terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Doce distração


Vi no meu armário uma antiga camisa que tem escrito “i lost my Love in a storm”. Bem, foi um dia de chuva. Grandes turbulências acontecem repentinamente, no entanto, elas têm nome e lugar para acontecer. Nosso estado de espírito é provocado através da pessoa que nos tira o sono. Pior é conviver com ela que é o motivo de nosso enclausuramento em pensamentos ilógicos.

O amor é opressor, tira nossa energia, ao mesmo tempo em que se alimenta de si. Às vezes penso em não ter visto nada além do superficial, mas você me incomodou. E ficará assim por um bom tempo, até que passará. O tempo não cura feridas, apenas põe fim a uma ressaca. E eu estou com ressaca de você. Ironicamente, a vontade de beber vinho é tão grande quanto a de melhorar.


Espero que fique bem, é provável que não a veja mais e que aos poucos sairá do meu coração. Espero que fique bem, pois você não sabe, mas foi mais do que uma doce distração.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Dois


Ele era diferente, tinha modas e manias, caminhava rapidamente, coçava a cabeça quando estava ansioso e possuía uma incrível preocupação com o tempo, talvez por sua composição astrológica que ele teimava em não acreditar. Ela era séria, tinha um olhar triste, mas era carinhosa e gentil, possuía um ciúme irresistível e cultivava uma modéstia admirável.

No apê dele, sempre víamos as roupas amassadas no canto do quarto, as chinelas quase embaixo da cama, papéis compartilhando o espaço de cima da mesa marrom que ganhara da tia, capas de CDs nas gavetas e o notebook aberto com algum filme passando. Ela sempre achou estranho sua mania de cinema. Via-o com olhos de alguém bobo, mas irresistivelmente atraente e interessante.

Os dois combinavam. Gostavam da discrição e das aventuras entre as quatro paredes. Tinham sonhos e objetivos, vidas e vivências. Ele ia e ela o seguia, não atrás, ao lado. Gostavam de tardes no parque e de barzinhos na madrugada.

Porém, um dia a conversa parou. As ligações cessaram, mudaram de horário, e demoravam a ser atendidas. As divergências sempre existiam, mas eram ofuscadas pela opressão dos sentimentos bons e das noites de vinho no tapete da sala dele. Não importa como, os rostos ficaram inconvenientes e, de repente, a fala tornou-se grito. Minto, eles não brigavam, se evitavam. Do sol quente e da cerveja gelada, sobrou o alento das lembranças. O sábado tornou-se depressivo e o saudosismo suas primeiras palavras.

Um dia, a vida a dois deixou de ser fantasia ou romance e se tornou apenas vida a dois. Foi isso que eles perceberam. E aos poucos as conversas voltaram. A conformação era o sentimento mais límpido que repousava nos travesseiros. O amor tem um pouco de compreensão. Dizer “te amo” não é um “bom dia”. Ela entendeu. Ele se adaptou.

Ambos assinaram o acordo e as toalhas voltaram para o box do banheiro.

terça-feira, 19 de novembro de 2013

Lembranças e pipocas


Lembranças são partes da vida que ficaram para trás, mas que, em sua maioria, colaboraram para construir o que somos hoje. Quem me conhece sabe que costumo lembrar, reconstruir pensamentos, mas nunca buscar corrigir algo, pois tudo já passou. Um amigo hoje me mandou uma mensagem, e as lembranças vieram no rodapé.

A nostalgia é um sentimento que me incomoda, mas é bom, por sinal. Surgi para fazer você não esquecer do pouco que passou, viveu para estar onde conseguiu chegar. Se não sente nada ao se lembrar, é porque não viveu verdadeiramente aquele momento. Simplesmente passou. Lembrar das idas ao São Francisco para ver filmes, das ladeiras ao som do brega do sábado a noite, do banheiro com a placa “beco da bosta”, de dormir em uma rede sob o ar-condicionado e passar madrugadas com Lars Von Trier, Kaufman, Allen e R. Kelly foi arrebatador naquele momento em minha vida. Uma verdadeira reconstrução audiovisual, de vida, e, ao mesmo tempo, a concretização de uma ótima amizade.

Meu amigo disse que “a vida tem disso mesmo”. É verdade. Ela, por si só, não possui existencialidade própria, mas seu significado aparece nos momentos em que nos dedicamos a algo ou compartilhamos objetivos. Ver que algo foi importante, é lembrá-lo com nostalgia, ou melhor, saudades.

A um amigo.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Adaptação


E debaixo do tronco de uma árvore na mata, escondidos. Em meio aos tiros que precediam a morte e o frio. Conversaram pela primeira vez sinceramente.

Charles: Lembro que você gostava da loira da 4ª série. Você tentava chamar sua atenção, mas quando virava as costas, ela ria de você.

Don respondeu: É verdade, sabia que ela ria de mim. Mas a amava.

Charles: Mas ela te achava patético!

Don: Isso já era problema dela. Meu irmão, você é aquilo que ama, não quem ama você.


Depois de um tempo percebi que não era a sua ausência que me fazia sofrer, mas sim, era o que restava de seu amor que me fazia verdadeiramente viver. Manter-se preso é um modo de sobreviver. Sinta e tenha orgulho disso, a opinião alheia não mudará nada. E quase sem querer perceberá, em uma noite qualquer, que você é aquilo que ama, e não quem ama você. 
.

sábado, 9 de novembro de 2013

A Ilusão da igualdade


A escola pública não consegue preparar seus alunos para o Enem e os vestibulares tão bem quanto as escolas particulares de ponta. Solução: melhorar a qualidade do ensino público? Não: criar cotas nas universidades para alunos egressos de escolas públicas. O sistema político-partidário é tradicionalmente dominado por homens. Solução: iniciativas para enfrentar a cultura machista e discriminatória? Não: criar cotas de reserva para candidatas mulheres nas eleições legislativas. A programação de emissoras de Rádio e televisão privilegia músicas e filmes estrangeiros. Solução: estimular a formação de artistas nacionais, a produção de suas criações em meio digital e multiplicar festivais e eventos de divulgação de suas obras? Não: criar cotas mínimas de programação de conteúdo nacional em Rádio e TV.

