e a própria fisiologia do país em que vivemos.

Historicamente, o Brasil tendeu (até porque nada é perfeito) a ser um Estado Social, natureza dada pela CF/88, vertente não vislumbrada, ou meramente descartada, na pretensa ação econômica do partido tucano. Esse afirma que o que país tem feito é errado, isso porque é comparado com a ótica Neoliberal. A economia não é uma ciência exata, deve-se ter uma ponderação com o modelo de Estado adotado. Bem, o fato do PSDB ter dado as diretrizes do Bolsa Família, isso não o torna o desenvolvedor de uma política social. A visão econômica do atual governo não é igual ao PSDB, é muito mais ampla que isso.

A política esquerdista deu ênfase à universalização de serviços públicos essenciais e sociais, principalmente depois do lançamento do Brasil Sem Miséria cujos pilares são política de transferência, ampliação do acesso a serviços e inclusão produtiva. É certo que pode não ser a mais progressista, mas levemos em conta que o déficit social do país é centenário. Méritos também à política keynesiana que atuou firme durante a crise mundial, com o país gastando e investindo, em vez de entrar em recessão e arrocho junto com os temerários países europeus. Além disso, o Bolsa Família é sim compatível com um estado neoliberal, mas um estado SOCIAL está longe de compatibilizar-se com uma filosofia neoliberal.

Eu não acredito nesse modelo de Estado Mínimo para o desenvolvimento socioeconômico de um país tão desigual como o Brasil. Exemplo é que o candidato PSDBista propõe concessão de crédito fácil a médico para construção de seus consultórios, isso é PRIVATIZAÇÃO da Saúde! A historia também nos mostra que não foi com medidas neoliberais que países se desenvolveram de forma igualitária. Vamos olhar para a sociedade e ver o quanto um país pode crescer com a política e gestão adequadas às suas finalidades.

Não sou de Partido algum. Sou do Nordeste sim, tenho afinidades com a esquerda e uma linha de pensamento que é fruto do que eu analiso da política do país, humildemente.

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Amor


Este é o texto mais difícil que já escrevi. A pessoa mais importante da minha vida partiu de maneira abrupta e vira mais uma estatística nessa guerra que chamamos de trânsito. Somente após a missa de sétimo dia arrisco a rascunhar algo, sabendo que nenhuma palavra aqui resumiria metade do sentimento que minha alma clama e de tudo que aprendi com ela.

A morte não espera um último beijo, uma última palavra de carinho ou um conselho. Ao contrário, a morte deixa as roupas no varal, a comida no fogão e não espera você pagar as contas do mês. A morte é mais triste para quem fica, para quem tem que suportar a ausência mesmo que insuportável. Quem tem que dizer adeus sozinho na esperança de ser ouvido e que encontra aconchego nos lençóis da cama ainda desarrumada.

Sempre me lembrarei do seu carinho em minha cabeça, do café logo cedo da manhã, das idas e vindas do colégio segurando sua mão, dos biscoitos escondidos estrategicamente embaixo da pia da cozinha, das broncas pela minha bagunça, do espelho na porta da sala, pelos conselhos simples e diretos, das noites em que me socorria quando adoecia e quando dormiu no corredor de um hospital quando eu estava numa maca, sentirei saudades dos beijos na minha testa em meu aniversário, da voz alegre ao telefone, da sua humildade, da sua coragem em viver e, principalmente, de sua tão admirada e evidente Fé.

Com você aprendi a ter um sorriso fácil, mesmo quando estou triste. Aprendi a fazer de minhas amizades a minha família, aprendi a respeitar o próximo oferecendo mais carinho e atenção, aprendi que minha escolaridade é parte de mim, mas não é tudo, aprendi a arriscar em busca de um sonho, aprendi a comprar passagens só de ida e desejar que meu caminho fosse iluminado de pessoas alegres e altruístas. Aprendi a ser forte com os olhos cheios de lágrima. Aprendi a ser quem eu sou, de ter orgulho de onde eu vim e de tudo que conquistei.

Sei que estás bem, acolhida e em paz. Continue orando por todos aqueles que a amam. Hoje é dia de amadurecimento. As minhas lágrimas secarão, mas você sempre estará em meu coração. E como diz a letra: “...ando devagar porque já tive pressa, levo esse sorriso porque já chorei demais”.
Te Amo! Saudades!

domingo, 7 de setembro de 2014

E onde mora a sensatez?


Objetivos, planos, estratégias. Todos nós temos isso, até o mais “destranbelhado” dos humanos. Buscamos, incessantemente, realizar nossos anseios através de tarefas bem arquitetadas. Afinal, atualmente, sequer podemos nos permitir ter tempo de sonhar. “Quem sonha já perdeu tempo”, é o que dizem por aí. Não critico esta situação, mas creio, cada vez mais, que uma vida baseada em planos, não é “natural”.
Viver com sensatez e em busca de equilíbrio (pessoal) não quer dizer que você irá viver com uma agenda debaixo do braço. Uma bíblia de seu cotidiano. Isso é chato e desnecessário. Você pode se planejar, desde que contando com o imprevisto e o desconhecido. Uma vez ouvi que toda grande jornada começa quando se põe o primeiro pé na rua. Pagando passagens para o desconhecido, provando sabores exóticos de sorvete, visitando uma trilha quase inexplorada, ou até mudando o caminho que você faz para seu trabalho. Tudo é válido para se permitir a aprender.
Nunca me acomodei, tampouco pensei demasiadamente nos meus cronogramas. Programações são interessantes, mas perco minha atenção facilmente. Penso que cada dia fora do comum é um passo que você dar em sua vida, que, metaforicamente, chamamos de caminho. Saio de casa, enfrento a estrada escura e vazia, visito uma praça, converso com o porteiro e conquisto o sorriso de alguém. Para mim, isso é viver.
Morre lentamente aquele que não vira a mesa quando está infeliz com o que faz, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite, uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.
(imagem:  cena do filme "A vida secreta de Walter Mitty")