O Brasil não enfrenta seus problemas objetivamente. No país, quando qualquer grupo se sente prejudicado ou sub-representado, a política busca atalhos, e não a resolução efetiva, que demandaria debate, persistência e vontade geral. Vende-se a ilusão de que as cotas, por si só, reparariam injustiças históricas e estabeleceriam algum tipo de equilíbrio de representatividade entre os diversos grupos sociais. É ilusão, pois cada ser humano encerra muito maior valor ou complexidade do que apenas a sua origem geográfica ou étnica, identidade religiosa ou sexual, características físicas etc.

A utilização abusiva e sem critérios do atalho das cotas pode gerar distorções piores que as que pretende enfrentar, gerar tensões e ressentimentos e, principalmente, adiar o debate quanto a soluções efetivas para desigualdades constatadas. Porque não cotas de gênero? Porque não cotas religiosas? Porque não cotas de acordo com a origem dos candidatos segundo as diversas regiões do país, ou do estado, ou dos bairros de uma cidade? De acordo com o projeto, até 40% das vagas de cada concurso poderão ser destinadas não àqueles que se prepararam melhor e que num certame aberto se classificaram como os mais aptos a exercerem determinada função pública, mas sim aos que se enquadrarem em algum critério arbitrário de inclusão em segmento protegido por cotas. A proposta é extremamente nociva. Fere a isonomia, desestimula a meritocracia e, a médio prazo, tende a piorar a qualidade do serviço público. Não contempla nenhuma metodologia científica séria, sociológica, antropológica ou gerencial, masapresenta o sedutor discurso de compensação de injustiças seculares, como se, para compensá-las, fosse necessário praticar outras injustiças no presente. É importante que o Senado discuta e aprimore esta proposição.

Não parece longe o dia em que algum legislador, constatando que há mais de 30 anos um time do Nordeste, Norte ou Centro-Oeste não vence o Campeonato Brasileiro de Futebol da Série A, irá propor algum tipo de critério de cotas para supostamente fazer justiça aos brasileiros dessas regiões. 

Com uma diferença, a reserva de 20% praticamente fará com que o concurso perca o caráter concorrencial. Ou seja, bastará ao negro tirar a nota mínima para conquistar o cargo. Isso não é direito. É privilégio. De fato, se somarmos os 20% possíveis para as pessoas com deficiência com os 20% possíveis para os negros, então poderemos ter 40% dos servidores entrando no serviço público não por meio de um concurso, mas por meio de um teste de aptidão mínima, tal como é o Exame da Ordem dos Advogados. É uma política paliativa e desarrazoada.
Sem mais.

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Simplicidade do complicado


Perdemos mais tempo arrumando desculpas do que vivendo. Adiando do que aceitando a dificuldade. Perdemos mais tempo explicando a desistência do que enfrentando o sim. Garanto que a fuga dá mais trabalho do que se encontrar, pois estaremos longe, mas com saudades. Estaremos protegidos, mas vazios. Aliviados, mas entediados. A vida é simples, não há como acalmar o coração senão vivendo. Parece que não conseguiremos, mas acredite, a vida é feita de sustos bons. Os riscos valorizam a recompensa e viver não é para solitários.

Pensei que nunca me equilibraria em uma bicicleta, mas minha mãe fingiu que segurava minha garupa e pedalei de olhos fechados. Pensei que nunca aprenderia a ler, mas as letras garrafais e bem delineadas da “tia” da escola foram minhas primeiras histórias. Pensei que não teria namorada, mas o beijo veio distraído no recreio da segunda série. Pensei que não entraria na faculdade, mas sacrifiquei noites sobre livros e depois desfrutei de boas calouradas. Pensei e fui fazendo e fazendo. 

Acha que somos impossíveis, mas é do impossível que o amor gosta. O impossível é o possível repartido.

Texto adaptado.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Aos novos, aos antigos


Para as amizades não existe conceituações objetivas e definitivas. Se você é amigo, não respeitará convenções sociais. A educação ficará em segundo plano diante de dois amigos em uma mesa de bar. O escárnio e o respeito andam juntos em uma mesma sintonia.

Não determino a origem das amizades. Amigos não decoram a data do primeiro abraço, riso ou do primeiro porre. A amizade tem uma memória alforriada. Jamais liga para fazer comparações ou testar afinidade. Não lamentaremos injustiças, mas riremos do tempo passado.

Amigo que é amigo te deixa desconfortável, ele te desconsola. Ele não dará “tapinhas” nas suas costas e dirá “É assim mesmo.” Não! Ele te dará um tapa na cara e dirá para você olhar para cima e que a tristeza passará. Fará você rir de si mesmo para ver o que já superou na vida. O amigo de verdade mostra suas vulnerabilidades, ele te exibirá como uma relíquia e fará com que todos saibam que você está ali.

Em momentos cruciais e difíceis ele sempre mostra sua boa crueldade. Ensinar-te-á a ver não o óbvio, mas o verdadeiro. Na amizade não há espaço para romantismos. Amigo de verdade não te pedirá um copo com água. Ele abrirá sua geladeira e tomará sua coca-cola. Não há rótulos que o identifique, há ações.

Aos novos, aos antigos.
(Foto: cena do filme "the intouchables")

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Ao tempo, uma poesia


O brilho de seus cabelos castanhos amanheceu em minha mente naquele dia.
Era incomum isso para mim.
Lembrara da noite em que a vi, disse “oi” e ela sorriu para mim.
Cheguei em uma fria madrugada,
Vi as ruas em uma bela tarde,
Discursei em uma noite com amigos,
e em outra, despretensiosa, a vi.
Como um barco que busca a terra distante,
Como uma música que busca ouvintes perdidos na madrugada,
Como a fé que não necessita de justificativas para existir.
Sempre admirei a terra molhada, após um dia de chuva.
Mesmo após um temporal, lá nasce a vida.
Simples, calma, justa, diferente.
O carinho inoportuno é sempre o mais interessante, o mais vivido, o mais prolongado.
Talvez ela seja assim em mim.
Espero aprender a admirá-la ainda mais.
Não há celebração que a mereça.
Não há humildade que combata sua ternura.
Não há apresentação que vença sua chegada.
Não há elogios que revivam suas palavras.
Agradeço ao destino, ou ao mundo pequeno.