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Crônica


Toda história começa com um “Era uma vez...”, mas ele não gostava disso. Vivia sempre no presente e escondia seu passado para conversas despropositadas de bar. Nunca gostou da ideia de deixar tudo para depois. O tal do “depois” nunca chegou para ele e só de pensar nisso já era perda de tempo. Talvez fosse culpa do seu mapa astral. A vida dele não foi fácil, o calor incomodava-o e o frio não o deixava dormir. Preferia acordar cedo, pagar suas contas e rir um pouco. Sentia uma melancolia no fim da tarde como se os sonhos fossem embora com o último raio de sol sobre a linha do horizonte. A noite não exigia planos, mas atitude, um copo cheio e histórias a visitar durante a madrugada. Usava sempre duas toalhas e gostava de dizer “Oi, tudo bom?” com os olhos. Gostava de falar, mas sabia ouvir. Sempre acreditou que as pessoas têm muita opinião de tudo, mas pouco ouvidos. Gostava de ler e escrever. Tinha um vício na sétima arte e adorava provocar o sorriso em uma linda garota. Sempre mostrava um pouco de si aos poucos. Para ele, o interesse deve ser conquistado sempre no crédito, nunca à vista. 

terça-feira, 27 de maio de 2014

Apenas uma pausa


Uma vez li: “Não quero a opinião do jornalista, dele eu espero os fatos. Opinião eu tenho a minha”. Diante de protestos, lutas e lamentações nos últimos tempos, paramos para analisar nossa democracia e nossos hábitos. Calma, este não é um texto político, tampouco tentarei esmiuçar tal temática divergente e polêmica, apesar de saber claramente que temos sim uma democracia consolidada e legítima, no entanto, sofremos pelas escolhas feitas diante daquela caixa de ferro a cada quatro anos. Mas deixemos isso de lado.

Penso sobre o seguinte: discutimos, exaltamo-nos e até perdemos amigos por convicções maniqueístas e desproporcionais por nada. O resultado pode ser previsto, bem mais do que imaginávamos. Creio que vivemos uma ditadura imposta por meios tecnológicos e modas infundadas. Vivemos a ditadura da imagem e pseudomoralismo.

Quantas vidas são perdidas sob a névoa da ingratidão, do orgulho e da futilidade? Quantas vezes você já mudou de dieta? Quantas vezes não deu bom dia quando chega ao trabalho? Quantas vezes não se escondeu atrás da multidão e não bateu palmas ao fim de um discurso? Quantas vezes não atravessou a rua para não cruzar com um medigo logo a frente? Quantas vezes mudou para a novela porque assim se distraía melhor? Quantas vezes somente apertou as mãos quando queria mesmo era dar dois beijos num encontro? Quantas vezes deixou de contemplar um bom samba para ouvir um blockbuster musical americano qualquer? Quantas vezes pensou em uma desculpa quando queria dizer não? Quantas vezes esqueceu de sua origem e de como chegou onde está?

Vivemos, sim, a ditadura do hoje, do "belo", do "culto", da comédia desnecessária, do fugaz. Gosto de escrever para materializar meus devaneios, então, para tentar esquivar-me deste destino trágico e esgotar por aqui, digo: calma, isso é somente minha opinião!

terça-feira, 13 de maio de 2014

Insônia




Durante a noite não conseguiu dormir. Revirou uma pilha de papéis velhos que estavam no fundo do armário, arrumou os livros na estante e até limpou a casa, mas o sono não veio. Nem os devaneios causados por meia hora de Chopin o fez cair no sono. Estudar tampouco. Ele estava ali, no quarto, condenado, e sua única companhia era a solidão. Os lençóis ainda estavam bagunçados porque neles não quis mexer. Saiu conversou sobre política e futebol com o porteiro da madrugada. Contou quantos azulejos existem entre o hall e sua porta da frente. Comeu um miojo. No entanto não conseguiu ver um filme completo. Para esse hobby ele sempre precisou de total descompromisso e naquela noite ele estava prometido à inquietude dos noturnos. Viu uma luz entre a cortina, foi à janela, observou a rua e nada viu. Estava Fatigado de si e de seu infortúnio. Encontrou velhas cartas em uma gaveta, leu todas e se sentiu em outro lugar e momento por um breve instante. Aquilo não o fez bem, pois não queria encontrar aquilo de que não queria se lembrar. Guardou as cartas, abriu o computador e escreveu uma crônica. Assim, pela primeira vez durante toda a noite, conseguiu ter foco. Deitou e dormiu ainda sem ter sono. Acordou ainda com vontade de dormir.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Na boa?