Para você.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Cão manco


Sou devoto dos cachorros mancos. Aquele cachorro com uma perna imaginária, apoiando-se no vento. Admiro imensamente o vira-lata que, apesar de quebrado, percorre seu trajeto com o focinho erguido. Irei segui-lo na rua para descobrir o que come e onde mora. Posso entornar as latas de lixo para me tornar igual. Fico curioso e assombrado pela força sobrenatural que emana de seu andar. Ele perdeu a pata, mas não a estrada. Ele perdeu a pata, mas não a vontade. Ele perdeu a pata, mas não a esperança. Ele perdeu a pata, mas não perdeu a lembrança de caminhar.

Não tenho pena dele, nem cometo o desatino de me comparar. O cão manco é um homem inteiro.
Passeia por mim e não pede desculpa. Não menosprezo sua convicção: o cachorro manco também corre. O cachorro manco talvez voe. O cachorro manco esquece que tem chão. Sua esperança é uma centopeia apressada.

Ele não se entregou ao encolhimento, continua se arriscando no trânsito pela compreensão. Aceitou apenas que a vida não é perfeita e ninguém é capaz de controlá-la.

Os homens com vergonha de amar deveriam adotar um cachorro manco e contemplar o esforço da ausência. Segurar a patinha inexistente e enxergar o quanto ela é musculosa. Encarar os olhos carentes desprovidos de cílios, nada separando a realidade do fundo das pupilas. Sua aparição transforma nosso jeito de desejar o mundo. É só pegar o animal no colo que paramos de reclamar dos pequenos aborrecimentos. Desistimos do orgulho. Nasce uma suave fé da carícia. Porque o cão manco confia antes de conhecer. Faz festa mesmo sem ser convidado. No amparo estranho, abanará o rabo e tremerá de contentamento. Ele sofreu e não se tornou arredio. Sofreu e não deixou de oferecer o coto.

Um cão manco é uma passagem para a infância – ele lambe o rosto para lavar pudores e ressentimentos. Aceita um prato de comida como se fosse o seu próprio aniversário. Harmonioso na falta, nos diz que não dependemos de equilíbrio, e sim de um lugar para ir.

O cão manco é meu professor de transcendência. Explicou-me que eu não posso amar por dois, posso amar por três, quatro, cinco, o que precisar para retribuir a ternura de outro amor. 
Carpinejar.

sábado, 17 de agosto de 2013

Enganos e Acertos


Olhar, sorrir, mentir. O amor abre espaços para enganos. Enganamo-nos para viver a dois. A beleza da cumplicidade e a frieza da indiferença convivem lado a lado. Quando você acerta é porque errou há tempos. Possivelmente já perdoou seus arrependimentos e encontrou novos motivos para pedir desculpas. Como vivemos eternamente enganados no amor?

Talvez porque o engano retira-nos da mesmice sentimental. A apatia de nosso conforto é provocada pelo interesse afetivo, que cresce e se distribui promiscuamente em nossos pensamentos. O interesse é orgulhoso e objetivo. A minha mente me sabota quando durmo. A dúvida da humanidade é saber se evoluímos com os nossos amores e enganos, ou apenas enterramos velhos sentimentos em um cemitério de recordações não vividas.

Lembrei, lendo hoje este poema:

“Como nos enganamos fugindo ao amor, como o desconhecemos talvez com receio de enfrentar, sua espada coruscante, seu formidável poder de penetrar o sangue e nele imprimir uma orquídea de fogo e lágrimas”.

Foto do filme: Brilho eterno de uma mente sem lembranças

sábado, 10 de agosto de 2013

No outro lado do quarto


Há algum tempo não escrevo neste blog, creio que devido a situações em minha vida recente. Situações boas, dessa vez. Bem, de qualquer modo, temo pelo despreparo dessas linhas, mesmo quando ainda estão apenas em minha mente.

Observando a cortina, o tapete, a TV, às vezes sinto um leve sussurro de “Boa Noite” da solidão do outro lado do quarto. Já somos amigos. Então, lembrei. Penso que não devemos ter esperança em algo, mas fé. A fé nos move, nos evidencia, ela prova quem somos. A esperança morre, para e espera algo que não teremos se assim fizermos jus ao seu nome.

Não tenho esperança na igreja, ou no fim da fome na África, ou na abolição da corrupção em nosso país. Tenho fé no que podemos fazer, construir, mudar. Se sinto fome, como. Se estou animado, brinco. Se estou triste, me calo. Palavras não ditas são filosofias escondidas. Se tenho esperança, pratico a fé. E a minha é deslocada, atípica, sutil. Se você a percebe, é por que deixei que você percebesse. Minha expressão de fé não é vã. Eu a exerço quando te observo, toco em você e deixo um gesto no ar. Minha fé está no pequeno espaço entre nós. 


Se você sofre, tenha fé. Não ache que ninguém quebrará o monopólio de sua dor. Termine de se arrepender e pratique mais de você. É preciso discutir a fé quando combatemos a esperança preguiçosa. E quando fecho meus olhos e vejo você, falo de fé com a solidão no outro lado do quarto.

sexta-feira, 21 de junho de 2013

Democracia contra a letargia


As manifestações realizadas nestes dias buscam diversas reivindicações e não se voltam apenas para a queda de um regime de governo. Essa pluralidade de questionamentos traz à tona uma dúvida sobre nossa democracia e sua eficiência.

Bem, ao contrário do que muitos pensam, nosso sistema eleitoral/democrático funciona (e muito bem). É um dos mais modernos do planeta. No entanto, vivemos, creio eu, uma crise de representatividade, onde quem assume cargos políticos não nos representa de fato, ou extravia-se dos objetivos que outrora defendia.