Na boa?
A gente tá muito acertadinho, muito certinho
A gente tá cheio de inho
Noite passada me peguei com horário para dormir
E acertando o horário para acordar
Estamos cheios de horários e esquecendo a hora de se perder
Pois, na boa? A gente deve se perder de vez em quando
Se perder
Deixar de se ter
Pegar uma bicicleta no feriado
Com alguma grana para não passar fome
Sair, se perder, dar trabalho ao tempo que nos dá trabalho
E ir sozinho, só com esse inho
E lá, perdido, encontrar o que a gente sempre foi
Do jeitinho que estávamos quando choramos da primeira vez
Lá, perdido, o tempo não faz sentido
Sentindo o real sentido de sentir
Cara, na boa? Deixa de querer só ganhar
Só gananciar
Perde, cara! Acorda e perde!
Pede pra jogar peteca com um menino e perde!
Passa o troco sobrando para o padeiro
E mostra que tá sobrando!
Perde! Saca, assim, ganhar não significa nada
Saca? Na boa?
Só se perdendo é que a gente volta a se achar
E não há nada melhor do que se achar
Por não haver nada melhor do que se perder
Rafael Martins

Texto de um antigo e verdadeiro amigo que, assim como eu, gosta de se perder para se encontrar

quinta-feira, 3 de abril de 2014

De onde você é?



Pessoas interessantes não têm pudor. Calma, eu explico. Elas vivem intensamente, a seu modo. Não pedem permissão. Elas mudam de cidade. Investem em projetos sem garantia. Fazem novas amizades. Não criam expectativas. Elas se interessam por pessoas que são o oposto delas. Pedem demissão sem ter outro emprego em vista. Aceitam convites para fazer algo que nunca fizeram. Estão sempre dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do “zero” várias vezes. Não se assustam com o passar do tempo. Sobem no palco. Fazem loucuras por amor. Compram passagens só de ida.

Pessoas interessantes estão aqui e ali, elas te ligam durante a noite sem ter um assunto, te acompanham na fila do supermercado. Estão onde você acha que nada de interessante sairá de lá. Aparecem e desaparecem.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Doce distração


Vi no meu armário uma antiga camisa que tem escrito “i lost my Love in a storm”. Bem, foi um dia de chuva. Grandes turbulências acontecem repentinamente, no entanto, elas têm nome e lugar para acontecer. Nosso estado de espírito é provocado através da pessoa que nos tira o sono. Pior é conviver com ela que é o motivo de nosso enclausuramento em pensamentos ilógicos.

O amor é opressor, tira nossa energia, ao mesmo tempo em que se alimenta de si. Às vezes penso em não ter visto nada além do superficial, mas você me incomodou. E ficará assim por um bom tempo, até que passará. O tempo não cura feridas, apenas põe fim a uma ressaca. E eu estou com ressaca de você. Ironicamente, a vontade de beber vinho é tão grande quanto a de melhorar.


Espero que fique bem, é provável que não a veja mais e que aos poucos sairá do meu coração. Espero que fique bem, pois você não sabe, mas foi mais do que uma doce distração.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Dois


Ele era diferente, tinha modas e manias, caminhava rapidamente, coçava a cabeça quando estava ansioso e possuía uma incrível preocupação com o tempo, talvez por sua composição astrológica que ele teimava em não acreditar. Ela era séria, tinha um olhar triste, mas era carinhosa e gentil, possuía um ciúme irresistível e cultivava uma modéstia admirável.

No apê dele, sempre víamos as roupas amassadas no canto do quarto, as chinelas quase embaixo da cama, papéis compartilhando o espaço de cima da mesa marrom que ganhara da tia, capas de CDs nas gavetas e o notebook aberto com algum filme passando. Ela sempre achou estranho sua mania de cinema. Via-o com olhos de alguém bobo, mas irresistivelmente atraente e interessante.

Os dois combinavam. Gostavam da discrição e das aventuras entre as quatro paredes. Tinham sonhos e objetivos, vidas e vivências. Ele ia e ela o seguia, não atrás, ao lado. Gostavam de tardes no parque e de barzinhos na madrugada.

Porém, um dia a conversa parou. As ligações cessaram, mudaram de horário, e demoravam a ser atendidas. As divergências sempre existiam, mas eram ofuscadas pela opressão dos sentimentos bons e das noites de vinho no tapete da sala dele. Não importa como, os rostos ficaram inconvenientes e, de repente, a fala tornou-se grito. Minto, eles não brigavam, se evitavam. Do sol quente e da cerveja gelada, sobrou o alento das lembranças. O sábado tornou-se depressivo e o saudosismo suas primeiras palavras.

Um dia, a vida a dois deixou de ser fantasia ou romance e se tornou apenas vida a dois. Foi isso que eles perceberam. E aos poucos as conversas voltaram. A conformação era o sentimento mais límpido que repousava nos travesseiros. O amor tem um pouco de compreensão. Dizer “te amo” não é um “bom dia”. Ela entendeu. Ele se adaptou.

Ambos assinaram o acordo e as toalhas voltaram para o box do banheiro.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Lembranças e pipocas


Lembranças são partes da vida que ficaram para trás, mas que, em sua maioria, colaboraram para construir o que somos hoje. Quem me conhece sabe que costumo lembrar, reconstruir pensamentos, mas nunca buscar corrigir algo, pois tudo já passou. Um amigo hoje me mandou uma mensagem, e as lembranças vieram no rodapé.

A nostalgia é um sentimento que me incomoda, mas é bom, por sinal. Surgi para fazer você não esquecer do pouco que passou, viveu para estar onde conseguiu chegar. Se não sente nada ao se lembrar, é porque não viveu verdadeiramente aquele momento. Simplesmente passou. Lembrar das idas ao São Francisco para ver filmes, das ladeiras ao som do brega do sábado a noite, do banheiro com a placa “beco da bosta”, de dormir em uma rede sob o ar-condicionado e passar madrugadas com Lars Von Trier, Kaufman, Allen e R. Kelly foi arrebatador naquele momento em minha vida. Uma verdadeira reconstrução audiovisual, de vida, e, ao mesmo tempo, a concretização de uma ótima amizade.

Meu amigo disse que “a vida tem disso mesmo”. É verdade. Ela, por si só, não possui existencialidade própria, mas seu significado aparece nos momentos em que nos dedicamos a algo ou compartilhamos objetivos. Ver que algo foi importante, é lembrá-lo com nostalgia, ou melhor, saudades.

A um amigo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Adaptação


E debaixo do tronco de uma árvore na mata, escondidos. Em meio aos tiros que precediam a morte e o frio. Conversaram pela primeira vez sinceramente.

Charles: Lembro que você gostava da loira da 4ª série. Você tentava chamar sua atenção, mas quando virava as costas, ela ria de você.

Don respondeu: É verdade, sabia que ela ria de mim. Mas a amava.

Charles: Mas ela te achava patético!

Don: Isso já era problema dela. Meu irmão, você é aquilo que ama, não quem ama você.


Depois de um tempo percebi que não era a sua ausência que me fazia sofrer, mas sim, era o que restava de seu amor que me fazia verdadeiramente viver. Manter-se preso é um modo de sobreviver. Sinta e tenha orgulho disso, a opinião alheia não mudará nada. E quase sem querer perceberá, em uma noite qualquer, que você é aquilo que ama, e não quem ama você. 
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sábado, 9 de novembro de 2013

A Ilusão da igualdade


A escola pública não consegue preparar seus alunos para o Enem e os vestibulares tão bem quanto as escolas particulares de ponta. Solução: melhorar a qualidade do ensino público? Não: criar cotas nas universidades para alunos egressos de escolas públicas. O sistema político-partidário é tradicionalmente dominado por homens. Solução: iniciativas para enfrentar a cultura machista e discriminatória? Não: criar cotas de reserva para candidatas mulheres nas eleições legislativas. A programação de emissoras de Rádio e televisão privilegia músicas e filmes estrangeiros. Solução: estimular a formação de artistas nacionais, a produção de suas criações em meio digital e multiplicar festivais e eventos de divulgação de suas obras? Não: criar cotas mínimas de programação de conteúdo nacional em Rádio e TV.

O Brasil não enfrenta seus problemas objetivamente. No país, quando qualquer grupo se sente prejudicado ou sub-representado, a política busca atalhos, e não a resolução efetiva, que demandaria debate, persistência e vontade geral. Vende-se a ilusão de que as cotas, por si só, reparariam injustiças históricas e estabeleceriam algum tipo de equilíbrio de representatividade entre os diversos grupos sociais. É ilusão, pois cada ser humano encerra muito maior valor ou complexidade do que apenas a sua origem geográfica ou étnica, identidade religiosa ou sexual, características físicas etc.

A utilização abusiva e sem critérios do atalho das cotas pode gerar distorções piores que as que pretende enfrentar, gerar tensões e ressentimentos e, principalmente, adiar o debate quanto a soluções efetivas para desigualdades constatadas. Porque não cotas de gênero? Porque não cotas religiosas? Porque não cotas de acordo com a origem dos candidatos segundo as diversas regiões do país, ou do estado, ou dos bairros de uma cidade? De acordo com o projeto, até 40% das vagas de cada concurso poderão ser destinadas não àqueles que se prepararam melhor e que num certame aberto se classificaram como os mais aptos a exercerem determinada função pública, mas sim aos que se enquadrarem em algum critério arbitrário de inclusão em segmento protegido por cotas. A proposta é extremamente nociva. Fere a isonomia, desestimula a meritocracia e, a médio prazo, tende a piorar a qualidade do serviço público. Não contempla nenhuma metodologia científica séria, sociológica, antropológica ou gerencial, masapresenta o sedutor discurso de compensação de injustiças seculares, como se, para compensá-las, fosse necessário praticar outras injustiças no presente. É importante que o Senado discuta e aprimore esta proposição.

Não parece longe o dia em que algum legislador, constatando que há mais de 30 anos um time do Nordeste, Norte ou Centro-Oeste não vence o Campeonato Brasileiro de Futebol da Série A, irá propor algum tipo de critério de cotas para supostamente fazer justiça aos brasileiros dessas regiões. 

Com uma diferença, a reserva de 20% praticamente fará com que o concurso perca o caráter concorrencial. Ou seja, bastará ao negro tirar a nota mínima para conquistar o cargo. Isso não é direito. É privilégio. De fato, se somarmos os 20% possíveis para as pessoas com deficiência com os 20% possíveis para os negros, então poderemos ter 40% dos servidores entrando no serviço público não por meio de um concurso, mas por meio de um teste de aptidão mínima, tal como é o Exame da Ordem dos Advogados. É uma política paliativa e desarrazoada.
Sem mais.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Simplicidade do complicado


Perdemos mais tempo arrumando desculpas do que vivendo. Adiando do que aceitando a dificuldade. Perdemos mais tempo explicando a desistência do que enfrentando o sim. Garanto que a fuga dá mais trabalho do que se encontrar, pois estaremos longe, mas com saudades. Estaremos protegidos, mas vazios. Aliviados, mas entediados. A vida é simples, não há como acalmar o coração senão vivendo. Parece que não conseguiremos, mas acredite, a vida é feita de sustos bons. Os riscos valorizam a recompensa e viver não é para solitários.