Penso que a população cansou de ver na pauta política discutida assuntos irrelevantes ou que, direta ou indiretamente, tornar-se-ão inúteis com o tempo. Projeto de cura gay, aumentos salariais dos congressistas, discussões de legitimidade entre o judiciário e o legislativo, dentre outros temas igualmente desprezíveis ou que retardam nossa justiça, como a Pec 37. Enquanto isso, o custo de vida aumenta, dentistas são queimados vivos, jovens são assassinados por causa de um celular e um pai sofre para levar seus filhos ao colégio com uma passagem absurdamente desproporcional à sua realidade.

Assistimos à elitização do futebol e à farra com a concessão de diárias para “apadrinhados” políticos irem à Europa, enquanto a massa do povo sofre com o desprezo dado ao SUS e ao transporte público. Infelizmente, no Brasil, a mídia mostra, mas não provoca. Prefere-se falar sobre quantos milhões o Neymar vai ganhar a discutir uma possível redução de impostos ou uma CPI dos estádios superfaturados.


No Brasil, o buraco é sempre mais embaixo.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Essa é a liberdade de expressão!



Marco Feliciano foi muito infeliz em suas frases, é fato. No entanto, é agredido e acusado por dar sua opinião, isso é um absurdo. Ele defende o "seu povo" - eleitores - e por mais que suas palavras soem agressivas, não pode sofrer agressão por dizer o que pensa. O povo está confundindo liberdade de expressão com homofobia. Flagrante erro. 

Quando ele disse que só sairia da comissão se o Genuíno e o JP Cunha, CONDENADOS no Mensalão, saíssem da Comissão de Constituição e Justiça, ele estava certíssimo! É vergonhoso ver protestantes invadindo as sessões da CDH enquanto que, ali do lado, estão dois condenados na maior e mais importante comissão do congresso. Deviam sim levantar suas vozes de protestos, mas na CCJ, e não mudar o foco atacando alguém que é inimputável por suas palavras (imunidade material).

Há uma linha tênue entre opinião e preconceito, mas mais sutil ainda é separar a emoção da razão. É só olhar os fatos para ver que essas acusações são puro sensacionalismo de “sindicalistas da moral e bons costumes” que no Brasil que existe. Pior, meus caros, é ver Dirceu, Genuíno e toda aquela corja atuando firmemente no governo ou em seus bastidores.

Não sou a favor dele, da igreja, dos protestantes, dos católicos, dos gays e muito menos da mídia. Devemos olhar para onde realmente interessa.

Daqui a pouco alguma fábrica explode, algum famoso é assaltado, uma dezena de pessoas morrem em algum acidente...e tudo será, novamente, esquecido. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Café na tela



Sabe-se que a televisão é boa companhia. Há quem more sozinho e ligue o aparelho todos os dias, ao voltar para casa, apenas para se sentir menos solitário. Outros, mesmo com amigos na sala, não conseguem deixar de prestar atenção na tela, interrompendo conversas só para ouvir melhor.

Um pesquisa comportamental da Universidade da Califórnia descobriu que os depressivos podem se beneficiar com uma boa dieta de rostos televisivos pela manhã. Os rostos precisam ter tamanhos reais e estarem à distância de uma conversação normal. É como se substituísse as pessoas e desse humor similar ao da socialização normal.

Nesse sentido, há uma categoria de espectadores ainda pouco estudada, mas digna de nota: a do cara que conversa com a tv. Levando ao extremo sua cotidiana interação com os pixels. A relação que se tem com a telinha vai da personalidade de cada um.

Por exemplo, eu falo às vezes com minha TV, digo: "Não diga!" ao comentário óbvio da apresentadora do telejornal. Gosto de adivinhar o gracejo final das reportagens (tenho grande talento nessa área) e inventar chamadas mais interessantes: "No próximo bloco: como saber se seu hamster está possuído? E mais: os gols da rodada".

Há quem responda às perguntas dos shows de prêmios, decifre charadas, dê boa noite ao âncora, não se contenha ao ser instigado num programa infantil, ou cante a música do programa do Ratinho. Também, nos filmes, faço questão de avisar a menina ingênua que o bandido está vindo por trás com uma foice. Em filmes, aliás, sou do tipo participativo: ofendo o elenco e bato as pernas no espanto da cena de suspense. Outros inserem dublagens toscas nas novelas e, muitas vezes, ficam melhores que as originais.

Mas, na dúvida, parafraseando uma finada vinheta da MTV: “Desliga a TV e vai ler um livro”.

sábado, 19 de janeiro de 2013

O que há no mar?



Há algum tempo não escrevia, não tinha motivações, ou melhor, inspirações. A ironia nessa situação é que quando estou passando por situações conflituosas, ou, até certo ponto ofegantes, não consigo parar para escrever nada, minha mente torna-se uma confusão sem fim. Outrora momentos assim eram “inspiradores”, hoje são borrões em minha memória e barreiras cognitivas. Não consigo escalar. Odeio me sentir atormentado por um dilema moral-social. Antes fosse um cálculo matemático indecifrável.

Penso que a maioria dos sofrimentos são banais, pois são evitáveis. Mas nosso corpo busca com que (ou quem) se preocupar. É um mergulho no mar aberto, onde a calmaria da superfície contrasta com os tubarões na profundidade. Sabemos do perigo, mas nossa mente quer nadar. Assim me sinto. A questão é que somente teremos algum resultado se nos jogarmos ao mar, de peito aberto e “dar bicudos” nos tubarões. Não há outra maneira de ser feliz.

O paradoxo desta metáfora é que o mesmo caminho da famigerada felicidade é o do possível sofrimento, das dúvidas. Temos que aguardar pelos dois e saber enfrentá-los. Pois se um dia você vencer seus tubarões e voltar à superfície não reclame de ter saudades do mar, pois foi somente lá, nas dificuldades, que você arriscou e foi você mesmo.