Pensei que nunca me equilibraria em uma bicicleta, mas minha mãe fingiu que segurava minha garupa e pedalei de olhos fechados. Pensei que nunca aprenderia a ler, mas as letras garrafais e bem delineadas da “tia” da escola foram minhas primeiras histórias. Pensei que não teria namorada, mas o beijo veio distraído no recreio da segunda série. Pensei que não entraria na faculdade, mas sacrifiquei noites sobre livros e depois desfrutei de boas calouradas. Pensei e fui fazendo e fazendo. 

Acha que somos impossíveis, mas é do impossível que o amor gosta. O impossível é o possível repartido.

Texto adaptado.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Aos novos, aos antigos


Para as amizades não existe conceituações objetivas e definitivas. Se você é amigo, não respeitará convenções sociais. A educação ficará em segundo plano diante de dois amigos em uma mesa de bar. O escárnio e o respeito andam juntos em uma mesma sintonia.

Não determino a origem das amizades. Amigos não decoram a data do primeiro abraço, riso ou do primeiro porre. A amizade tem uma memória alforriada. Jamais liga para fazer comparações ou testar afinidade. Não lamentaremos injustiças, mas riremos do tempo passado.

Amigo que é amigo te deixa desconfortável, ele te desconsola. Ele não dará “tapinhas” nas suas costas e dirá “É assim mesmo.” Não! Ele te dará um tapa na cara e dirá para você olhar para cima e que a tristeza passará. Fará você rir de si mesmo para ver o que já superou na vida. O amigo de verdade mostra suas vulnerabilidades, ele te exibirá como uma relíquia e fará com que todos saibam que você está ali.

Em momentos cruciais e difíceis ele sempre mostra sua boa crueldade. Ensinar-te-á a ver não o óbvio, mas o verdadeiro. Na amizade não há espaço para romantismos. Amigo de verdade não te pedirá um copo com água. Ele abrirá sua geladeira e tomará sua coca-cola. Não há rótulos que o identifique, há ações.

Aos novos, aos antigos.
(Foto: cena do filme "the intouchables")

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Ao tempo, uma poesia


O brilho de seus cabelos castanhos amanheceu em minha mente naquele dia.
Era incomum isso para mim.
Lembrara da noite em que a vi, disse “oi” e ela sorriu para mim.
Cheguei em uma fria madrugada,
Vi as ruas em uma bela tarde,
Discursei em uma noite com amigos,
e em outra, despretensiosa, a vi.
Como um barco que busca a terra distante,
Como uma música que busca ouvintes perdidos na madrugada,
Como a fé que não necessita de justificativas para existir.
Sempre admirei a terra molhada, após um dia de chuva.
Mesmo após um temporal, lá nasce a vida.
Simples, calma, justa, diferente.
O carinho inoportuno é sempre o mais interessante, o mais vivido, o mais prolongado.
Talvez ela seja assim em mim.
Espero aprender a admirá-la ainda mais.
Não há celebração que a mereça.
Não há humildade que combata sua ternura.
Não há apresentação que vença sua chegada.
Não há elogios que revivam suas palavras.
Agradeço ao destino, ou ao mundo pequeno.

Para você.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Cão manco


Sou devoto dos cachorros mancos. Aquele cachorro com uma perna imaginária, apoiando-se no vento. Admiro imensamente o vira-lata que, apesar de quebrado, percorre seu trajeto com o focinho erguido. Irei segui-lo na rua para descobrir o que come e onde mora. Posso entornar as latas de lixo para me tornar igual. Fico curioso e assombrado pela força sobrenatural que emana de seu andar. Ele perdeu a pata, mas não a estrada. Ele perdeu a pata, mas não a vontade. Ele perdeu a pata, mas não a esperança. Ele perdeu a pata, mas não perdeu a lembrança de caminhar.

Não tenho pena dele, nem cometo o desatino de me comparar. O cão manco é um homem inteiro.
Passeia por mim e não pede desculpa. Não menosprezo sua convicção: o cachorro manco também corre. O cachorro manco talvez voe. O cachorro manco esquece que tem chão. Sua esperança é uma centopeia apressada.

Ele não se entregou ao encolhimento, continua se arriscando no trânsito pela compreensão. Aceitou apenas que a vida não é perfeita e ninguém é capaz de controlá-la.

Os homens com vergonha de amar deveriam adotar um cachorro manco e contemplar o esforço da ausência. Segurar a patinha inexistente e enxergar o quanto ela é musculosa. Encarar os olhos carentes desprovidos de cílios, nada separando a realidade do fundo das pupilas. Sua aparição transforma nosso jeito de desejar o mundo. É só pegar o animal no colo que paramos de reclamar dos pequenos aborrecimentos. Desistimos do orgulho. Nasce uma suave fé da carícia. Porque o cão manco confia antes de conhecer. Faz festa mesmo sem ser convidado. No amparo estranho, abanará o rabo e tremerá de contentamento. Ele sofreu e não se tornou arredio. Sofreu e não deixou de oferecer o coto.