Se viu algo sob a água, mergulhe! Vá atrás! Não tenha medo de mostrar quem você é e lute com os tubarões. Se tem um problema, resolva-o. Você provavelmente emergirá com as cicatrizes, mas saberá que quando você quiser poderá sempre mergulhar novamente.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Busca



Não comentarei sobre o fim do mundo, pelo contrário, prefiro falar sobre a busca incessante pela vida e prazer.
Há dentro de cada um de nós valores, sentimentos, desejos e frustrações, que não são perceptíveis pelas pessoas que estão em nossa volta. Muitas ocasiões, tomados por determinados sentimentos, nós apenas calamos e deixamos que o pensamento flua, impregnando a alma.
Ainda bem que é assim, pois há sentimentos, há sensações, há prazeres na vida que não se pode partilhar com ninguém; são sentimentos que calam no fundo da alma de cada um de nós, a reafirmar a nossa condição de gente. Muitas vezes, pode ser uma raiva intensa de determinada pessoa, que, em face de convenções sociais, não pode ser externada; outras vezes, pode ser apenas a vontade quase incontida de ter no aconchego dos braços a pessoa que se ama, mas que, às vezes por timidez ou por outra circunstância qualquer, não temos coragem de revelar.
Todavia, para mim, o importante mesmo não é a possibilidade ou a impossibilidade de se externar um sentimento, pelas mais diversas razões. O que importa mesmo, desde a minha percepção, é sentir, é ter a convicção de que o tempo passa e não perdemos a capacidade de sentir as emoções que sentimos em tantas oportunidades já vividas.
Viver, por isso, é sim, um quase incontido prazer. Aliás, Freud dizia que quem fixa os objetivos da vida é a busca do prazer. Textualmente: “Quem fixa os objetivos da vida é simplesmente o Princípio do Prazer, que rege as operações do aparelho psíquico desde a sua origem” ( O mal-estar da civilização)








segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Campanha para a Secretaria da Cultura de São Luís


Resposta de Zeca Baleiro à ideia para ser secretário municipal da cultura de São Luís

"Este texto é para agradecer a mobilização que foi feita nas redes sociais há cerca de um mês pedindo o meu nome para Secretário Municipal de Cultura de São Luís do Maranhão. Naturalmente fiquei lisonjeado com a “campanha”, uma iniciativa de fãs, entusiastas e amigos, mesmo que não tenha sido feito nenhum convite oficial.


Nunca havia passado pela minha cabeça o projeto de assumir um cargo como o de Secretário de Cultura, mas é claro que, uma vez deflagrada a campanha, minha mente sonhadora se perdeu em mil projetos e devaneios. Sonhei festivais, editais, ocupação artística da área histórica, revitalização de fato, oficinas, intercâmbios e troca de conhecimentos com o resto do país. Sempre lutei, à minha maneira e com as armas que tinha, por uma vida cultural proativa, intensa e autossuficiente nas cercanias do Maranhão, estado cuja diversidade culturale racial ímpar faz dele um dos grandes tesouros do país (ainda que bastante escondido).

Mas o cargo de Secretário Municipal de Cultura é um cargo político, e mais que político, burocrático. E eu, por mais que me esforçasse, não me sentiria capaz (não neste momento pelo menos) de desempenhar a função como devida. Sou um artista, e é dessa maneira que sinto que posso ajudar no desenvolvimento cultural do meu lugar de origem. Mas não tenho ilusões. Não se muda o cenário cultural de uma cidade, estado ou país com atitudes paternalistas ou favores de balcão (cultura que aliás sempre imperou no Maranhão), mas sobretudo com uma discussão madura sobre o tema e uma proposta efetiva e plausível de política cultural. Infelizmente o Maranhão – e São Luís a reboque – está ainda na pré-história do debate político sobre cultura, como de vários outros debates (e faço aqui uma exceção honrosa a alguns guerreiros solitários como os amigos Joãozinho Ribeiro e Josias Sobrinho).

O que vigora é a “politicagem” mais estéril e infrutífera (frutífera apenas para os bolsos dos beneficiados, que não são poucos) e a briga de interesses tacanhos de grupos políticos e/ou partidários. Ora, a cultura é um bem comum, e deveria estar acima de interesses deste ou daquele. Mas não á assim que acontece, infelizmente.

E assim vai-se levando a carruagem, dando esmolas à nobreza da cultura popular e enriquecendo os cofres de joões-ninguéns articulados e bem relacionados, mas sem nenhum comprometimento com o fazer cultural. Minto, pois eles têm sim um comprometimento com a cultura - a cultura do dinheiro, sujo de preferência, e ganho às custas do suor de poetas, pintores, escritores, músicos, grafiteiros, atores ou simplesmente amantes da arte e da beleza. Enriquecem enquanto morrem à míngua felipes, leonardos, tetés, nivôs e toda a realeza mestiça espalhada (e esquecida) nos guetos de nossa outrora “Ilha Rebelde”.

Pois é justamente o que falta à nossa cidade: rebeldia. Rebeldia de verdade, visceral, guerreira, suicida quem sabe. Aprender a não bater continência aos absurdos e desmandos de governantes, sejam quais forem. Aprender que fazer cultura é muito mais que administrar orçamentos de Carnaval e de São João, prestigiando grupos não por talento ou mérito, mas por retribuição a sei lá que “tenebrosas transações”.

Há muitas pessoas capazes em São Luís – artistas ou não - para ocupar o cargo de Secretário de Cultura. Espero que o prefeito eleito tenha a sabedoria de escolher uma pessoa honesta e realmente comprometida com os rumos culturais da cidade. Nenhum governo, em nenhuma esfera, pode ser considerado “vitorioso” se não se basear no tripé básico Saúde + Educação + Cultura. Desejo sorte a ele e à cidade durante seu mandato.

E se por acaso acontecer de um dia eu ser de fato convidado para cargo semelhante, espero estar à altura de merecê-lo, e ser capaz de fazer metade do que sonho como projeto cultural ideal para minha cidade, cidade que amo, apesar de todos os pesares de toda relação de amor, que pode (e deve) ser crítica, por que não? Isso não torna o meu amor menor. Nem minha revolta. Sim, revolta contra as almas mesquinhas que querem apequenar o que nasceu para ser grande e belo e altivo, como a nossa Ilha de Upaon-Açu, grande desde o nome até o seu destino."

Zeca Baleiro
26 de novembro de 2012

sábado, 1 de dezembro de 2012

Oração



Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso do voo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira, que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos becos de mim, Senhor. Que meus olhos continuem se alargando sempre. Porque eu ainda sonho.

Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo, seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa, o desejo que escorre pela boca e o minuto no segundo seguinte: nada é muito quando é demais.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Essa calou os americanos!


Não é uma notícia nova, mas vale a pena ler de novo, até porque não é todo dia que um brasileiro dá um esculacho educadíssimo em um americano.

Durante um debate em uma universidade, no EUA, o Ex-ministro da Educação e Ex-Governador do DF e atual Senador, Cristóvam Buarque, foi questionado sobre a internacionalização da Amazônia. O americano que perguntou disse que esperava uma resposta de um humanista, e não de um brasileiro. Bem, essa foi a resposta do Senador:

“De fato, como brasileiro eu defenderia que sou contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nosso governo não tenha o devido cuidado com o patrimônio, ele é nosso.

“Como humanista, sentindo a degradação que sofre a Amazônia, é natural que isto se torne um problema mundial e defenda-se a internacionalização. Bem, se a Amazônia, sob a ética humanista deve ser internacionalizada, deve-se internacionalizar também as jazidas de petróleo do mundo inteiro. O petróleo é tão importante quanto a Amazônia, apesar disso os donos do petróleo sentem-se a vontade para aumentar e diminuir o preços dos combustíveis. Da mesma maneira o capital financeiro dos países ricos também deve ser internacionalizado. Se a Amazônia é tão importante então, de fato, não pode ficar nas mãos de uma só pessoa para queimá-la. Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego criado pelas especulações arbitrárias dos países ricos. Antes mesmo da Amazônia gostaria de ver a internacionalização dos grandes museus. O Louvre não deve ficar apenas com a França. Trata-se de um patrimônio mundial e não um privilégio dos milionários egocêntricos como um japonês de decidiu ser enterrado ao morrer com um quadro de um pintor famoso. A cultura é para o mundo inteiro.

Neste encontro aqui nos EUA muitos representantes tiveram dificuldade de entrar na cidade nas fortes fronteiras americanas, assim acho que a cidade de Nova York deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhatan deveria pertencer a todos, assim como Veneza, Paris e Rio de Janeiro, Brasília e Roma.

Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia para não deixá-la nas mãos dos brasileiros, então vamos internacionalizar as reservas nucleares dos EUA, pois estas podem criar uma destruição milhares de vezes maior do que qualquer queimada na Amazônia. Defendo trocar a internacionalização de floresta por dívida. Comecemos garantindo que cada criança no mundo possa COMER e ir à escola. Internacionalizemos as crianças tratando-as todas elas de igual modo, independente do lugar que estão dando a elas os mesmos materiais escolares.

Como humanista, defendo a internacionalização do mundo. Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazônia seja só nossa. Só nossa”

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Professor



Hoje é um dia que passa por nós como os demais, apenas percebido pelo fato de ser um dos vários feriados em nosso país, mas, de fato, é um dos poucos dias que merecem esse famigerado título de feriado, ou de pelo menos lembrado. Dia dos professores!

Não sou professor (já tentei), mas confesso que vontade não falta, pelo caminho traçado, pelo conhecimento adquirido e claro, pelo oportunidade de repassar algo a alguém. É uma ótima sensação, ou deve ser. Nosso país não carece de políticas públicas para a educação, seja na manutenção, seja no fomento do ensino. Elas existem! No entanto, não são plenamente adequadas ou implementadas. Concorrem com outros “interesses” que não geram resultados eficazes ou atingem um porção pequena da população.

Penso que diante de greves, más condições de trabalho e ensino, escolas sucateadas, insegurança e baixíssimos salários, nossos representantes poderiam fazer algo a mais, valorizando a função do professor e não apenas o cargo. O ensino, assim como o conhecimento está em diversos lugares e a capacidade de lecionar esta em todos os recôncavos de nossas escolas (públicas, principalmente), mas não são alvo da nossa deficiente política.

Ao contrário da maioria, não acho que o governo não valoriza nossos professores, creio que nosso país não valoriza o que eles fazem. 

(Este na foto era foi meu professor de matemática, na 8ª série, Pedro Airton. Um dos melhores que tive. Só ele mesmo para fazer simulados na quadra da escola, gincanas de questões de Baskara (era o terror), vivia com suas mãos sujas de giz, sempre com um bom humor e rara excentricidade. )

segunda-feira, 8 de outubro de 2012



Meus amigos, o ministro Joaquim Barbosa, do STF, poderá ser chamado à presidência da Corte Suprema nessa quarta-feira, 10. Com a iminente aposentadoria do atual presidente, ministro Carlos Ayres Britto, a nomeação poderá ser em novembro. Será uma chance de ver melhor a figura do “exaltado e adorado” ministro Joaquim à frente do Tribunal. Em entrevista à Folha de SP, ele afirma não ser um herói no presente julgamento do mensalão (ele se considera mais um anti-herói, rs), mas confirma sua incisividade nas acusações, pois traz de sua experiência como ex-procurador da república essa veia pela proteção da administração pública.

Votou em Lula nas duas oportunidades para presidente, não nega. Ele sabe da melhoria que o país obteve (não sou partidário do PT, ok?) por isso não escondeu seu voto, além de é claro ter sido nomeado pelo ex-presidente para a cadeira no STF. Mas, apesar disso, opõe-se piamente a bonificações e favoritismos políticos e sabe que tem que ser imparcial e julgar. É o que está fazendo desde então.