Um cão manco é uma passagem para a infância – ele lambe o rosto para lavar pudores e ressentimentos. Aceita um prato de comida como se fosse o seu próprio aniversário. Harmonioso na falta, nos diz que não dependemos de equilíbrio, e sim de um lugar para ir.

O cão manco é meu professor de transcendência. Explicou-me que eu não posso amar por dois, posso amar por três, quatro, cinco, o que precisar para retribuir a ternura de outro amor. 
Carpinejar.

sábado, 17 de agosto de 2013

Enganos e Acertos


Olhar, sorrir, mentir. O amor abre espaços para enganos. Enganamo-nos para viver a dois. A beleza da cumplicidade e a frieza da indiferença convivem lado a lado. Quando você acerta é porque errou há tempos. Possivelmente já perdoou seus arrependimentos e encontrou novos motivos para pedir desculpas. Como vivemos eternamente enganados no amor?

Talvez porque o engano retira-nos da mesmice sentimental. A apatia de nosso conforto é provocada pelo interesse afetivo, que cresce e se distribui promiscuamente em nossos pensamentos. O interesse é orgulhoso e objetivo. A minha mente me sabota quando durmo. A dúvida da humanidade é saber se evoluímos com os nossos amores e enganos, ou apenas enterramos velhos sentimentos em um cemitério de recordações não vividas.

Lembrei, lendo hoje este poema:

“Como nos enganamos fugindo ao amor, como o desconhecemos talvez com receio de enfrentar, sua espada coruscante, seu formidável poder de penetrar o sangue e nele imprimir uma orquídea de fogo e lágrimas”.

Foto do filme: Brilho eterno de uma mente sem lembranças

sábado, 10 de agosto de 2013

No outro lado do quarto


Há algum tempo não escrevo neste blog, creio que devido a situações em minha vida recente. Situações boas, dessa vez. Bem, de qualquer modo, temo pelo despreparo dessas linhas, mesmo quando ainda estão apenas em minha mente.

Observando a cortina, o tapete, a TV, às vezes sinto um leve sussurro de “Boa Noite” da solidão do outro lado do quarto. Já somos amigos. Então, lembrei. Penso que não devemos ter esperança em algo, mas fé. A fé nos move, nos evidencia, ela prova quem somos. A esperança morre, para e espera algo que não teremos se assim fizermos jus ao seu nome.

Não tenho esperança na igreja, ou no fim da fome na África, ou na abolição da corrupção em nosso país. Tenho fé no que podemos fazer, construir, mudar. Se sinto fome, como. Se estou animado, brinco. Se estou triste, me calo. Palavras não ditas são filosofias escondidas. Se tenho esperança, pratico a fé. E a minha é deslocada, atípica, sutil. Se você a percebe, é por que deixei que você percebesse. Minha expressão de fé não é vã. Eu a exerço quando te observo, toco em você e deixo um gesto no ar. Minha fé está no pequeno espaço entre nós. 


Se você sofre, tenha fé. Não ache que ninguém quebrará o monopólio de sua dor. Termine de se arrepender e pratique mais de você. É preciso discutir a fé quando combatemos a esperança preguiçosa. E quando fecho meus olhos e vejo você, falo de fé com a solidão no outro lado do quarto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Democracia contra a letargia


As manifestações realizadas nestes dias buscam diversas reivindicações e não se voltam apenas para a queda de um regime de governo. Essa pluralidade de questionamentos traz à tona uma dúvida sobre nossa democracia e sua eficiência.

Bem, ao contrário do que muitos pensam, nosso sistema eleitoral/democrático funciona (e muito bem). É um dos mais modernos do planeta. No entanto, vivemos, creio eu, uma crise de representatividade, onde quem assume cargos políticos não nos representa de fato, ou extravia-se dos objetivos que outrora defendia.

Penso que a população cansou de ver na pauta política discutida assuntos irrelevantes ou que, direta ou indiretamente, tornar-se-ão inúteis com o tempo. Projeto de cura gay, aumentos salariais dos congressistas, discussões de legitimidade entre o judiciário e o legislativo, dentre outros temas igualmente desprezíveis ou que retardam nossa justiça, como a Pec 37. Enquanto isso, o custo de vida aumenta, dentistas são queimados vivos, jovens são assassinados por causa de um celular e um pai sofre para levar seus filhos ao colégio com uma passagem absurdamente desproporcional à sua realidade.

Assistimos à elitização do futebol e à farra com a concessão de diárias para “apadrinhados” políticos irem à Europa, enquanto a massa do povo sofre com o desprezo dado ao SUS e ao transporte público. Infelizmente, no Brasil, a mídia mostra, mas não provoca. Prefere-se falar sobre quantos milhões o Neymar vai ganhar a discutir uma possível redução de impostos ou uma CPI dos estádios superfaturados.


No Brasil, o buraco é sempre mais embaixo.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Essa é a liberdade de expressão!



Marco Feliciano foi muito infeliz em suas frases, é fato. No entanto, é agredido e acusado por dar sua opinião, isso é um absurdo. Ele defende o "seu povo" - eleitores - e por mais que suas palavras soem agressivas, não pode sofrer agressão por dizer o que pensa. O povo está confundindo liberdade de expressão com homofobia. Flagrante erro. 