Considero o ministro Joaquim Barbosa um juiz da corte, e ponto. Também não o considero herói, creio que essas definições advêm do fato de não termos o costume de fazer o correto ou bons exemplos na nossa alta cúpula do país. Considero-o um brasileiro que sofreu (e sofre até hoje) com nosso famigerado racismo, fruto de anos de escravidão e retaliação social devida à cor da pele. Considero-o simples, tímido, humilde, mas com uma personalidade ímpar e forte. Admiro quem se dedica a uma causa e crer que, de fato, aquilo fará diferença e que consegue desenvolver-se na vida. Foi o caso dele, da pobreza e dos banhos no rio de sua cidade no interior mineiro até o ponto maior na nossa justiça.

Assim, exalto-o, não pela sua posição no Judiciário ou por sua figura estar na mídia (acho que isso até o assusta), mas pela sua capacidade de ser quem é, que faz o que tem que ser feito. Julgar e defender nossa constituição.

domingo, 16 de setembro de 2012

Amanhecer



Naquele amanhecer, senti uma brisa cálida no rosto, acordei na varanda do apartamento e, ainda sobre as cobertas frias e amassadas, olhei o horizonte e o sol a nascer. Com o olhar mais agudo olhei para baixo, na entrada da rua, em uma casa qualquer, vi você.

Estava varrendo inadvertidamente a sarjeta onde as folhas amarelas da amendoeira teimavam em cair naquela estação. Você sob aquela sensação primária olhou para cima. Viu-me, petrificou-se. Possuía um olhar indescritível de dó e carinho, mas não havia alegria em seus olhos castanhos e em seu rosto quase sempre sério. Apoiei-me no batente da sacada por um instante, o vento ainda soprava naquela rua estranha, não havia carros, pessoas ou cães perdidos; apenas eu, você e um espaço metafísico entre nós.

Preferi recolher o coração, agarrar-me no orgulho e, dando três passos para trás, fugi do seu olhar esperando que o dia começasse bem.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Nosso final é simples, tchau.



Não há mais nada aqui de você. Tudo foi embora. Deus abençoou meu sonho, minha intenções. Foi assim que acordei e deixei minha cama em seu eterno sono abaixo da janela que há tempos prometo consertar. Com um ar de alegria, pensara que a noite tivera sido perfeita, pois você não estava comigo, não, apenas meu lençol e meu celular na cabeceira que trouxe de outra época. Lembrar que você perseguia-me sem saber, sufocava-me sem intenção, ria de mim mesmo longe da porta da minha casa. Mas estava feliz.

O sol que outrora se escondia detrás das nuvens negras, suas vassalas, agora ilumina meu dia e não permite que o frio de seus lábios molhem minhas lembranças com a nostalgia que acompanhara minhas noites de contos inventados. Já fui russo por muito tempo, então fuja de mim românticos suicidas e vodkas despretensiosas! Não mais!

Sabemos que tudo, nesse caminho sem volta, acompanha-nos como a inércia e repugnância de uma simbiose de sentimentos que não fazem mais sentidos e que, por isso, devem ser largados em nosso “Ser”. Deixe-me apenas com o que tenho de bom em mim, isso eu faço questão de preservar. Assim, sei que nada nos deixa, mas que pode mudar e que será sempre parte de mim, mas nunca eu por completo. Assim tudo passa.

Agora preciso ir, e pegar o caminho que você não viu. Assim, suas memórias me deixarão passar.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A queda do solar de usher



"Durante um pesado, sombrio e silente dia de outono, em que as nuvens pairavam opressivamente baixas no céu, estive passeando sozinho a cavalo em uma região do interior singularmente tristonha, e afinal me encontrei, ao caírem as sombras da tarde, no melancólico solar de usher. Não sei explicar, ao primeiro olhar invadiu-me a alma uma angustia insuportável, poética, cruel, desolação do terror. Contemplei o panorama a minha frente – era uma casa simples, com paisagem simples. Paredes soturnas, janelas vazias, uns poucos canteiros de caniços e uns troncos brancos de arvores mortas Como um sonho de ópio. Havia um engessamento, uma tontura, uma enfermidade inimaginável. Quem dele desperta, a amarga recaída da vida cotidiana, vive o tombar do véu.  Não era frio. Era indiferença. Uma revolta do coração." 

Edgar Allan Poe

sábado, 4 de agosto de 2012

Ler o mundo



Ou não, porque nem sempre deciframos os sinais à nossa frente. Mas, deve-se continuar. Paixão de ler. Ler a paixão.

Como ler a paixão se é a paixão quem nos lê? Esse é o sentimento quando os inconscientes pergaminhos sofrem um desletrado terremoto. Na paixão somos lidos à revelia. O corpo é um texto.  Alguns, confesso, são hieróglifos dificílimos, mas não será incompetência nossa, iletrados diante deles?

Cada um à sua maneira. O médico até parece o amante. Ele também lê o corpo e lembra a semiologia (ciência das leituras dos sinais, dos sintomas). Freud quis ler o interior, um invisível texto estampado do inconsciente. Marx pretendeu ler a história e descobrir os mecanismos nela inscritos de desigualdade social. Os executivos e empresários falam em “qualidade total”, mas não seria “leitura total”?. Provoco aqui não o termo “leitura da economia”, mas “economia da leitura”. Triste fim de nossas vidas perdidas em anúncios constrangedores e palpites desnecessários.

Um paisagista lê a vida de maneira florida e sombreada. As palavras formam um jardim com um “sotaque” natural. O arquiteto igualmente escreve um texto na prancheta da realidade, suas avenidas podem ser absolutistas, militaristas, mas os rascunhos das ruas podem ser democráticos, expressão das comunidades. O astrônomo lê o céu e a epopeia das estrelas. O físico lê o caos. O administrador lê a vida e tenta organizá-la. Um arqueólogo lê nas ruínas uma história antiga de amor e guerras. Tudo é texto.

Paulinho da viola dizia: “As coisas estão no mundo, só que eu preciso aprender”. Não é só Tostoi que retrata vidas. Uma dança é narração. Uma exposição de artes plásticas é narração. Até o quadro branco sobre o branco de Malevich conta uma história.

sábado, 28 de julho de 2012

...Glup.