Quando ele disse que só sairia da comissão se o Genuíno e o JP Cunha, CONDENADOS no Mensalão, saíssem da Comissão de Constituição e Justiça, ele estava certíssimo! É vergonhoso ver protestantes invadindo as sessões da CDH enquanto que, ali do lado, estão dois condenados na maior e mais importante comissão do congresso. Deviam sim levantar suas vozes de protestos, mas na CCJ, e não mudar o foco atacando alguém que é inimputável por suas palavras (imunidade material).

Há uma linha tênue entre opinião e preconceito, mas mais sutil ainda é separar a emoção da razão. É só olhar os fatos para ver que essas acusações são puro sensacionalismo de “sindicalistas da moral e bons costumes” que no Brasil que existe. Pior, meus caros, é ver Dirceu, Genuíno e toda aquela corja atuando firmemente no governo ou em seus bastidores.

Não sou a favor dele, da igreja, dos protestantes, dos católicos, dos gays e muito menos da mídia. Devemos olhar para onde realmente interessa.

Daqui a pouco alguma fábrica explode, algum famoso é assaltado, uma dezena de pessoas morrem em algum acidente...e tudo será, novamente, esquecido. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Café na tela



Sabe-se que a televisão é boa companhia. Há quem more sozinho e ligue o aparelho todos os dias, ao voltar para casa, apenas para se sentir menos solitário. Outros, mesmo com amigos na sala, não conseguem deixar de prestar atenção na tela, interrompendo conversas só para ouvir melhor.

Um pesquisa comportamental da Universidade da Califórnia descobriu que os depressivos podem se beneficiar com uma boa dieta de rostos televisivos pela manhã. Os rostos precisam ter tamanhos reais e estarem à distância de uma conversação normal. É como se substituísse as pessoas e desse humor similar ao da socialização normal.

Nesse sentido, há uma categoria de espectadores ainda pouco estudada, mas digna de nota: a do cara que conversa com a tv. Levando ao extremo sua cotidiana interação com os pixels. A relação que se tem com a telinha vai da personalidade de cada um.

Por exemplo, eu falo às vezes com minha TV, digo: "Não diga!" ao comentário óbvio da apresentadora do telejornal. Gosto de adivinhar o gracejo final das reportagens (tenho grande talento nessa área) e inventar chamadas mais interessantes: "No próximo bloco: como saber se seu hamster está possuído? E mais: os gols da rodada".

Há quem responda às perguntas dos shows de prêmios, decifre charadas, dê boa noite ao âncora, não se contenha ao ser instigado num programa infantil, ou cante a música do programa do Ratinho. Também, nos filmes, faço questão de avisar a menina ingênua que o bandido está vindo por trás com uma foice. Em filmes, aliás, sou do tipo participativo: ofendo o elenco e bato as pernas no espanto da cena de suspense. Outros inserem dublagens toscas nas novelas e, muitas vezes, ficam melhores que as originais.

Mas, na dúvida, parafraseando uma finada vinheta da MTV: “Desliga a TV e vai ler um livro”.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O que há no mar?



Há algum tempo não escrevia, não tinha motivações, ou melhor, inspirações. A ironia nessa situação é que quando estou passando por situações conflituosas, ou, até certo ponto ofegantes, não consigo parar para escrever nada, minha mente torna-se uma confusão sem fim. Outrora momentos assim eram “inspiradores”, hoje são borrões em minha memória e barreiras cognitivas. Não consigo escalar. Odeio me sentir atormentado por um dilema moral-social. Antes fosse um cálculo matemático indecifrável.

Penso que a maioria dos sofrimentos são banais, pois são evitáveis. Mas nosso corpo busca com que (ou quem) se preocupar. É um mergulho no mar aberto, onde a calmaria da superfície contrasta com os tubarões na profundidade. Sabemos do perigo, mas nossa mente quer nadar. Assim me sinto. A questão é que somente teremos algum resultado se nos jogarmos ao mar, de peito aberto e “dar bicudos” nos tubarões. Não há outra maneira de ser feliz.

O paradoxo desta metáfora é que o mesmo caminho da famigerada felicidade é o do possível sofrimento, das dúvidas. Temos que aguardar pelos dois e saber enfrentá-los. Pois se um dia você vencer seus tubarões e voltar à superfície não reclame de ter saudades do mar, pois foi somente lá, nas dificuldades, que você arriscou e foi você mesmo.

Se viu algo sob a água, mergulhe! Vá atrás! Não tenha medo de mostrar quem você é e lute com os tubarões. Se tem um problema, resolva-o. Você provavelmente emergirá com as cicatrizes, mas saberá que quando você quiser poderá sempre mergulhar novamente.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Busca