Noite estreladas, sons nos becos, cerveja gelada, papos desconcertantes, sincronicidade e um amor a recordar. O que vivemos em nossas “saídas”, happy hour, festas, são pródigos dos “embalos de sábado à noite”, a diferença é que toca pagode ou um reggae de fundo, mas isso, meus caros, é que faz o habitat do brasileiro ser tão especial.

Não há espaços para radicalismos e preconceitos, não há soberba que resista a uma noite debaixo das calhas de casarões históricos e alguns copos de vinho. Não! Não sou o festeiro da vez, mas não sou hipócrita. Não nego aventuras (o livre-arbítrio não deixa), pois elas serão os motivos de meus futuros sorrisos de meia boca.

Sufoca-se no próprio ego e afoga-se em seu pseudomoralismo quem pensa que todos são iguais ou que tudo termina sempre do mesmo jeito. Bem, a garrafa vazia vai para debaixo da mesa, assim como a timidez; mas a alegria mergulha na gota que escorre do copo. Vamos ser quem podemos ser, vamos filosofar, mesmo que nossa ágora seja entre as cadeiras de plástico da esquina.
(foto tirada por mim no Reviver - Centro Hst de São Luís)

sábado, 21 de julho de 2012

Lembranças de histórias não contadas



Nunca fui bom em poesias, histórias ou lições de moral. Gostava das simplicidades, dos ditados populares, do “direto ao assunto”. Enrolava-me até para contar um filme. Mas o conto sempre estava em minha mente e eu sempre evitava ver seu rosto pálido, singelo e enganador. Ninguém quer ouvir histórias tristes, desde que sejam reais. O fato e o mero sonho faz parte do que sou e do que penso. Somos todos assim.

Assim como sem a música, a vida sem um bom texto, sem uma boa história a recordar seria um erro. Vivemos para aprender com aquilo que experimentamos. No entanto, temos que, às vezes, dar um basta a algumas coisas, às lembranças mal resolvidas, aos ciúmes despretensiosos, à fome de barriga cheia, à solidão premeditada. A história é o tesouro da alma, mas o zelo e o toque são dádivas que nos permitimos ter.

Um olhar carinhoso hoje é melhor que devaneios de um amor que se foi.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Inconformismo






Penso em inconformismos todas as noites. É de nascença. Crescemos com genes, mas temos muito a aprender – e podemos fazer isso. A ideia de me fechar em verdades absolutas me constrange, isso me lembra a Idade Média, que, aliás, desenvolveu-se em nossos tristes livros de história como a “Idade das Trevas” (creio que foi isso, eu não estudo mais para vestibular, rs), não porque foi “pobre” em criações culturais, mas, justamente, porque o conformismo reinava. Criamos e Outorgamos, cabe aos demais obedecerem. Conformarem-se.

Por exemplo. não opino contra o modo como alguns ‘ditos’ pastores de ‘ditas’ igrejas “tributam” os suados dízimos de nosso proletariado brasileiro (o que já é um absurdo por si); mas protesto é com o modo, histórico e ideologicamente, que nos fechamos em um mundo de fantasias e de puro conformismo.

O Ser humano desenvolveu o fogo tentando fazer o fogo...e fez. Não há regras de como se devem comportar as ideologias secretas de cada um, pois isso é pessoal e qualquer tentativa de um possível controle sobre o que penso será frustrada. Penso assim, acho que por isso sou constantemente inconstante. Inconformado.

Logicamente devemos saber quem somos e o que podemos fazer, mas justificar a vida alheia é irritante, desnecessário e desgastante, fruto de uma mente banal, fútil. Acho isso de quem tenta fazer manipulações com os outros ou apenas conformá-los.

Viva, seja feliz e gire com o mundo... mas não deixe que ele faça você girar em torno de si próprio.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Não há definições





Não creio que grandes vitórias ou terríveis derrotas possam definir alguém. Nesses momentos somos extremos de nós mesmos, estamos no êxtase do que podemos ser. Na maioria das vezes estamos no comum, no cotidiano, na rotina que é tanto temida, na linha tênue do sorriso de meia-boca e das lágrimas nos lençóis. Esses momentos é que nos definem.

Temos que nos comparar sempre com aquilo que podemos ser de melhor! Não por clichê de frases de Google ou de autores de autoajuda que faturam milhões à custa das decepções alheias, não, mas porque sabemos que a nossa maior conquista está no dia-a-dia, quando precisamos de ajuda e só podemos recorrer a nós mesmos. Não há amigos que resolvam nossos problemas mais rotineiros, pois, se mal resolvidos, eles retornarão como as batidas do sino da igreja fazendo com que você acorde logo cedo.

Você não superará todos os seus problemas, caia na real. No entanto, pode viver com o que tem de melhor em si, e que, por mais que a noite não acabe ou o sol seja mais forte que seus olhos, você sabe que terá que continuar.

O mundo tem que continuar. As pessoas irão te trair. As pessoas irão te amar.

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Nuances Juninas


Ruas enfeitadas, fogos de artifício, sons à meia noite. Em certas datas, experimentamos várias nuances, facetas do comum e do irreverente também. Depende de cada um. Felicidade e Paz em certos dias, mas há também angústia, solidão e tristeza nas valas na beira da estrada, nos viadutos esquecidos, marcados com o grafite de outrora, pessoas que sobraram, assim como os copos descartáveis ao sabor do vento da madrugada.

Há mistura de sentimentos e de fatos, a alegria e a inquietação, a festa e o filme debaixo do cobertor, a canjica e o cigarro, a índia e a recordação. Não se pode ter apenas uma visão e uma equivocada generalização; curtem-se os dois momentos. Pular a fogueira e escrever à luz da TV. Na barraca do beijo a sedução consumada. No devaneio da noite a perfeição contemplada. Vivemos as duas faces. Momentos que de tão comuns, são diferentes.

Se dormir, sonhe com a celebração. Se for comemorar, não esqueça que a noite sempre termina.