Não comentarei sobre o fim do mundo, pelo contrário, prefiro falar sobre a busca incessante pela vida e prazer.
Há dentro de cada um de nós valores, sentimentos, desejos e frustrações, que não são perceptíveis pelas pessoas que estão em nossa volta. Muitas ocasiões, tomados por determinados sentimentos, nós apenas calamos e deixamos que o pensamento flua, impregnando a alma.
Ainda bem que é assim, pois há sentimentos, há sensações, há prazeres na vida que não se pode partilhar com ninguém; são sentimentos que calam no fundo da alma de cada um de nós, a reafirmar a nossa condição de gente. Muitas vezes, pode ser uma raiva intensa de determinada pessoa, que, em face de convenções sociais, não pode ser externada; outras vezes, pode ser apenas a vontade quase incontida de ter no aconchego dos braços a pessoa que se ama, mas que, às vezes por timidez ou por outra circunstância qualquer, não temos coragem de revelar.
Todavia, para mim, o importante mesmo não é a possibilidade ou a impossibilidade de se externar um sentimento, pelas mais diversas razões. O que importa mesmo, desde a minha percepção, é sentir, é ter a convicção de que o tempo passa e não perdemos a capacidade de sentir as emoções que sentimos em tantas oportunidades já vividas.
Viver, por isso, é sim, um quase incontido prazer. Aliás, Freud dizia que quem fixa os objetivos da vida é a busca do prazer. Textualmente: “Quem fixa os objetivos da vida é simplesmente o Princípio do Prazer, que rege as operações do aparelho psíquico desde a sua origem” ( O mal-estar da civilização)








segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Campanha para a Secretaria da Cultura de São Luís


Resposta de Zeca Baleiro à ideia para ser secretário municipal da cultura de São Luís

"Este texto é para agradecer a mobilização que foi feita nas redes sociais há cerca de um mês pedindo o meu nome para Secretário Municipal de Cultura de São Luís do Maranhão. Naturalmente fiquei lisonjeado com a “campanha”, uma iniciativa de fãs, entusiastas e amigos, mesmo que não tenha sido feito nenhum convite oficial.


Nunca havia passado pela minha cabeça o projeto de assumir um cargo como o de Secretário de Cultura, mas é claro que, uma vez deflagrada a campanha, minha mente sonhadora se perdeu em mil projetos e devaneios. Sonhei festivais, editais, ocupação artística da área histórica, revitalização de fato, oficinas, intercâmbios e troca de conhecimentos com o resto do país. Sempre lutei, à minha maneira e com as armas que tinha, por uma vida cultural proativa, intensa e autossuficiente nas cercanias do Maranhão, estado cuja diversidade culturale racial ímpar faz dele um dos grandes tesouros do país (ainda que bastante escondido).

Mas o cargo de Secretário Municipal de Cultura é um cargo político, e mais que político, burocrático. E eu, por mais que me esforçasse, não me sentiria capaz (não neste momento pelo menos) de desempenhar a função como devida. Sou um artista, e é dessa maneira que sinto que posso ajudar no desenvolvimento cultural do meu lugar de origem. Mas não tenho ilusões. Não se muda o cenário cultural de uma cidade, estado ou país com atitudes paternalistas ou favores de balcão (cultura que aliás sempre imperou no Maranhão), mas sobretudo com uma discussão madura sobre o tema e uma proposta efetiva e plausível de política cultural. Infelizmente o Maranhão – e São Luís a reboque – está ainda na pré-história do debate político sobre cultura, como de vários outros debates (e faço aqui uma exceção honrosa a alguns guerreiros solitários como os amigos Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho).

O que vigora é a “politicagem” mais estéril e infrutífera (frutífera apenas para os bolsos dos beneficiados, que não são poucos) e a briga de interesses tacanhos de grupos políticos e/ou partidários. Ora, a cultura é um bem comum, e deveria estar acima de interesses deste ou daquele. Mas não á assim que acontece, infelizmente.

E assim vai-se levando a carruagem, dando esmolas à nobreza da cultura popular e enriquecendo os cofres de joões-ninguéns articulados e bem relacionados, mas sem nenhum comprometimento com o fazer cultural. Minto, pois eles têm sim um comprometimento com a cultura - a cultura do dinheiro, sujo de preferência, e ganho às custas do suor de poetas, pintores, escritores, músicos, grafiteiros, atores ou simplesmente amantes da arte e da beleza. Enriquecem enquanto morrem à míngua felipes, leonardos, tetés, nivôs e toda a realeza mestiça espalhada (e esquecida) nos guetos de nossa outrora “Ilha Rebelde”.

Pois é justamente o que falta à nossa cidade: rebeldia. Rebeldia de verdade, visceral, guerreira, suicida quem sabe. Aprender a não bater continência aos absurdos e desmandos de governantes, sejam quais forem. Aprender que fazer cultura é muito mais que administrar orçamentos de Carnaval e de São João, prestigiando grupos não por talento ou mérito, mas por retribuição a sei lá que “tenebrosas transações”.

Há muitas pessoas capazes em São Luís – artistas ou não - para ocupar o cargo de Secretário de Cultura. Espero que o prefeito eleito tenha a sabedoria de escolher uma pessoa honesta e realmente comprometida com os rumos culturais da cidade. Nenhum governo, em nenhuma esfera, pode ser considerado “vitorioso” se não se basear no tripé básico Saúde + Educação + Cultura. Desejo sorte a ele e à cidade durante seu mandato.

E se por acaso acontecer de um dia eu ser de fato convidado para cargo semelhante, espero estar à altura de merecê-lo, e ser capaz de fazer metade do que sonho como projeto cultural ideal para minha cidade, cidade que amo, apesar de todos os pesares de toda relação de amor, que pode (e deve) ser crítica, por que não? Isso não torna o meu amor menor. Nem minha revolta. Sim, revolta contra as almas mesquinhas que querem apequenar o que nasceu para ser grande e belo e altivo, como a nossa Ilha de Upaon-Açu, grande desde o nome até o seu destino."

Zeca Baleiro
26 de novembro de 2012